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Saudade

Pediram-me para falar de saudade. Este deve ser, sem dúvida, o meu tema de eleição quando se trata de escrever. O sentimento mais português de todos, o sentimento que todos nós sabemos o que é, mas que ninguém consegue, ao certo, descrever de forma exata. A saudade é inexplicável e, por isso mesmo, sentimos tanta necessidade de a explicar. Tema de inúmeros poemas e textos de escritores prestigiados, todos a sentimos mas nenhum de nós sabe exatamente o que é.

Sentir saudade de algo ou de alguém é o mais comum dos sentimentos. Sentimos saudade do nosso cão que morreu, daquele gato muito engraçado que tivemos há uns anos, de familiares nossos que já partiram, de familiares que estão vivos mas longe, ou que estão perto e não vemos muitas vezes.

A pior saudade, entre todas as saudades que nos apertam o coração, é a saudade daqueles que sabemos que não vamos voltar a ver. Quando alguém nos morre, uma parte de nós morre também. Já perdi algumas pessoas para a morte, mas a que mais me marcou foi o meu avô materno. Perder alguém que nos criou, que esteve presente na nossa infância e em parte da nossa adolescência e ficar sem um dos meus grandes pilares, com apenas 14 anos, é como ficar sem chão. E a saudade só se sente quando a presença deixa de se notar. Os anos passam, e a saudade não diminui, não ameniza, não desaparece. A saudade é o que fica, aliada a uma dor inexplicavelmente agonizante.

Contudo, se a saudade nos magoa, é também ela que nos mantém vivos e que, sobretudo, mantém vivos em nós aqueles que já partiram. Sentir saudades da voz que, entretanto, já esquecemos, ou do cheiro que reconhecemos em algum lugar ou noutra pessoa, sentir saudades do abraço, das palavras, do sorriso, das coisas às quais nem dávamos muito valor até termos perdido – aí está o que de mais genuíno temos em nós e que, embora doa, nos ajuda a manter em nós, no nosso coração, as pessoas que nos marcaram e que já não fazem parte activa das nossas vidas.

Sentir saudades de pessoas que estão vivas é doloroso, mas a noção de que podemos voltar a vê-las apazigua essa saudade. No entanto, a saudade daqueles que já cá não estão não pode ser apaziguada, porque sabemos que a verdade, nua e crua, é que nunca mais os vamos ver, ouvir, tocar. Viver com essa noção é angustiante e doloroso. Todos nós já nos questionámos, em algum momento das nossas vidas, onde estará aquela pessoa que já partiu e que fez parte integrante daquilo que somos. Todos já tentámos falar para o céu, para o horizonte, para as paredes, na esperança de receber um qualquer sinal de volta, na esperança de perceber que do outro lado – seja lá que lado for – eles nos conseguem ver, nos conseguem acompanhar e estão, realmente, a olhar por nós.

Não sou uma pessoa crente e, por isso, não acredito na existência do céu ou do inferno, nem sou adepta de funerais ou de cemitérios. No entanto, já dei por mim sentada na campa do meu avô, a contar-lhe as coisas que me angustiavam e a pedir-lhe um qualquer sinal. Pedi que olhasse por mim, pedi que me guiasse. E, mesmo não sendo crente, acredito que as pessoas que amamos e que perdemos olham sempre por nós. Acredito nisso porque é a única forma de suportar a saudade e de caminhar por entre os caminhos da perda sem me perder.

Cada um encara a saudade de formas diferentes e lida com ela à sua maneira. O que importa, no fundo, é que não nos deixemos perder na poeira que fica daqueles que, por uma razão ou outra, se vão embora.

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Joana Veríssimo

Licenciada em Jornalismo e Comunicação e com uma paixão enorme pela escrita.

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