Crónicas

Sensibilidade e bom senso

Avó devolve os netos, que passaram o Verão na terra, à mãe, a quem enviou imensos recados com recomendações especiais…

“Minha querida filha,

Entrego-te os teus filhos que felizmente estão com muito bom aspecto e cheios de saúde. Quando aqui chegaram estavam tão pálidos e tão esqueléticos que até o Victor perguntou se estavam anémicos. Que raio de coisas andas a dar de comer aos gaiatos?

Tudo aquilo que enviaste volta com eles, incluindo aquela comida estranha que eles nem quiseram. Por aqui a comida é toda natural, como sabes. Natural, porque é a que existe e é dessa que comemos e que comeste quando vivias cá. Não percebi se eram vegetarianos, mas nós descobrimos que somos. Acompanhamos os pratos de carne e de peixe com legumes ou vegetais. Ainda bem que me abriste olhos.

Os teus filhos, no início pareciam dois selvagens a quem foi retirada a terra. Amuados, maldispostos e mal-educados, mas quando a fome apertou e lhes cheirou a comida, mudaram logo de conduta. Escreveste que não comiam qualquer coisa, mas não deu para perceber, porque comeram sempre tudo e até repetiam. Sabes que eu ainda cozinho a moda antiga e não tenho essa máquina moderna que tu usas, por isso, cá em casa temos dois bimbos: eu e o teu pai.

A tua filha quis aprender a cozinhar e não lhe disse não a nada. Foi uma excelente ideia, porque puxou pela imaginação e fez com que o irmão deixasse de estar a olhar sempre para o écran. Filha, o teu menino parecia um maluquinho a falar sozinho para aquela coisa e a dar gritos. No segundo dia, esqueceu-se e ainda bem.

Como sabes no Verão é a altura das festas e fomos a quase todas, porque eles pediam. Comeram farturas, algodão doce e ainda os bolos típicos que bem gostas. Querias privar os miúdos dessas alegrias? Não devias estar boa da cabeça quando me pediste para o fazer. Eles gostaram muito e vão ficar com excelentes recordações destes dias. Até tiram fotos e foi das poucas vezes que usaram o telemóvel.

O teu pai ensinou-os a jogar às cartas e o teu filho ficou encantado, porque tinha que lhes tocar. E descobriram os teus jogos antigos. Brincaram imenso e divertiram-se bastante. No primeiro dia o teu filho fez batota e o teu pai disse-lhe que não podia ser. Da vez seguinte levou uma palmada na mão que o acalmou logo. Foi remédio santo. Aprendeu a lição.

A tua filha descobriu os teus discos e passava as tardes a ouvir os Beatles, os Rolling Stones, o Bob Dylan e todos os outros que tu guardaste com tanto amor e carinho. Não quis saber daqueles CD´s que enviaste com sons da natureza. Aqui é ao vivo e a qualquer hora. Não fazia ideia que o teu Diário ainda estava na gaveta e ela leu-o. Aliás, eles leram bastante, por isso, não sei onde foste buscar a ideia de que não se interessam por livros. Vais é ter que lhe explicar o que fazias no celeiro, à hora da sesta, com o filho da Clarinda, mas isso é problema teu.

Fica descansada que não lhes comprei brinquedos de plástico nem eles pediram. O teu filho descobriu as ocarinas e as flautas de cana e agora é um verdadeiro artista. Boa sorte para os ouvidos. Ele vai levar a tua colecção dos 5 e dos 7, porque gostou muito. Diz ele que não se mexem, mas gosta de imaginar o que se vai passar. Como vês as coisas antigas funcionam na perfeição. O teu pai também o ensinou a usar as ferramentas e ele fez umas obras que leva para ti. A tua filha é mais habilidosa e despachada do que ele, mas é rapariga e elas crescem sempre mais depressa.

Vais notar uma pequena cicatriz no tornozelo do gaiato, mas a culpa foi dele. Quis ir à pesca e escorregou numa pedra. Chorou, mas nada comparado com a fita que fizeste quando te apareceu o período. A enfermeira disse que não era grave e em 2 semanas ficou bom. Não te liguei, porque não faço ideia por onde andas e não fixei o nome estranho que me disseste. Acho que tinha muitos XS, mas não tenho a certeza. A miúda fartou-se de rir e no dia seguinte caiu de uma árvore. Fez uns arranhões, mas nada de mais. É tesa!

Sabes que já começaram as vindimas por aqui e eles gostaram da apanha da uva. Comeram tantas que até tive medo que ficassem doentes, mas enganei-me. Também atacaram as maçãs e as nêsperas. Correu bem, porque ficaram com melhores cores. Nunca levas os meninos a apanhar sol?

O teu irmão esteve cá com a nova namorada. É simpática, mas muito envergonhada. Espero que não se farte dela como é costume dele. O pai da tua filha também passou por cá. Sempre gostei dele e continua uma pessoa muito correcta. Vinha com o Vasco e parece que estão a fazer planos de futuro. Nesses dias, a menina estava delirante com a atenção. Porque é que eles não estão mais vezes juntos?

Estava a esquecer-me de um pormenor. A tua filha já não é alérgica aos gatos, porque o Tareco dormia todas as noites com ela e o teu filho perdeu o medo dos cães com o Bobby. Todos os dias queria trazer para casa os cães vadios, por isso, tem cuidado que ele está determinado. Pergunta-lhe os nomes dos cães cá da terra que ele sabe-los todos de cor.

O telefone fixo foi a perdição dos mocinhos que estavam à espera que tocasse para tentar adivinhar quem seria. Como não tem écran era uma brincadeira pegada. Tive que pedir às vizinhas todas para telefonarem, porque o miúdo não se calava que aquilo era fixe. Ela descobriu a minha velha máquina de escrever e estava convencida que era um computador especial, porque imprimia logo que se escrevia. Era boa ideia explicares a evolução destas coisas.

Estou em crer que querem regressar no Natal, porque fizeram muitos amigos e gostaram muito da vida ao ar livre. Quando souberam que havia um madeiro e que as portas das casas ficam abertas para todos, até os olhos brilhavam. Estes meninos da cidade perdem tantas experiências importantes, a meu ver.

Podes sempre telefonar-me que eu estou disponível, quer para o fixo, quer para o telemóvel. Já agora não penses que a tua mãe é uma ignorante. Se estiveres ao computador podes sempre enviar-me um mail para: casadamãe@muitafixe.tá.”

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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