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Silêncio

I.

Nasceu com honras de menino Jesus numa casa feita de silêncios. Cresceu sufocado por uma mãe que o esperou por mais de uma década e fez dele uma extensão de si mesma. Foi benzer o seu milagre ao templo e apressou-se a apresentar-lhe o Deus duro e castrador do catecismo. Dele esperava tudo, porque também ele lhe era tudo. Sufocou-o de amor, mas desse tipo de amor que espera retorno, e deu-lhe honras de ‘homem da casa’, quando o pai se fez eterno. Tomou a sério a sua nova condição, engrossou a voz e o coração, e também por isso demorou a ouvir a sua voz interior. Se ela lhe chegava baixinho, calava-a. A vida seguiria o seu curso natural, o casamento viria, os filhos chegariam e dariam à mãe o consolo na velhice, a sensação de dever cumprido e a promessa de continuidade. Tudo faria sentido. Contudo, nas salas de aula ou nos corredores da universidade não era sobre as pernas descobertas das colegas que se detinha, não lhes buscava os lábios carnudos ou um decote displicente. Se se distraía da sua condição de filho e homem exemplar, os olhos pousavam sem querer em proeminências que emergiam de calças tão masculinas quanto as suas. E de imediato o Deus cruel que o atemorizou desde a infância a infligir-lhe doses insuportáveis de culpa, de medo e de vergonha. Aprendeu com o tempo a conter os gestos, a disfarçar os olhares e a administrar a culpa. No dia do casamento recebeu a noiva com um sorriso esforçado e o coração, de tão apertado, pareceu deixar de bater.

II.

Aprendeu a calar, porque a voz lhe trouxe dor. Desde menina. Amou-o assim que reconheceu nos seus olhos o mesmo vazio de quem como ela se fez soldado na infância. Quis lamber-lhe as feridas que lhe pareciam tão profundas quanto as suas, quis cuidar dele como gostaria que tivessem cuidado da menina que foi. Da mãe pouquíssimas memórias, algumas fotos apenas a confirmar que herdara dela o olhar triste. Do pai, nada. Transitou por instituições onde aprimorou a arte do sofrimento até que o conheceu. O namoro foi rápido e a notícia da gravidez ajudou a que decidissem tornar-se um só. Apenas ele trabalhava e muito. Chegava tarde, viam-se pouco, conversavam cada vez menos. A primeira discussão não tardou e ela surpreendeu-se com a amplitude que a sua voz alcançava. Os odores femininos que as suas camisas traziam ao final iam variando, ora florais ora insuportavelmente adocicados. Eram coisas da cabeça dela, claro, passava demasiado tempo em casa a contruir castelos. Desistiu de contrariá-lo porque isso o deixava nervoso, trazia-lhe memórias antigas e ela queria paz. Mas o dinheiro começou a escassear e as irritações dele a subir de tom, passou a chegar a casa entorpecido, que a vida já não lhe era possível sem anestesia. Ele gritava e ela calava, ele irritava-se e sem querer pousava o punho no seu rosto. Uma, duas, três vezes, até que desistiu de contar. Quando os punhos foram substituídos por punhais percebeu que lutava pela sobrevivência. Na sua cabeça “matar ou morrer, matar ou morrer, matar ou morrer…”. Matou.

III.

Todas as noites as mãos desciam-lhe um pouco abaixo do ventre. Uma por cima da outra como em gestos de oração até adormecer. Mas Deus não vinha. No seu lugar um homem de barba áspera e mãos ágeis procurando o mesmo ventre que ela por impulso aprendeu a proteger. Começou por carícias, parecidas àquelas que lhe dava durante o dia sob o olhar atento da sua mãe, apenas mais demoradas, mais intensas, acompanhadas de suspiros que ela não entendia. Com o tempo as carícias exploravam novas partes do seu corpo infante e foi com a mão dele sobre a sua boca que experimentou a maior dor que alguma vez lhe tinha sido infligida. No final beijou-a, como fazia todas as noites, e transformou o momento num segredo que seria só dos dois. Na manhã seguinte partilharam a mesa do pequeno-almoço como habitualmente, foi ele a barrar-lhe a manteiga no pão, a compor-lhe a lancheira e a levá-la à escola. Para ela toda aquela coreografia se fez de olhos baixos e de silêncios. Com o tempo passou a olhar sempre para baixo, a falar menos e a afrouxar as mãos que continuava a pousar um pouco abaixo do ventre noite após noite. Já não tinha medo, tampouco oferecia resistência, deixou de contar os dias que se transformaram em meses, depois em anos e fez-se mulher debaixo dos seus olhos e do seu corpo. A casa cada vez mais silenciosa. Não precisava de mentir, porque ninguém lhe fazia perguntas, os olhos da sua mãe igualmente baixos a confirmar que aquela era uma batalha solitária. Aprendeu a desaprender-se e a desamar-se tanto e com tanta força que não lhe foi difícil voar daquele 11º andar. Nunca se sentiu tão livre como naquele voo.

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Telma Santos

Licenciada em Direito e apaixonada pela comunicação.
Entendo que o olhar para o mundo e para a actualidade deve ser feito, sempre que possível, por dentro.

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1 thought on “Silêncio”

  1. Este texto é tão violento quanto maravilhoso! As 3 histórias tão reais e infelizmente tão abrangentes. Parabéns Telma.

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