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GastronomiaLifestyle

Sirvo-­te uma mousse, dir­-me-­ás quem és

“ O nosso amor acaba sempre assim,

tu velhinha com teu ar ruim

e eu velhinho a sair porta fora”

Algo estranho acontece – António Zambujo

É um facto que todos nós conhecemos, em algum momento, casais assim. Estão juntos há tanto tempo que, quando estamos com eles, conseguimos sentir no ar esta linha ténue de que estes versos falam… Mas o que dizer, quando o casal em questão está junto há pouco mais de um par de meses?

Há algum tempo, convidei a Ana e o respetivo para jantar lá em casa. Já tinha estado com eles duas vezes, mas mal falei com o rapaz, e achei que era uma forma simpática de interagir com eles como casal e ficar a conhecer melhor o rapaz que conseguiu algo que nunca julguei possível: transformar a minha amiga numa mulher “casada”. Tinham juntado os trapinhos há menos de quinze dias e, supostamente, para mim, que sou tão inocente, estariam na chamada lua-de-mel.

Marquei para um sábado, pois teria tempo para fazer algo mais elaborado. Ele tinha-me dito que não gostava de comida vegetariana, mas eu, teimosa como sou, disse-lhe que faria algo que tinha a certeza que iria gostar. Vou-vos confessar: até ao momento de começar a preparar uma refeição, nunca sei exactamente o que vou colocar na mesa. Naquele dia, não foi diferente. Foi um sábado que fui trabalhar e acabou por ser um dia complicado. O que fez com que chegasse a casa relativamente tarde.

A única coisa que tinha planeado de facto era a sobremesa. Tinha passado os olhos numa receita do Chef Avilez (de quem sou fã) e, sabe-se lá porquê, achei ser o dia indicado. Mal sabia eu que a mesma ia ser a rainha da mesa pelas piores razões.

Cheguei a casa tardíssimo e comecei por fazer isso mesmo: a Sobremesa.

Espremi limas, pois necessitava de 120 ml de sumo, e ralei a casca de duas, que misturei no sumo. A seguir, peguei num ramo de manjericão (20 grs de folhas apenas) – e aqui é o momento em que vos digo: sim, mesmo uma sobremesa, ok? Triturei com o sumo de lima e as raspas, até ficar homogéneo. Ora, quando olharem para dentro do copo e parecer que acabaram de fazer uma daquelas coisas detox, que agora andam muito na moda, abram uma lata de leite condensado, coloquem num recipiente alto e misturem o conteúdo verde.

À parte, batam, levemente, duas embalagens de nata fresca (400 grs) e misturem no vosso recipiente. Vão perceber que, ao mesmo tempo que vão misturando as natas, a vossa mousse vai engrossando, não sendo sequer necessário colocar qualquer tipo de gelificante. O ácido da lima é suficiente. Só necessitam de a colocar no frio.

O Jantar foi rápido de fazer: arroz basmati e um caril de tofu, que uma minha receita relâmpago e com alguma batota, mas que todas as pessoas gostam.

Precisam de uma embalagem tofu (para quatro pessoas, é suficiente 250 grs) e 400 grs de espinafres congelados e picados. O resto são especiarias.

Cortem o tofu em quadrados e coloquem a marinar, durante meia hora, com os seguintes temperos: uma colher de chá de sal, outra de pimenta moída na altura, pimentão, gengibre moído no momento, raspa e sumo de um limão (eu uso sempre mistura de pimentas) e uma folha de louro. Enquanto deixamos a marinada apurar, vamos fazer a nossa base?

Descongelem os espinafres, retirando toda a água possível, e coloquem numa frigideira com um pouco de azeite já quente, para os saltear. Quando se aperceberem que os espinafres já se encontram meio cozinhados, juntar uma colher de café de alho em pó, sal q.b., natas (para esta quantidade, sugiro cerca de 100 ml) e o meu ingrediente secreto: uma colher de café de caril. Mexer, até que obtenham um creme uniforme e reservar.

