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HistóriaSociedade

Sensualidade em tempos de guerra: Mata Hari

Com a rara excepção de algumas rainhas regentes que intervieram mais directamente em conflitos, as guerras são geralmente feitas por homens e para homens. A primeira guerra mundial trouxe algumas alterações a este fenómeno, pela mobilidade que significou. Com a maior parte da mão-de-obra masculina na frente de batalha, as mulheres viram-se obrigadas a ocupar postos de trabalho anteriormente desempenhados por homens, mas não só. A Primeira Guerra Mundial conheceu também a mais famosa de todas as espias, Mata Hari, imortalizada no grande ecrã por Greta Garbo, em 1931, ou na canção de cabaret de Ich bin ein vamp, do compositor Mischa Spoliansky (1898-1985).

Dona e senhora de um enorme erotismo, um dos principais atributos estilísticos das suas danças, onde aparecia praticamente nua, Mata Hari esteve ao serviço da Alemanha, durante a guerra. De seu verdadeiro nome Margaretha Geertruida Zelle MacLeod, nasceu aos sete dias de Agosto de 1876, na cidade holandesa de Leewarden. Foi a filha mais velha de quatro irmãos, os restantes rapazes, do lojista Adan Zelle (1840-1910) e Antje van der Meulen (1842-1891). A sua infância foi despreocupada, pelos investimentos na indústria que o seu pai tinha feito, tendo frequentado bons colégios até 1889, ano em que o pai se viu obrigado a declarar falência. Pouco depois, os pais separam-se e a mãe morre em 1891. Embora o pai tenha voltado a casar, Margaretha acaba por ir viver para casa de um padrinho, estudando para ser educadora infantil. Ao ser assediada sexualmente pelo director da escola, o padrinho afastou-a da escola e mudou-se para Haia, onde viveu com um tio.

Com 18 anos, casa com um oficial da Armada Colonial Holandesa, estacionado na Indonésia, Rudolf MacLeod (1856-1928), que procurava noiva, através de um anúncio de jornal.

O casamento, a 11 de Julho de 1895, proporcionou a Magretha a entrada na classe alta holandesa, melhorando significativamente a sua situação económica e financeira e abriu-lhe as portas do mundo, visto ter acompanhado o seu marido para a Ilha de Java, onde ambos tiveram dois filhos: Norman-John MacLeod (1897-1899) e Louise Jeanne MacLeod (1898–1919).

Todavia, o casamento foi um fracasso. O alcoolismo do marido mais velho 20 anos, que mantinha igualmente uma concubina, fê-la abandoná-lo, trocando-o por outro oficial holandês, Van Rheedes. Dedicou-se ao estudo das tradições indonésias, nomeadamente a dança, fazendo parte de uma companhia de dança local. Logo em 1897, começa a utilizar o seu nome artístico, que significa, em malaio, “o olho do dia”, ou seja, o sol.

Embora Margaretha tenha regressado para a companhia do marido, as divergências entre ambos não terminaram,matahari antes pelo contrário, agravando-se, sobretudo, após a morte do filho mais velho. O casal regressa à Holanda e, em 1902, o marido abandona-a, levando consigo a filha de ambos. O divórcio só ocorreria em 1907 e pelo meio a luta legal pela custódia da filha, que acabaria por ficar com o pai, por este se negar a uma pensão de alimentos.

Em 1903, muda-se para Paris dando início à sua vida artística, primeiro como amazona num circo e posando como modelo. Todavia, a partir de 1905, começa a ganhar fama como dançarina exótica, algo que estava na moda então, despindo-se em palco e ficando nua, ou em maillot de cor-de-carne, apenas com algumas joias sobre o corpo. A sua estreia no Musée-Guimet, um museu especializado em arte asiática, a 13 de Maio de 1905, foi um autêntico sucesso, de tal forma que se torna amante do fundador do museu, Émile Étienne Guimet (1836-1918), industrial milionário originário de Lyon.

O sucesso fez com que surgissem inúmeras imitadoras e isso contribuiu também para o seu descrédito perante algumas instituições, que consideravam que, na verdade, os seus espectáculos pouco tinham de dança. A sua carreira começa em declínio e, em 1915, faz a sua última actuação. Em compensação, a sua carreira como cortesã estava no seu auge, mantendo relações com oficiais de alta patente, políticos e outros influentes da elite europeia.

Durante a guerra, a Holanda manteve-se neutra e, sendo uma cidadã holandesa, Margaretha podia facilmente viajar e atravessar fronteiras. Em 1916, vinda de Espanha, o navio é interceptado e acaba por ser detida, enviada para Londres e interrogada pela Scotland Yard, onde eventualmente admite trabalhar para o governo Francês, embora não se saiba ao certo a veracidade desta ligação.

