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Sacrifício

O mensageiro observava-o escondido. O homem estava sentado no chão debaixo de uma árvore, a chorar em silêncio. Os soluços percorriam-lhe todo o corpo. Agarrava a terra com raiva e aprisionava-a nos punhos. Batia-os no chão. O pó voava. Por vezes, um pequeno gemido de animal selvagem ferido. A dor brilhava à luz da lua cheia. Limpou a cara com as costas da mão, deixou rastos castanhos de barro e virou a cabeça na direcção dele.

“Podes sair das sombras” disse-lhe. A voz era rouca, a angústia à espreita no tom cansado.

O mensageiro mostrou-se. Sentou-se ao lado do homem, mas não foi capaz de olhar para ele. Cheirava a suor e a desespero. Ficaram em silêncio – um silêncio tão duro e prolongado que parecia chegar aos ossos, apagar o mundo, transformá-lo. O homem perguntou:

“Tem mesmo de ser?”

O mensageiro anuiu tão suavemente que poderia ter sido apenas uma impressão, o vento a obrigá-lo a mexer-se. Mas não havia brisas naquela noite e o homem percebeu. Fechou os olhos como quem pára o tempo. Estava calor, mas o corpo tremia de dúvida e medo. O mensageiro aproveitou para vê-lo bem à luz pálida e incerta da noite, para conseguir examiná-lo além da pele morena e da expressão torturada. Aquele homem que sabia tanto e que tinha acreditado. Aquele homem que sabia tanto e que agora não compreendia. Aquele homem que sabia tanto e que em breve teria de morrer.

“Que será que procuramos, no fim?” uma pergunta retórica, tão baixinho que era quase imaginação. Ainda de olhos fechados, a sentir a atenção e a curiosidade do mensageiro pousadas em cima de si: “O que queremos nós, no fundo? O que nos une?”

O mensageiro manteve-se calado. Perguntas de um moribundo. Nunca saberia o que dizer para o consolar.

O homem suspirou e abriu os olhos, devagar, sem ver nada, sem mirar lado nenhum. O tempo a voltar a correr, as pestanas a brilhar de derrota, o peso do futuro quase insustentável a deixá-lo dobrado sobre si próprio. Vomitou de terror. Respirava com tanto ruído que era o único som naquele jardim. Arfava como quem não consegue respirar, como quem luta para viver, como quem pergunta e duvida e questiona. Bateu de novo com os punhos no chão. Pó.

“Criamos deuses para termos poder? É para isso que serve a fé?”

Gritou de raiva e frustração.

Gritou tão alto – até sentir as lágrimas a arranhar a garganta de desgosto. Desolado com o mundo, com o destino, com os homens, com Deus.

Pela primeira vez, o mensageiro pensou que tudo aquilo talvez fosse pedir demais a um homem, fosse ele quem fosse, tivesse a sabedoria que tivesse. Porque era também e apenas um homem: sentia o peito rasgado de emoção, a carne a arder de dor, o pânico do fim. Saber o nosso fado pode ser uma maldição. Quis abraçá-lo, mas não o tocou. A compaixão que sentia sufocava-o.

Ela entrou no jardim e ficou encostada a uma árvore. Sentia-se errada, nebulosa, um aparte na sua própria vida. De longe, viu-o a falar sozinho. Perguntou-se quanto de loucura têm os génios, quanto de magia têm os milagres. Observou-o enquanto ele fazia chuva de terra, se dobrava sobre si próprio e chorava. Falava para o nada, desesperado, como se alguém o ouvisse. Talvez falasse para ela, a soubesse ali, ele que tudo sabia. Quis correr para ele, mas tinha o corpo paralisado.

O homem olhou na direcção dela e sentiu-se ainda mais quebrado. Desviou a vista. Tocou no braço do mensageiro. “Que tipo de bicho somos nós? Diz-me tu, que conhece o mundo desde o princípio.”

Incompreensível, pensou ele, mas não lho disse. Murmurou apenas: “Eles lembrar-se-ão de ti”.

O sorriso triste do homem, os pensamentos escondidos atrás dos olhos que procuravam o inexplicável na escuridão. Observou as suas mãos. De que eram feitas as lembranças, realmente? De que lhe adiantava morrer e deixar as suas memórias guardadas por outros, recordadas e adulteradas por outros?

Levantou-se. Olhou o jardim, olhou o mensageiro, olhou a mulher escondida no escuro e as luzes da cidade. Tremeu de um frio que não existia e de um medo que trazia mais penumbra ao mundo. Podia ver luzes que se moviam e se aproximavam. Eles vinham aí.

Na voz cansada de quem aceita: “Seja.”

O mensageiro assegurou: “É o que tem de acontecer. Eles lembrar-se-ão de ti.”

Ouviu passos a entrar no jardim. Viu o fogo a chegar. Ia começar.

De que lhe serviam agora as lembranças?

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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