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Sensorial – Parte II

Delírios

Há poucas coisas melhores do que partilhar momentos de descontrolo. Estamos numa sala, vemos o fumo, sentimo-lo a entrar dentro de nós, em conjunto, simultaneamente. Só é difícil perceber quando o real se torna acessório, quando as gargalhadas já são, no fundo, delírios vadios que decidiram aparecer. Como se estivessem presos em nós há horas, dias, semanas, meses, anos.

Ali, naqueles momentos, sentimos uma felicidade extrema, uma libertação espiritual, física e, por vezes, ideológica que nos permite saborear ainda melhor a intensidade de estarmos vivas. Pode ser uma felicidade enganadora. Pode ser uma felicidade alucinada, que transforma o delírio numa dependência do corpo e da mente, escrava desse momento, que mendiga pela sua atenção. Quando assim é, temos de quebrar o ciclo, mas, enquanto assim não for, valerá sempre a pena pegar no isqueiro e passá-lo, depois, para a mão de quem nos acompanha.

O delírio é mágico e transcendente. Ultrapassa-nos. Só é válido se servir como complemento despropositado e não como fuga, é certo. Assim, rimo-nos sem saber descriminar as fronteiras, os limites, a linha que separa o agora da realidade que virá depois, quando o efeito passar. Esse rir é genuíno, inocente, inesperado, até. Mesmo quando já sabemos que o mais provável é que ele chegue, existe sempre aquela sensação de não saber exatamente quando vem. Se vem, como vem.

Quando se instala, esse delírio momentâneo que permanece na memória até que a próxima mortalha se faça útil, tornamo-nos crianças. Falamos de tudo, sem pudor, tal como antes, mas com uma energia renovada e um ritmo desacelerado. Personificamos o carpe omnium. Somos o momento. Melhor, só mesmo a partilha dessa dimensão quase paralela. Porque o êxtase do sensorial acontece sempre pela partilha, quando o sentido é dirigido e bilateral.

Mais uma vez, ali, naqueles momentos, enquanto olhas para a tua amiga e lhe passas um pouco de ti, sentes que és invencível. Tu, ela, nós, a amizade e o agora. Como se não houvesse amanhã. Como se não existissem consequências. Como se tudo estivesse resumido àqueles breves, mas duradouros, minutos de intoxicação. Ali, ganhas toda força e convicção, mesmo que estejas a dizer a poesia mais banal do mundo. Tudo faz sentido, porque te assumes como capaz de atribuir verdadeiro significado às coisas mais pequenas.

Foi num destes delírios que acabamos por concordar: a vida é Música e Sexo. Esta parte faz parte da Música. Sem dúvida.

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Liana Rego

Licenciada em Jornalismo. Estudante de Mestrado na Universidade do Porto. Feminista convicta. Vegana. Apaixonada: por música, por cinema, pela Arte de revolucionar.

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