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ContosCultura

Sabor a água

Persianas fechadas a sequestrarem o escuro da sala. Os intensos feixes do sol não eram bem vindos. Uma cerveja na mão, duas garrafas vazias caídas ao lado do sofá.

– “De onde vem a melhor água do mundo? Dos Alpes? Alguma nascente francesa?”

Pergunta parva de alguém que deveria ser um dos mais inteligentes detectives da ficção, Alex Cross, ali na televisão com a cara e corpo de Morgan Freeman. Pensa que esta há-de ser uma daquelas perguntas em que ele já sabe a resposta, que por sua vez vai derrubar de uma vez as defesas do interrogado e fazê-lo confessar sem qualquer contrapartida.

– “Fudokan.”

Foi a resposta. E ficou tudo na mesma. Estica as pernas e pousa-as num banquinho. Mente a flutuar por instantes. Curiosidade e atenção intensificadas.

– “Como?”

– “Fudokan, é japonesa. Não tens como saber.

Um pause e uma nova ida ao frigorífico. Mais uma cerveja. Descontracção. Quase esqueço que estou a ver o filme. Imagem parada no rosto gasto de Freeman aqui Alex Cross. Aquela necessidade que sento de me abster da realidade. Isto pesa-me. O rosto dela também. Tentei de tudo, tentei tudo. O mais belo, o maior requinte. O restaurante especial, o ramo de flores frescas e exuberantes, a promessa de uns dias de luxo e luxúria.

– “É o caráter japonês de fazer este tipo de coisas. Eles constroem uns navios especiais e navegam pelos mares mais remotos à procura dos icebergues mais azuis que conseguem encontrar. Rebocam-nos. E então consegues beber algo que a última vez que esteve no estado sólido foi há mais de 30 mil anos”.

Estes japoneses são loucos (nem há sequer a possibilidade de esta história ser pura ficção). Se o filme diz é porque é o que diz que é. Telemóvel na mão e toca a googlar. Existe sim, ou qualquer coisa parecida. O nome não é fácil mas o conceito de iceberg water é uma realidade. Também ela devia ser, também ela deveria ter aquela pureza intocável inserida de si, bem no seu âmago. Pura utopia. De novo a imagem a mover-se, o filme a ser filme. Porque a perdi? Tanto esforço.

– “Limpa e cara”.

A simplicidade de uma resposta que diz tudo.

– “A que sabe.’”

– “A água.”

Já está. Alex Cross venceu mais um duelo. E apenas através da pureza e da simplicidade. É talvez isso que devo ser também eu. Não um bloco de gelo a flutuar, alguém simples, norma. Simples. Tenho que o fazer. Tenho que ser mais simples embora a vida não o seja. Tenho que ser mais puro e não criar cenários que projectem um ideal que está longe de o ser.

Farto do filme, de realidades paralelas. Persianas abertas e olhos esmagados pelo sol. A melhor água do mundo é assim, transparente, fresca, pura. Também eu o vou ser.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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