Entretanto, retirar o líquido ao tofu, colocar duas colheres de sopa de óleo vegetal noutra frigideira e deixar aquecer. O tofu deve ser frito, por forma a ganhar consistência e não se desfazer, quando for misturado com os espinafres. A ideia é dourar os pequenos quadrados de proteína de forma a formarem uma capa sem queimar. Quando estiverem prontos, retirar do óleo, deixar secar em papel absorvente. Depois é voltar a colocar a mistura de espinafres ao lume e misturar os nossos quadrados dourados.

Tocam à campainha. Mesmo a tempo, pensei eu.

Entraram, mas logo percebi que algo se passava. Servi uns Martini e conversámos um pouco. Percebi logo que a minha amiga não estava muito bem-disposta e ele, que mal me conhecia, tentava ser o mais cortês possível. Eu faria o mesmo, em casa do “inimigo”.

Passámos à sala, para as entradas. Por esta altura, já ela tinha parado com qualquer simulação de que estava tudo bem. Ele continuava a tentar manter a compostura. E eu, bem ali no meio da guerra das rosas, não sabia o que havia de fazer. O pior de tudo é que só me vinha aquelas primeiras palavras daquela música à cabeça e dava-me, acima de tudo, vontade de rir com aquela situação toda.

Jantámos de forma até pacífica, direi hoje eu. Ele elogiou o caril e disse-me que afinal era o desconhecimento que o levava a pensar que a comida vegetariana era sensaborona. Ri-me. Era o primeiro ponto para mim. Pelo menos, não era daqueles que tinha receio de provar o que não lhe era conhecido. No entanto, a guerrilha à mesa foi subindo de tom, quando ele finalmente lhe começou a responder. Quando eu já imaginava que a minha sala se ia transformar num cenário de Mr. & Mrs. Smith e já estava cheia de pena do rapaz, dizendo-lhe algumas vezes “tem calma…”, resolvi ir buscar a sobremesa.

Entrei com uma taça, cheia de mousse verde alface, ao que ele me perguntou o que era. Com um ar muito orgulhoso, disse:

– Mousse de mangericão e lima.

Finalmente consegui que ambos concordassem em algo, pois olharam um para o outro e torceram o nariz. Coloquei tacinhas e colheres na mesa e servi-me. A taça ficou entre os dois, para se serviram também. Ela fê-lo primeiro – apenas uma colher – e rapidamente disse-lhe:

Vê lá, não tires muito que estás cheinho (e olhem que estou a ser simpática…).

Ele, já farto, encheu a taça.

Bom, a partir daí, foi o descalabro. Acusações para um lado, acusações para outro e eu só pensava no que me tinha metido eu. Ia-lhes servindo vinho para ver se as coisas acalmavam. Em certo momento daquele jantar, comecei a gargalhar sem parar, até que os dois muito indignados olharam para mim e me perguntaram o que se passava. Fui à cozinha, tirei duas colheres de sopa da gaveta, dei uma a cada um e disse-lhes:

– Se querem degladiar-se, pelo menos que seja com um talher maior!

De tão distraídos que estavam a refutar acusações, faziam das colheres de sobremesa as suas espadas, e na taça grande que lhes coloquei à frente, o campo de batalha!!

Depois de perceberem que se estavam a comportar como miúdos, quebrou-se o gelo, riram-se ambos e lá se acalmaram. E a noite acabou de forma pacífica.

Felizmente para ambos e para mim, que me tornei grande amiga dele também, separaram-se seis meses depois. Acho que são muito mais felizes agora do que foram durante todo o tempo que estiveram juntos. No entanto, tanto um como outro, quando lhes recordo deste jantar, se riem com o ridículo da situação. Felizmente que aquela arena verde era apenas grande o suficiente para as colheres.

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Marisa Coelho

Eu, curiosa aprendiz de tachos e letras, inspiro-me nas referências do digníssimo trabalho de outros e dou-lhe o meu cunho pessoal. Conto estórias com personagens, tempos e espaços, condimentadas q.b. E sempre em busca do ingrediente perfeito que muitas vezes se encontra na Dita paixão do que se faz.

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