Em Janeiro de 1917, a força militar alemã estacionada em Madrid envia mensagens via rádio para Berlim, dando conta das actividades da espia alemã H-21. Militares franceses interceptam a mensagem e identificam Mata Hari como sendo a agente H-21. No mês seguinte, Mata Hari foi detida, no quarto de hotel onde se encontrava hospedada e acusada de espionagem a favor da Alemanha e responsável pela morte de pelo menos 50 mil soldados. Embora tanto as forças policiais francesas e inglesas suspeitassem do seu envolvimento, não havia provas concretas acerca do seu envolvimento, à excepção de terem encontrado tinta invisível.

Apesar das muitas cartas escritas ao Cônsul holandês em Paris, alegando a sua inocência, acabaria por ser julgada. O seu advogado não pode sequer interrogar as testemunhas pessoalmente. Acabaria por ser executada a 15 de Outubro de 1917, com apenas 41 anos. O seu corpo não fora reclamado, tendo sido doado para o estudo médico, tendo sido embalsamado e mantido no Museu de Anatomia de Paris, embora a sua cabeça esteja desaparecida desde, provavelmente, 1954.

Só na década de 70 é que documentos alemães até então secretos provavam efectivamente a ligação de Mata Hari ao governo alemão, ao serviço do qual teria entrado no Outono de 1915.

A História nas Estrelas

Quando olhamos para o mapa natal de Margareta Zelle vemos rapidamente uma fortíssima e intensa energia de Leão, marcada totalmente pela presença de um Stellium entre o Sol, Marte, Mercúrio e Úrano. Toda esta energia de Leão, auxiliada por um Ascendente Escorpião, conferiam-lhe uma personalidade intensa e marcante, envolvente e misteriosa.

Mata Hari - mapa natal
Mata Hari – mapa natal

Aquela que um dia viria a ser conhecida como Mata Hari, “o olho do dia”, era verdadeiramente um sol, objecto de desejo e fantasia de muitos homens, algo que aprendeu a reconhecer e trabalhar, e que soube aproveitar no final da sua vida.

O seu Ascendente, Escorpião, tem duas particularidades intessantes. Por um lado ele é regido por um Marte em Leão, fortíssimo e intenso, na Casa 9, representando a energia que despoleta uma aprendizagem sobre si mesma, sobre o seu poder pessoal, sobre o poder do seu corpo, muito simbolizado também por Júpiter na Casa 1, em Escorpião. Ao estar na Casa 9, ele leva essa faísca para ambientes de vivência em viagens e com outras culturas, precisamente onde ela assume essa nova personalidade. Contudo, este Ascendente também é regido por Plutão, em Touro, na Casa 7. Se Marte traz a aprendizagem, Plutão, envolvido num poderoso T-Square com Júpiter e Úrano, traz o poder da sensualidade e do seu corpo perante os outros, nomeadamente os homens, para quem simbolizou, sem dúvida, o fruto proibido e o desejo de posse. Embora fosse, na prática, uma cortesã, com Vénus em Caranguejo na Casa 8, esta mulher, apesar de todo o uso do corpo, teve de saber esconder uma vulnerabilidade muito profunda, representada por uma ligação em aspecto fluido com a Lua e Saturno, em Peixes.

No entanto, esta ligação torna-se ainda mais forte quando nos apercebemos de um grande trígono entre Vénus, em Caranguejo, na Casa 8, casa das questões íntimas e obscuras, Lua e Saturno em Peixes, também eles misteriosos e profundos, na Casa 4, casa do que não é visível, e o Ascendente Escorpião. Esta junção levava a que a energia emocional fluísse de uma forma muito intensa e lhe conferisse um lado misterioso, como se uma verdadeira máscara se tratasse, algo que se tornou essencial para o papel de espia ao serviço da Alemanha durante a Primeira Guerra. Isto seria tão intenso que só na década de 70 do século XX, mais de meio século depois da sua morte é que realmente se teria a certeza do seu papel no período de Guerra.

Mata Hari vs. dia da execução
Mata Hari vs. dia da execução

Na altura da sua execução, Mata Hari estava em plena transição de ciclo de vida para uma fase regida por Marte, pedindo-lhe não um esconder das suas emoções, mas sim um evidenciar do seu Eu. Ao ter, no início dessa transição, começado a colaborar com a Alemanha, Mata Hari, de certa forma, contrariou o seu propósito de viver intensamente as suas emoções e transformar o seu Eu, tendo na realidade continuado a usar os que a rodeavam e envolver-se num segredo. Por isso, quando Úrano em trânsito se opõe ao Úrano natal confronta-a com os seus segredos (até porque Úrano rege a casa 4) e revela-os ao mundo. Quando, em movimento retrógrado, Úrano e Marte se encontram em oposição, batendo de frente com a energia do Stellium, apoiados por um Saturno, o Mestre do Tempo e das estruturas, em Leão, onde restringe a vida, Mata Hari é executada e fisicamente esquecida e perdida, ao mesmo tempo que perpetua a sua história.

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Pedro Urbano

Nasceu em Lisboa em 1979, tendo frequentado o antigo Liceu de Setúbal. Licenciou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é actualmente doutorado em História pela mesma Universidade, onde também concluiu o mestrado em História Contemporânea.

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