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Ser jovem outra vez

Desde sempre que ele tinha bem cientes os princípios básicos do equilíbrio. A posição do corpo, a correcta distância entre os pés, a flexão dos joelhos, os braços em constante movimento corrigindo forças a cada piscar de olhos. Por isso foi sem medo que partiu para a aventura, tão bem se recordava daqueles dias. Adaptar todos aqueles princípios a movimentos constantes e exponencialmente mais rápidos foi um novo difícil. Os pés no skate e a aventura começou. No início para um lado e depois para o outro numa sequência que rapidamente se tornou monótona. Cada vez mais rápido, depressa perdeu o medo e começou a curvar. Em poucos dias surgiram as primeiras manobras, ainda tímidas. A confiança foi crescendo e nunca esmoreceu com as quedas que se habituou a dar. Algumas mais aparatosas, outras apenas cómicas, todas uma lição. Ainda se recordava de rir deitado no chão para logo se levantar e repetir a manobra, por vezes até à exaustão, até a conseguir. Eram boas memórias aquelas.

O sol do final da tarde servia-lhe de calmante. Invariavelmente deslocava-se para o paredão com o seu skate debaixo do braço. Lá chegado inspirava a vida que tinha em longas inspirações de ar quente. Depois pousava o skate e percorria toda a praia para cima e para baixo. Nos primeiros dias teve que se recordar aqueles princípios básicos que tanto o marcaram no passado. Rapidamente descobriu que o que se aprende nunca se esquece. Era tudo uma questão de confiança e não levou muito tempo para a reconquistar.

Ganhando balanço, percorria o paredão como se de um remédio se tratasse. Um remédio para a alma. Um remédio incomum. Não era habitual assistir-se a alguém como ele a expressar uma felicidade interior que tão infantil era que se via desenhada no seu rosto. Uma felicidade simples porque existia apenas pelo facto de se estar vivo e saber-se isso. As pessoas olhavam-no num misto de espanto e de curiosidade. Alguns já o conheciam e até faziam parte daquela rotina. Cumprimentavam-no em acenos calorosos. Por vezes parava para retribuir a atenção. Eram os seus novos amigos. Orgulhava-se por ainda fazer novos amigos e eles orgulhavam-se por dele serem amigos. O que antes era uma aventura passou a ser uma rotina diária de onde retirava o sumo da vida que se recusava a entregar. Aquela era a sua rotina, o que o mantinha desperto e de pés bem assentes na realidade.

Permanecia ali por uma ou duas horas, tempo indeterminável por entre velocidades no skate, conversas e pequenos períodos de descanso, ou distraído a ver-se no passado enquanto assistia aos mais a jovens a exibirem elaboradas manobras como antes ele fazia. Depois regressava a casa já com o sol a ameaçar esconder-se. Tomava um banho rápido e seguia para a sala ao encontro das palavras sem nexo da sua neta, palavras indecifráveis que eram sons de alegria, iguais aos sons que sentia por se permitir sentir-se cheio de vida.

Todos os dias pegava na neta ao colo e sorria sem esforço.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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