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Seis anos nove meses e tres dias

Desligou o telefone e gritou de alegria. Parecia um grito de tristeza, porque estava misturado com lágrimas, mas não era. Parecia um gemido de dor, no meio dos soluços, mas não era. Mais tarde, os vizinhos catalogariam o grito como “um grito de uma baleia” ou “parecia uma foca”, e ela acharia piada e concordaria na sua felicidade.

Assim que conseguiu parar de tremer, correu para o carro, ainda com lágrimas nas bochechas que tentava limpar enquanto vestia o casaco. O marido não estava em casa, e ela não podia esperar nem um segundo mais. Tantos anos, como é que poderia sequer demorar mais um segundo?

“Foi hoje!” anunciou assim que ele atendeu o telemóvel. Já ela estava a conduzir, por isso combinaram encontrar-se na ‘Judite’.

Acelerou, conhecia bem o caminho. Na sua mente, lembrou-se de tudo o que era bom. Há quanto tempo não se lembrava só do que era bom? Agora o mau já não lhe doía, já não lhe pesava nos ombros nem lhe arrancava a pele. O céu estava escuro e na rádio passava uma música que lhe costumava arranhar a alma, inquietá-la, mas não hoje. Hoje queria cantar mais alto do que a música e mais alto do que o mundo.

Estacionou e saiu rapidamente. Andou com passos apressados, os saltos a baterem no chão. Só ouvia os saltos e o coração. Pensou ouvir-lhe a voz, mas sabia que estava a ouvir a antecipação. Que traiçoeira! Quantas vezes não lhe tinha ouvido a voz ou visto a cara? Em quantos lugares?

Os inspectores já a conheciam, só lhe sorriram. Alguns estavam emocionados. E ela corria, espalhando risos e lágrimas, nervosismo, saudade, olhando para todo o lado.

Até que o viu.

Tão diferente, mas não teve dúvidas de que era ele. Tão diferente! O seu sangue, o seu amor. Sem dúvida, era ele!

Entrou na sala a correr, e abraçou-o. Não teve tempo de olhar bem para ele, nem de saber o que tinha acontecido, nem de ver na cara dele todas as diferenças que podia adivinhar. Não lhe deu tempo a ele de olhar para ela, também, pois teve receio que ele não a reconhecesse, que só lá estivesse aquele corpo, aquele corpo que já não era ele, que tivesse sofrido horrores indescritíveis e que a alma se lhe tivesse fugido. Só o corpo dele. Mas o receio dela passou quando sentiu os braços dele à volta dela, a camisola molhada com as lágrimas quentes dele, e um “mamã” baixinho, abafado pelo choro e esmagado pelo abraço dela.

Seis anos, nove meses, três dias, seis horas e quinze minutos depois do desaparecimento do seu filho, tinham-no encontrado. Vivo, crescido, diferente, seu. O seu filho. O seu querido filho estava nos seus braços de novo. Vivo.

E amava-o mais que nunca.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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