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Sermos nós

Pegou na roupa e pôs dentro da mala. Só aquela de que gostava mais, pois de que adiantava levar qualquer outra? Lembrava-se de uma história qualquer que tinha lido sobre pessoas que não usavam a melhor loiça nem vestiam a melhor lingerie, sempre à espera que algo especial acontecesse, e a única coisa especial que lhes acontecia era a vida, o dia-a-dia, mas eles não se apercebiam. Ela tinha decidido que não seria como aquelas pessoas. Olhou para os bilhetes que tinha na mão. A viagem que tinha sempre querido fazer. Telefonou a todos aqueles que eram importantes para lhes dizer o quanto os amava. Não, claro que não era uma despedida. Não, não tinha nenhuma doença. Estava só a viver a vida, a aproveitar o dia. Tinha tatuado “carpe diem” no dia anterior, um cliché, um perfeito e horrível cliché, mas a verdade era que os clichés existiam por serem verdades tão quase absolutas, tão perfeitamente irritantes por serem quase incontestáveis. Carpe Diem. Riu-se ao ver as letras tatuadas no seu pulso, para não se esquecer.

“Vamos?” perguntou à sua pessoa especial. Ele assentiu, largou tudo, pediu férias inventando uma urgência qualquer, e partiu com ela sem perguntas. Ela emocionou-se; ele tinha aceitado sem perguntas, tinha feito as malas sem dificuldade, tinha-lhe dado a mão sem seguranças, simplesmente preparado e com a alma cheia de reticências, pronto a absorver novos delírios. Como se adivinhasse. E ela sentiu-se tão abençoadamente amada que chorou. Não se preocupou em esconder; ela era aquilo tudo, a loucura, a emoção, a tristeza, a alegria e o amor.

Partiram e aproveitaram aqueles quinze dias que ele tinha conseguido. Beberam muito álcool acompanhado de muita comida boa. Riram-se muito, assistiram a muitos nascer-do-sol antes de dormir, acordaram algumas vezes com o pôr-do-sol, só para recomeçar de novo a loucura, a aventura, o amor. Fizeram muito sexo de luz acesa e namoraram muito de luz apagada; adormeceram todos os dias nos braços um do outro, enquanto contavam os segredos mais secretos que tinham e sentiam os sentimentos mais íntimos que podiam. Não resistiam a um desafio – a um mergulho à noite, a uma noite inteira a dançar com estranhos, a correr nus pelos matos densos. Disseram tudo o que podiam e sabiam, por mais ridículo que fosse, e riram à gargalhada com piadas que não tinham graça para ninguém, mas que entre eles significava tudo, era tudo o que os outros não viam, não conheciam. As férias não eram para pensar, porque às vezes o grande inimigo da vida era a mente demasiado pensativa. Correcção: a vida não era para pensar.

No dia em que tinham de voltar, ele fez a pergunta, com temor na voz: “Estás a morrer?”

E ela respondeu “Não estamos todos?”

Ele percebeu. Separaram-se com um longo beijo e as carteiras vazias, mas com a alma a transbordar de alegria, de memórias, de amor.

Carpe diem, dizia a tatuagem. Ela tinha cumprido, e agora voltava à sua vida normal, longe dos seus delírios estivais, mas cheia de vontade de continuar a ser aquela pessoa nova que sempre tinha sido e agora tinha descoberto. Quando chegou a casa, telefonou de novo a todos de quem gostava. “Estás no hospital?”, foi a pergunta geral. Negou, claro. Imaginou-se a ir para o Hospital, um médico de olhos tristes a dar-lhe semanas de vida, talvez meses, provavelmente só dias. “Não é o que todos temos, Doutor? Simplesmente o resto da vida?” responderia ela, assustada com o fim tão próximo. Suspirou e respondeu negativamente a todas as perguntas: não estava a morrer de nenhuma doença, não tinha ninguém próximo que estivesse a sofrer, não estava a receber tratamento psicológico, nem a pensar suicidar-se. Nada de especial, pelo menos nada de mau. Quis explicar. Quis dizer que estavam todos à espera que algo de especial acontecesse, quando o único que acontecia era a vida, e eles não percebiam. Quis explicar que só tinha finalmente percebido o que era importante, realmente importante, pelo menos para ela: sermos nós. Ir à loucura e voltar. Livres e sem medos, sermos loucos e depois voltar à realidade. Ir à loucura e voltar, porque amanhã o mundo estará igual, à espera. Mas se tivermos sorte, nós sim mudámos, para descobrir algo maravilhoso que nem sabíamos que éramos.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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