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Ser pai e educar uma criança é algo difícil. Porquê?

Não existem magias ou cálculos precisos que nos levem a ser os pais perfeitos, nunca o vamos ser. Por mais que busquemos teorias, por mais que tínhamos a melhor das intenções e vontades, nunca alcançaremos a perfeição.
Educar um filho nunca vai depender inteiramente e em particular apenas aos pais. Podemos escolher o melhor meio para viver, a melhor escola, podemos transmitir as melhores bases, mas não comandamos tudo. A educação não é só a escola, a família e os amigos. A educação é um conjunto de fatores e a maior parte deles não são modificáveis.

Olhando de uma forma generalizada, neste momento consigo sentir que quem dita as regras é a sociedade (se bem que sempre foi mais ou menos isto que aconteceu), não foram os tempos que mudaram , não foram as regras que sofreram alterações , foi a sociedade que se movimentou e com isso chegou o medo de não conseguir acompanhar esse movimento, o medo de ficar para trás ou apenas a um canto do movimento.

Os pais reclamam que cada vez mais as crianças estão difíceis de educar, que antigamente não era assim. Hoje não sabem ouvir um não, eu diria que os pais não sabem dizer o não. Existe o medo de ouvi-las chorar, as birras são constantes, então, o mundo faz “pause”, mas deixar a criança chorar é que não.

São crianças ultraprotegidas do mundo, acho que estou a ser repetitiva, no outro artigo referi esta parte, mas não tem como não o fazer.

Além de serem crianças ultraprotegidas, existe a fascinação que os pais sentem ao vê-los manusear telemóveis, tablets e videojogos. Ficam tão encantados com essa inteligência, que oferecem mais e mais e cada vez mais estímulo interativo.

Da escola, os pais exigem mais e melhor, precocemente esperam que as crianças de infantário sejam letradas, o importante para a sociedade são desenhos bem pintadinhos e aprender a escrever e a ler o quanto antes, não vá a pobre criança entrar no 1º Ciclo sem saber nada.

A escola sente-se pressionada a isso e, desde muito cedo, incentiva ao conhecer e desenhar letras, ao ficarem mais tempo sentados, tempos esses, por vezes, esgotantes e intermináveis, esquecendo o brincar.

É difícil explicar que o que as crianças precisam ao entrar num 1º Ciclo não se ensina fechado numa sala de jardim de infância, que as horas de grafismos sem fim, as horas a praticar o nome, a data, só tiram o essencial.

No outro dia, contava-me uma prima que visitou a Guiné que ficou abismada com a educação daquelas crianças, vazias de tudo e cheias de tanto. Relata que visitou uma escola e, ao entrar numa sala de aula de 1º Ciclo, encontrou cerca de 60 crianças para um único professor. As crianças ao verem pessoas estranhas a entrar, levantaram-se todas, calmamente, cumprimentaram com um “bom dia”, cantaram-lhes uma música tradicional deles, agradeceram e sem qualquer tipo de ordem voltaram a sentar-se. Leram bem? Um professor, 60 crianças, 1º Ciclo. Aqui 25 crianças, 50 pais perfecionistas, 1º Ciclo e coitado do professor.

Perguntamo-nos de onde vem aquela disciplina, aquele respeito espontâneo? Bem, é  simples. Aquelas 60 crianças e tantas outras daquela escola a cair aos bocados têm de limpar todo o espaço envolvente, ajudam na preparação do almoço e, quando terminam as aulas, ajudam na construção da nova escola.

Alto aí, não julguem que a ideia é de alguma forma escravizar a criança, que por este andar ficamos logo com “o caldo entornado” por aqui. Aquelas crianças usam os poucos recursos que têm para fazer mais e melhor, aprendem que é preciso trabalhar, dedicar tempo para ter um resultado. Seja ele bom ou mau, o importante aqui é fazer, pensar, tentar errar, cair e saber que é preciso saber levantar.

A loucura aqui é existirem crianças com 4 e 5 anos que não fazem ideia que a banana tem casca e isto é verídico. Tudo lhes chega pronto às mãos.

O escândalo dos pais é a roupa suja. A mim escandaliza-me a roupa limpinha.

Deixemo-nos de exigir letras e números. Exigíamos antes brincadeira, o saber fazer, o procurar soluções para os problemas, o conseguir ultrapassar barreiras, o ajudar o outro, o espírito de equipa, a solidariedade.

Deixem abertas as portas do mundo, deixem-lhes contribuir na sua própria caminhada.

É essencial perceber de onde vêm as maças. Fundamental perceber que a sopa não vem num saco e é colocada ali no prato. Existem processos antes disso, alguém tem de fazer esse trabalho. Deixem-lhes perceber que as coisas não aparecem limpas sem ninguém as limpar, que o lixo não caminha sozinho para o ecoponto. São todos pequenos pormenores, sei que até podem parecer inúteis, mas fazem toda a diferença.

Uma criança bem preparada para a vida é aquela que participa, que contribui e que, acima de tudo, ajuda o outro e, por essa razão, vai saber respeitá-lo. Não aquela que durante horas memorizou as cores, decorou as figuras geométricas e se massacrou em aperfeiçoar as letras.

Tudo a seu tempo!

Tenho ouvido de diversos pais que a entrada no primeiro ciclo é a tormenta, que as crianças continuam em “modo infantário”, na minha modesta opinião faltou o essencial. Andaram muito tempo em “modo 1º Ciclo”.

Faltou o aprender a brincando, faltou trabalhar a autonomia, faltou sentir que existe o outro que merece respeito, faltou experienciar o mundo, faltou o arregaçar as mangas e fazer.

Andamos aqui a vaguear pelo caminho mais fácil, um atalho se calhar, que se tem vindo a mostrar pouco eficaz.

É certo que, se uma criança de 2 anos come sozinha, demora mais tempo do que se for um adulto a dar. Se uma criança de 3 anos se veste sozinha, vai demorar um pouco mais. Se uma criança de 4 anos lavar os legumes para a sopa, vai levar mais tempo que um adulto. Contudo, este tempo que aparenta perdido mais lá para a frente se traduzirá em sorrisos de observar uma criança que apresenta soluções, de uma criança interessada, de uma criança curiosa, de uma criança que sente que existe mais mundo que o dela.

Se o educar é difícil? Não!

Nós é que escolhemos o caminho mais fácil.

 

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