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Crónicas

Ser invisível

Perdi a conta das pessoas a quem dei a mão e que me diziam que nunca me esqueceriam. Para elas, eu era importante e continuaria a fazer parte das suas vidas. Acreditei em todas e continuei a dar a mão e o amparo aos filhos que foram chegando. Era comigo que ficavam, era em mim que confiavam, era uma linha que continuava a esticar sem quebrar.

Hoje perdi-me no tempo e nem sei a quantas estamos. É mais um dia, pois o sol já nasceu. Continuo aqui, mas nem sei quem sou. Apenas alguém que ainda respira e aguarda a chamada final, o exame que tudo irá resolver. A vida ficou como as ardósias onde se escrevia e depois apagava. Sinto que sou a esponja que ainda mexe. Mesmo que não haja nada para limpar.

Quando comecei a ver mal, ninguém percebeu e continuaram a olhar para mim como se a juventude fosse eterna e vulgar. Eu ainda fazia tudo o que estava ao meu alcance, mas as dores chegaram sem aviso. E foram muitas. A dor do afastamento, a dor da saudade, a dor do carinho que escorria entre as mãos de todos menos pelas minhas. Eu era invencível.

Um dia o som apagou-se. Fiquei assim uns momentos largos e o medo, aquilo que jamais havia sentido, instalou-se em todos os meus poros. Que era aquilo? Nem um som. Aos poucos fui recuperando, mas ouvia tudo tão longe que me sentia uma pessoa estranha no meu próprio corpo. Falavam de tudo como se eu não estivesse presente e fizesse parte da mobília. Eu servia para resolver todas as questões menos agradáveis. Só que não era considerada.

Senti que falhava, mas não queria mostrar a minha fraqueza. Precisavam de mim, mais uma vez, como do pão para a boca. Inícios de vida que se esquecem de que outras caminham para o derradeiro momento. Uma noite senti uma humidade doce e quente e percebi que eram as minhas lágrimas que escorriam com toda a liberdade. Estava a chorar e não queria parar. Deixei-as fluir para se acalmarem. Não quiseram estancar.

Perdi-me novamente no tempo. Já não eram cerejas nem morangos, mas pêras muito maduras que deixaram de adoçar a minha vida. Nem o melão, mesmo o mais verde e acre, dava sabor ao que se estava a passar: a velhice. Contudo, eu não a via deste modo, nem eles, os que ainda precisavam de mim pois continuavam a exigir que os meus verdes anos (onde estavam eles?) fossem duradouros.

Uma manhã não me consegui levantar. Foi o primeiro incómodo que lhes causei. Afinal, não prestava para a função. Era agora um problema e não a solução. Como seria o futuro deles? De mim não quiseram saber. Apenas de si e dos seus que continuavam a chegar e não havia quem os cuidasse sem custos de maior. E então viram tudo, perceberam como o tempo é ingrato e aldrabão. Viram que eu decaía.

Fiquei doente. Nem um perguntou como me sentia, se precisava de alguma coisa, se queria companhia. Não prestava para a tarefa e fui para o arquivo morto como se nunca mais fosse preciso olhar para mim. Fiquei num canto escuro e cheio de humidade onde as articulações enferrujaram e cederam com facilidade. Fui caindo no esquecimento. Com pó que se acumulava.

Bem sei que são ainda muito jovens e sentem receio que um dia também percam a importância. Vivem rápido e não pensam. Não o querem fazer pois isso implica dor. Evitam-na. Também eu já vivi esses momentos de luz e claridade, mas agora vou definhando todos os dias. Cada vez mais. Não sei quando esta tortura terminará, mas tenho a certeza de que me tornei completamente invisível.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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