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Santiago de Compostela e as Catedrais do Caminho Francês

O chamado Caminho Francês passa por 7 cidades. Estas são muralhadas, obrigatório para o uso do nome, para protegerem a população quer física quer espiritualmente. Para este último propósito era essencial que fosse sede de bispado e tivesse a respectiva catedral. Era aí que eram recebidos os impostos, onde se tomavam as decisões mais importantes e onde funcionava o governo local. Estas abrigavam, ainda, as relíquias dos santos que atraíam inúmeros fiéis e, consequentemente, dádivas e esmolas. Além do aspecto religioso, do conforto da alma, o corpo também era recebido nas suas infraestruturas hospitalares. O hospital, inicialmente era local de auxílio de peregrinos, onde lhes prestavam os primeiros socorros, uma vez que chegavam em estado miserável fisicamente e a hospedagem, onde podiam descansar. Mais tarde o hospital converte-se em local de cura e tratamento de doentes, em exclusivo.

O que chama logo à atenção nestas catedrais é a aparência monumental, a sua arquitectura e os objectos de arte que aí se abrigam. Foram locais de oração, de reunião e de enterramentos. São zonas com elevado conteúdo religioso, mas também simbólico pois foram palco de acontecimentos históricos e local de passagem de milhares de pessoas, que seguiam a sua fé e queriam atingir o fim máximo, a recompensa pelo esforço despendido. Estas paredes podem contar histórias singulares e colectivas, testemunharam séculos de fé e, nos tempos modernos, são fruto de um outro tipo de peregrinação, a peregrinação cultural. Muitos querem aprender, sentir e ver aquilo que os nossos antepassados nos deixaram.

Jaca

É um edifício chave do Românico que sofreu várias transformações que alteraram a sua fisionomia. O antigo coro devia estar situado a vários metros de altura sobre o pavimento da nave maior. As capelas têm retábulos de excelente arte e as madeiras foram substituídas por abóbadas de pedra cruzadas. Como se sabe, os períodos históricos sofrem mutações e os capitéis foram reaproveitados para fazer o pórtico da Praça do Mercado. A cabeceira apresenta 3 absides diferentes, a do Sul é a única que mantêm a arquitectura original. Na nossa época é um Museu de Arte Medieval com um assinalável espólio nacional. Funciona igualmente como Pólo Universitário.

Pamplona

Fundada em 1390 pouco depois da coroação de Carlos III, o mecenas dos palácios de Tafalla e Olite. Foi reconstruida, aos poucos, devido ao facto de ter atravessado vários períodos bélicos. É possuidora do melhor claustro gótico que existe, reconhecido oficialmente. É testemunho da vida comunitária e da vida religiosa, através do refeitório e cozinha. Os monges tinham uma organização primitiva que se foi mantendo. Quando foi erigida a nova fachada, no século XVIII, descobriu-se o conjunto gótico que estava oculto, uma notável obra de arquitectura.

Santo Domingo de la Calzada

Domingos Garcia foi um homem com vocação de santo e, como não entrou num mosteiro, decidiu converter-se em construtor e pontes que tinha como prioridade auxiliar os peregrinos. Depois da sua morte, o seu sepulcro transformou-se num santuário e, mais tarde, é erguida aí uma catedral. Tem uma torre, anexa, separada do corpo principal, sendo a mais alta e representativa da região. O curioso é o galinheiro que continua a ter animais vivos, um galo e uma galinha. É o reflexo da antiga presença de animais nas igrejas, onde entravam gatos, cães, cavalos e pastores com as suas ovelhas.

Burgos

Foi iniciada por Maurício, um bispo que tinha estado em França e foi-se aperfeiçoando com o tempo. A capela do Condestável é a principal do templo e foi a primeira fundada por um eclesiástico. É uma maravilha arquitectónica onde estão várias obras de arte que reflectem o gótico final. A Escadaria Dourada é a obra prima e Diego de Siloé e o púlpito conjuga as tradições góticas, renascentistas e andaluza. O Papamosca é um dos poucos relógios com autómatos que se mantêm em funcionamento. Ao dar as horas, coloca em funcionamento figuras e dispositivos. É um edifício majestoso, cheio de luminosidade e recantos que convidam à reflexão e tranquilidade.

Leon

Esta catedral prova que o seu máximo adorno é a sua própria forma, destinada a ter uma superfície interminável de vitrais, cheia de estatuária da melhor criação e qualidade gótica. No Pórtico Real existem peças como o Relevo dos Condenados e dos Justos, trabalhado por estudiosos de todo o mundo. Junto está o Locus Apellationis, o lugar onde se celebravam os julgamentos, às portas do templo. Escondida num canto da torre sul, está uma escultura peculiar: é o chantre Gonzalez de Gatio, no púlpito, como se fosse uma figura real que se assoma à janela.

Astorga

Este templo teve uma primeira fase monumental no período românico, mas sofreu uma demolição para dar lugar ao edifício que conhecemos hoje em dia. É um gótico maduro, construído em altura fazendo lembrar os edifícios do norte da Europa. Houve uma clara ousadia de terminar as cúpulas, em 1965, da sua torre inacabada. O retábulo central, considerado o melhor de Espanha, é da autoria da Gaspar Becerra. No museu encontra-se a arca de S. Genadio, uma joia do século X e recorda o papel deste bispo que fundou a Igreja de Santiago de Penalba. As personagens mais populares são os autómatos, que dão as horas e no pináculo mais alto, pode-se observar uma réplica de Pedro Mato.

Santiago de Compostela

A “invenção” do sepulcro de Santiago, na Galiza, foi uma generalidade da Espanha Cristã, a necessidade da motivação e da expressão da fé. Durante a Idade Média o solar funcionou como santuário, com sucessivas igrejas edificadas à volta do Campo do Apóstolo de modo a ser prestado o culto. No século XII, o templo românico vê acrescentada a cripta, as torres e o célebre Pórtico da Glória, uma referência mundial da Arte Gótica. As tribunas, absurdamente elevadas, era local vantajoso para o alto clero e os nobres assistirem aos ofícios. A longitude da nave maior estava concebida para ter o coro capitular. Nas palavras de Andrés Rosendo, o barroco deu à arquitectura galega o que o gótico lhe negou, com o objectivo de se destacar em altura e envolver o edifício em novas fachadas, acabou por se transformar numa catedral.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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