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Se não vês Orphan Black, devias

Já segues Orphan Black, certo? Se a resposta é sim, já sabes que segues uma das melhores séries da televisão actualmente e, se a tua resposta é não, não há problema algum, mas depois de leres este artigo não tens qualquer desculpa para não te deixares contagiar pelo frenesim de clones, que é esta série. Os primeiros dez episódios da temporada inaugural já terminaram em 2013, concluindo com o espectacular “Endless Forms Most Beautiful“, e a segunda temporada também chegou ao fim recentemente. Por isso, porque é que não aproveitas os próximos dez meses até à estreia da terceira temporada para ficares muito viciado na história de clones mais falada dos últimos tempos?

Orphan Black tem como personagem principal Sarah Manning, uma jovem mãe com muitos problemas e que, no episódio de estreia, se encontra a regressar à sua terra natal, para conseguir corrigir todos os erros que cometeu com a sua filha Kira. Durante a sua viagem, Sarah acaba por assistir a uma situação que, aparentemente, não está relacionada com ela. Vê uma mulher cometer suicídio, ao lançar-se para a frente de um comboio. não sendo este acontecimento traumático o suficiente, essa mulher é fisicamente igual a Sarah. Isto sim é uma cena de abertura que tem a capacidade de prender qualquer um ao ecrã. Os momentos iniciais de “Natural Selection” não se limita a mostrar o grande conceito que a série tem, vai mais além e demonstra ter um grande domínio sobre ele. Graças ao estilo e aos maneirismos de Sarah, é fácil de compreender o tipo de personagem é e, graças à interpretação de Tatiana Maslany, esta personagem principal ganha um encanto enigmático, que cria uma ligação entre o espectador e a narrativa, antes de se desenvolver devidamente a premissa principal da série. Deste modo, quando a mitologia é desenvolvida, faz-nos pensar e, por já haver uma ligação às personagens, envolve-nos na história. É desta envolvência que surge grande parte da diversão de seguir a série, porque, à medida que a temporada vai progredindo, vão sendo apresentadas muitas personagens com as quais conseguimos identificar-nos e tornando a vontade de desvendar todos os mistérios ainda mais forte.

Uma das pessoas mais importantes na vida de Sarah é o seu irmão adoptado Felix. Para além de ser parte da sua família, Felix é o seu principal confidente e, por isso, é uma das poucas personagens que toma conhecimento do historial de Sarah logo no início da temporada. Felix é o típico braço direito, que é tanto um porto seguro, como aquele que sabe colocar humor em determinados momentos dos episódios. Apesar dessa sua característica, os traços de humor são inerentes à personagem, não havendo uma procura incessante por momentos cómicos, que acabam por surgir organicamente. A química de Jordan Gavaris e Maslany também ajuda a que todas as cenas que partilham sejam cheias de uma mística hipnotizante e, por vezes, uma sensação de ternura cativante.

Durante os dois primeiros episódios, também somos apresentados a Vic, o ex-namorado de Sarah, que também é um vendedor de droga. Apesar de inicialmente, parecer o estereótipo de um fora da lei, esta personagem vai ganhando mais camadas e emoções, que vão sendo desenvolvidas de uma forma muito inesperada, à medida que a temporada se vai desenvolvendo. Pode não ser essencial para a essência da narrativa, mas é uma personagem que acaba por ter a sua utilidade nos planos de Sarah e consegue tornar-se num elemento interessante de seguir. Paralelamente a este núcleo, existe um outro lado, o da mulher que se suicida na estação de comboio. De seu nome Beth Childs, esta personagem faz com que Sarah, levada pela curiosidade, agarre a sua mala, antes de abandonar a estação de comboios, e decida assumir o seu lugar na sua vida. É neste processo que surge Paul, o namorado de Beth, que não acrescenta muito à história e limita-se a ser uma cara bonita, cuja única utilidade é a de identificar as diferenças de personalidade que existem entre Beth e Sarah.

Para grande surpresa de Sarah, Beth era uma detective e, para conseguir manter a farsa que construiu ao assumir a sua vida, terá de convencer tudo e todos de que é a verdadeira Beth. Este feito não se limita à utilização de uma arma e andar com um distintivo da polícia. É necessário assumir a personalidade de Beth por inteiro, incluindo o seu sotaque, o seu comportamento e saber todos os pormenores de um caso muito particular. Orphan Black está repleto de excelentes personagens secundárias, com especial foco para Felix, mas a verdade é que esta é a série de Tatiana Maslany, que consegue interpretar todos os clones na perfeição, de forma a que todos eles pareçam pessoas diferentes, com vidas e personalidades diferentes. Quando nos esquecemos que é a mesma actriz que está a interpretar de forma magistral tantas personagens diferentes, é fácil esquecermo-nos de que é a mesma pessoa a representar várias mulheres diferentes.

A fazer justiça a todas as interpretações está uma equipa de argumentistas, que constrói uma narrativa rica em pormenores. Todos os pormenores são importantes e nada é deixado ao acaso, sendo que todos os elementos, por mais pequenos que pareçam, são importantes. Tudo o que é mostrado, dito, ou ouvido desde o episódio um ao episódio dez tem valor. As câmaras de segurança, o dinheiro, as mentiras, os pequenos adereços, tudo é pensado em profundidade, permitindo a Orphan Black ter poucas falhas narrativas. Para além disso, todos os detalhes parecem reais e não uma fantasia que só poderia acontecer numa série de televisão. Apesar de ser uma série com elementos de ficção científica, não existem seres com poderes sobrenaturais. Existem, sim, pessoas reais que navegam as suas vidas entre situações extremas e exactamente este facto que permite justificar alguns dos elementos surreais da série.

Se estás à procura de uma nova série para te acompanhar ao longo deste Verão, Orphan Black é exactamente a resposta às tuas preces. É excepcional em todos os sentidos, desde o manuscrito à realização, da música às representações, tudo se junta para criar uma experiência emocionante e muito bem pensada. À medida que a temporada progrediu, muitos dos mistérios relacionados com os clones e com as organizações interessadas neles foram sendo revelados. A primeira temporada tem apenas dez episódios, o que não obriga a ter-se muito tempo para ver e ficar preso a esta série extremamente viciante.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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