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Silêncio

Caiu do céu com um grito em crescendo. Aterrou com um som surdo. Por momentos, confuso, contemplou o céu muito branco, tão branco como se não existisse. Levou algum tempo até perceber que continuava ali, inteiro, ele próprio. Sentou-se, braços e mãos a ajudá-lo como colunas, e sentiu debaixo dos dedos o asfalto rude, seco e cinzento. Observou o silêncio. Os passos mudos, as vidas caladas. As pessoas à sua volta não faziam barulho. Não existia um ruído que fosse.

“Desculpe, pode ajudar-me?” ouviu o pânico na sua voz e agarrou um braço.

Olhou para a pessoa. Percebeu os olhos repletos de medo e a boca cosida. Ele, como reflexo do mesmo medo, soltou o braço imediatamente. O homem correu, sem barulho, como um gato, e ele permaneceu ali, imóvel, sozinho, num mundo que tinha baixado o volume para o mínimo. Falou baixinho, e depois alto, e deduziu que não estava surdo porque ouvia a própria voz.

Levantou-se. O pescoço virava-se inquieto para que ele conseguisse absorver tudo. As bocas cosidas, os olhos expressivos. Passavam como se não se vissem uns aos outros, como se o outro não existisse. Nas paredes, observou imagens, desenhos, fotografias. Não havia frases, nem nomes, nem letras. Percorreu as paredes com o olhar. Não existiam palavras. Como se, entendeu subitamente, naquele mundo só existissem conceitos. No mundo dele também existiam conceitos, mas os conceitos tinham nome. Todos precisavam nomeá-los, chamá-los, categorizá-los, partilhá-los. De que serviam os conceitos sem palavras? De que servia sentir sem poder comunicar?

As paredes hipnotizaram-no. Seguiu as mensagens pelas ruas, pelos becos, a tentar compreender aquele mundo novo, onde cada um parecia ser um universo diferente.

Sentiu um toque no tornozelo.

Atada a uma parede por uma corrente, uma senhora tentava tocá-lo. Aproximou-se, curioso: esta senhora não tinha a boca cosida. Mexia-a como se falasse, mas não havia nenhuma palavra que chegasse até ele. Tinha os cabelos desgrenhados da cor do asfalto, as mãos sujas e uns olhos tão profundos que ele só conseguiu ver loucura. Ele olhou para as correntes e viu que eram feitas de palavras. Muito fininhas, com muitas fontes, como se fosse um teste de um tipógrafo. À volta do tornozelo, “Prisão”, e até à parede sucediam-se “Loucura. Solidão. Revolta. Lucidez. Morte. Amor.” Várias palavras a prendiam, a desgastavam. Voltou a observar cada palavra, leu-as em voz alta e reparou que, uma a uma, se iam rompendo. “Prisão” terminou, e os olhos gigantes da mulher não sabiam ser suficientes para lhe agradecer.

Durante um minuto, ela chorou. Depois, como se se tivesse lembrado de algo extremamente importante – o gás ligado ou o mundo para conquistar –, agarrou-o pela mão e desatou a correr. Ele, meio desequilibrado, só soube segui-la, seguir o cabelo cinzento e desgrenhado que dançava freneticamente à sua frente.

Pararam num beco, em frente a uma porta azul. Poderia jurar que a porta era feita de água, de mar, de luz. Ela abriu-a e entrou, levando-o com ela. Dentro, esperava-a um homem igual a ela – olhos loucos, boca livre e cabelo desgrenhado. O homem abraçou-a e ele emocionou-se com o primeiro contacto que via naquele mundo. Ela despiu a camisola rota, sem pudor, e só aí ele percebeu que tinha o corpo coberto de tatuagens. Não eram desenhos; eram apenas palavras. Palavras e palavras e palavras, como se aquela mulher louca tivesse decidido ser um livro. O homem igual a ela pegou numa máquina para tatuar e ela permitiu-lhe a pele do peito.

Foi o primeiro barulho que ele ouviu. O zumbido eléctrico da máquina de tatuar, como se fosse uma colmeia em trabalho. Leu em voz alta as palavras que iam sendo tatuadas com cuidado. “Sou livre” dizia a primeira tatuagem. Ele sorriu e concordou. “E bela”, leu na segunda. Ele levantou os olhos para a cara dela, transformada pela liberdade e pelo sorriso; transformada pela simples palavra à qual dava poder e fazia sua, em que ela agora acreditava. Só podia concordar. Concordar mil vezes, concordar com cada poro da pele morena, cada brilho no olhar verde e cada fio de cabelo agora preto, brilhante, sedoso.

Ela levou-o até à janela. Apontou para a brancura daquele céu inexistente. Ele semicerrou os olhos para conseguir vislumbrar, avistar, entender. Aquele branco intenso não era luz, não era nuvem. Aquele branco intenso, daquela janela, formava a palavra “silêncio” nos céus. Admirado, ele franziu o sobrolho. Em resposta, ela encolheu os ombros. Afinal, continuava presa – ela e todos. Presos a uma só palavra, simples e pequena, dita de forma inocente, mas que tinha tomado proporções de epidemia, de pandemia, de doença contagiosa, de crise. Gigante e incontestável, transformou-os na face do medo e mantinha-os a todos onde só alguns queriam que estivessem.

Ele abriu a janela e gritou. Gritou e gritou e gritou. Com as mãos em concha à volta da boca, gritou tudo o que pôde, trouxe voz do estômago até ao céu. Não se lembra do que gritou; talvez “ruído”, talvez “livre”, talvez apenas tenha sido voz, desesperada por poder ajudar e por poder mudar o rumo dela, dele, do mundo. Gritou até chorar e até perder o som. Foi nesse exacto momento em que a voz lhe faltou que o silêncio rebentou no céu. Choveram risos e as palavras voltaram a fazer sentido.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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