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ContosCultura

Sasha e um Humano

A imensidão do parque natural sempre fora um motivo para se maravilhar, mas era naquele momento um dos seus inimigos na sua missão de encontrar Sasha. Teria que o fazer em tempo útil. A região era selvagem, inóspita, onde o homem não cabe. As distâncias eram maiores e mais difíceis de percorrer. A vida ali era difícil e perigosa, muito mais para ele.

Sasha era uma jovem puma de pelo dourado e olhar penetrante. Sozinha dominava amplo território no parque natural. Sabia ser discreta e esconder-se do mundo tão bem como aparecer para reivindicar a sua condição de felino.

Ainda jovem viu aquele humano aproximar-se de si. Desconfiou e manteve-se alerta. Só após dois dias, depois de se habituar ao seu cheiro, o deixou ficar ali perto impondo alguma distância. Nem se apercebeu que durante duas horas dormiu o sono mais profundo enquanto era medida e estudada. Acordou e não mais sentiu a presença daquele humano.

Esse humano tinha agora uma área maior do que a que conseguia percorrer para a encontrar. Felizmente era astuto e sabia onde começar a procurá-la. Mas a caminho do seu território, o que o homem viu deixou-o extremamente preocupado. Duas filas de pegadas de cavalos significavam um perigoso inimigo, não só para si mas principalmente para Sasha. Caçadores furtivos em busca da sua pele de pelo dourado, valiosa no mercado negro.

Acelerou o passo tanto quanto pode e ao fim de dois dias os receios adensaram-se. Invólucros de balas foram deixados para assinalar o local de um crime. Uma centena de metros em frente, uma pedra pintada de sangue escuro, seco e mórbido. Ele não desistiu e que era uma missão científica passou a ser uma missão de resgate.

Seguiu o rasto dos cavalos enquanto foi possível e começou a procurar em todos os cantos, covas e pequenas grutas onde Sasha se pudesse refugiar e proteger. Longas horas passaram até descobrir uma pequena gruta formada entre duas rochas que tornavam mais visível o sangue escuro. Ele chorou ao tocar o sangue mas sorriu ao ver as pequenas ossadas de um roedor. Sasha teve que sobreviver ao ataque, ali escondida conseguiu alimentar-se e recuperar. Essa era a esperança.

Continuou a procurá-la naquela terra em que duas pessoas a cavala eram inimigo maior que a crueldade da mãe natureza. Ao fim de duas semana, o desânimo tornou-se tão pesado quanto o cansaço. Quase um mês de contenda científica a dormir numa pequena tenda em locais tão remotos aconselhavam a desistir e retornar. Arrumou o equipamento e fez-se a caminho.

No ar já sentia os primeiros ventos frios de mais um dia. Abeirou-se de um pequeno rio de águas gélidas para se abastecer. Nesse momento ouviu o ruído de um galho a quebrar-se, Olhou de repente e viu-a. Sasha estava imóvel, de olhar assustado e atitude defensiva. Ele procurou não fazer gestos bruscos que a pudessem afastar. Acreditou que depois de sentir o seu odor no ar, ela o reconheceria e a sua memória lhe diria que ele não era uma ameaça. Mas ela não mudou o comportamento. Sasha recuou lentamente. Ele segui-a. Viu então um ferida dorso dela. A ferida da bala que não a conseguiu roubar à vida. Um rasgão na pele valiosa.

Não o deixar aproximar como antes podia ser resultado de um trauma provocado pelo ataque. O instinto dizia-lhe para se defender. Por isso ele procurou afastar-se mais um pouco e esconder-se tanto quanto podia. Ficou ao longe a vê-la, ela parou e subiu para uma pedra mais alta onde se sentou a olhar para ele. Depois bocejou e deitou-se. Ele aproveitou para se aproximar mais um pouco. Quis fazê-lo sem desafiar o instinto defensivo de Sasha. Tinha que o fazer apesar dos riscos. Agora tinha mesmo que a sedar com um dardo e examiná-la, ver a extensão da ferida e como sarou.

Já perto dela, de costas para ela ia preparar a arma com o dardo quando viu surgir uma pequena cabeça dourada por trás de Sasha. Depois duas e ainda uma terceira. Três crias de puma olharam para o humano, Sasha também. Tudo o mais que ele pode fazer foi sorrir e alegrar-se. A puma levantou-se e foi até perto dele. Ficaram frente a frete à distância de um braço ou de pata.

Ainda hoje ele a contar esta história aos netos, jura que Sasha lhe sorriu.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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