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Sensorial – Parte I

É uma violência para o meu corpo. Dói, fere, ganha crosta. É uma ferida aberta, acreditem. Chamar-lhe outra coisa, pelo menos na fase inicial, é realmente um eufemismo. Mistura-se com o meu sangue. Corre tinta dentro de mim. Literalmente. O meu sistema é invadido. E eu deixo, como se gostasse. Eu deixo, como se escolhesse.

Eu gosto. Eu escolho. Eu quero mais. Mesmo sabendo que, naquele momento em que dou o corpo ao manifesto, olhar para a agulha não me deixa indiferente. Talvez seja por essa ausência de indiferença, essa consciente ausência de indiferença, que eu me tenha deixado viciar. Aliás, talvez seja essa a sedução, a adição, o impossível de contrariar. É uma espécie de droga, acreditem. Não que seja nocivo. Mas é uma violência, que permites, que idealizas. Que desejas.

O que tem de tão belo, a tinta no teu corpo? O que eternizas? Um momento da tua vida? Uma pessoa? Uma data? Quero, antes, perguntar: o que não tem de belo? O que não tem de belo essa ideia de carregar os teus ideais no corpo? O que não tem de belo fazeres arte, a Arte de ti, em ti. Enfiares, bem dentro, cravares, picares, perfurares? Nada é sentir sem este sentimento – o de que estás em ti, és em ti, mandas em ti. És a tua própria tela, num exercício narcísico, mas       que dá, também, mais de ti aos/às outros/as.

A dor, que dói mesmo, acreditem, é física. Apenas física. Depois, o paradoxo, que conheces e pelo qual te apaixonas: o que complementa esse sofrimento é a magia da mente. Ultrapassa o físico, o concreto. Vence-o, sem que o anule. Ali, no momento, e de seguida, ao espelho, é como se te apaixonasses por ti. Uns curtos segundos de insensatez em que sentes a crush pela rush a que te entregaste. Mais do que isso, olhas-te de outra forma. És mais de ti agora. És mais tu. És melhorada. És a tua verdade, reafirmada à flor da pele.

Pode ser superficial. Acaba por sê-lo, literalmente. Mas é bem mais do que um desenho cravado no teu corpo. É bem mais do que a dor física. É, até, bem mais do que o processo mental de idealização, de concretização e de entrega. É amor ideológico. Amor por ti, pelas causas, pela tinta que corre no teu sangue. Essa tinta, essa cor, esse trajeto torna-se pintura, na tela mais preciosa que conheces: o teu corpo. A tua pele. A tua Arte.

A tatuagem é só mais uma extensão do amor que tens por ti própria. Por quem és, por quem te tornaste e por quem te queres vir, ainda, a tornar. Só para que, à flor da tua pele, tudo condiga com a profundeza dos teus pensamentos.

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Liana Rego

Licenciada em Jornalismo. Estudante de Mestrado na Universidade do Porto. Feminista convicta. Vegana. Apaixonada: por música, por cinema, pela Arte de revolucionar.

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