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Rótulos Amargos do Interior de Portugal

Lamentavelmente, em pleno século XXI, o estereótipo das meninas e moças do Interior Norte de Portugal permanece de pedra e cal nas mentalidades estacionados na carruagem medieval de um passado remoto, porém, não tão longínquo como se quer fazer crer.

As meninas que outrora – em outros anos e num outro século – eram ingenuamente servas e criadas de seus senhores e maridos, agora, pasmem-se, são perspicazes, inteligentes, independentes e senhoras de si. Não se deslumbram com pouco, têm os pés assentes na terra e, para acrescentar, possuem histórias mirabolantes que (até!) fazem chorar as pedras da calçada por tamanha desfaçatez e descaramento de que são obrigadas a presenciar.

Prazer! Sou uma dessas meninas e moças com uma história incrível e fantástica para partilhar com quem me quiser ler…

Num domingo à tarde, fim de Fevereiro de 2017, o meu telemóvel toca e exibe um número desconhecido no ecrã e, confesso, atendo um pouco contrariada sem razão aparente. Um senhor, deveras simpático, educado e bom falante, apresenta-se pelo seu nome e título de engenheiro desculpando-se, de antemão, pelo incomodo do telefonema. Disse-lhe que não havia problema nenhum, como de facto não havia, e pergunto-lhe o que desejava. O desenvolvimento da conversa fora estranha, pois estava a oferecer-me uma proposta de trabalho justificando-se, desta forma, que encontrou o meu Curriculum Vitae e contacto no site de um organismo do Estado Português que actua no sentido de disponibilizar ofertas de emprego e afins. Encolhi os ombros relativizando o facto do Senhor Engenheiro ter tido acesso ao meu contacto por mea culpa.

A proposta foi-me apresentada após um longo discurso e exibição de um projecto que estava em andamento, porém, não finalizado por questões legais e pouco ou nada importantes para a história. Admito que a encenação do Senhor Engenheiro fora estudada e decorada com franca dedicação. A oferta de trabalho resumia-se ao compartimento de gestão e secretariado, a mais de 400 km de minha casa. As condições, prometidas telefonicamente, eram boas, até. Oferecia-me um tecto, comida, carro e zero despesas e preocupações.

Esta oferta era completamente descabida pelo simples facto da minha área e experiência profissional não ser compatível com as exigências do Senhor Engenheiro, justificando-se, no entanto e de imediato, com as minhas capacidades de escritas e capacidades criativas; esta oferta era descabida devido à distância geográfica pois perguntava-me como seria possível esta entidade patronal não conseguir encontrar alguém capaz de trabalhar para ele recordando o facto de se encontrar a mais ou menos poucos quilómetros da capital do país com pouco mais de meio milhão de pessoas segundo os últimos sensos efectuados; a oferta de trabalho era descabida, afinal, devido à panóplia de ofertas e oferendas que me disponibilizou caso aceitasse o trabalho, porém e evidentemente, exigindo uma entrevista presencial.

Os dias que se seguiram foram temperados com mais telefonemas e mais conversas persuasivas. Demonstrava imensa preocupação e compreensão devido à minha desconfiança evidenciada e, claro, à provável preocupação e apreensão totalmente justificada da parte dos meus pais, segundo o Senhor Engenheiro, sentimentos deduzidos por ele e traduzidos, evidentemente, de forma correcta. Por descargo de consciência, aceito a entrevista presencial com o Senhor Engenheiro preparando a mala sem quaisquer dias estipulados para o regresso a casa pois, a pedido dele, ficaria a trabalhar, em condição experimental, após a entrevista com a justificação de poupar e amealhar tempo e dinheiro com as viagens para cima e para baixo. Com esta ideia prática e cómoda, o Senhor Engenheiro prometeu, assim, reservar-me um quarto no Aparthotel onde morava há cerca de um ano exactamente pelas mesmas razões pouco ou nada importantes do projecto não terminado e concluído citado em cima.

Aquando da preparação das malas e bagagens, preparo e aviso parte da família da minha ida repentina à Lisboa. O plano seria simples: eles, a família, estariam comigo quando me fosse apresentar à tão aguardada entrevista mostrando ao Senhor Engenheiro, desta forma, que não estava sozinha e, assim, salvaguardando-me de qualquer intenção menos boa da parte dele e tranquilizando, neste sentido, os meus pais. Mais tarde, e partindo do principio que tudo corresse dentro dos trâmites normais sociais que uma oferta de trabalho comum nos brinda, oficializaria o meu novo posto de trabalho e poderia matar as saudades familiares que a distância causa.

A entrevista foi no dia de Carnaval, portanto, feriado. Às 15 horas estava na recepção do Aparthotel, como combinado, à procura do Senhor Engenheiro e munida com a escolta familiar. Apresentamo-nos como dita as regras de conduta e educação e dirigimo-nos para o hall de entrada. À minha frente, no sofá, apresentava-se um senhor com idade para ser meu avô, com o azul bebé proeminente na indumentária dele e com sapatos ridiculamente claros, limpos e de aparência demasiadamente jovial para ele. A entrevista desenrolou-se demoradamente e da qual pouco falei e pouco fiquei esclarecida. Tentou elucidar-me quanto ao projecto estagnado, comentou sobre uma eventual viagem à China na qual o acompanharia por mérito dos meus conhecimentos de inglês – descritos apenas no meu Curriculum Vitae e nunca provados num diálogo – e, por fim, pouco elucidou-me relativamente ao meu trabalho: estava tudo em aberto conforme as minhas capacidades demonstradas.

A entrevista deu como terminada e não sem antes referir que deveria cortar o cabelo pois uma secretária pessoal perdia credibilidade com cabelo comprido. Avisou-me, ainda, que não poderia ter filhos nos próximos dois anos, no mínimo, pois queria alguém 100% disponível para o cargo e, também, para poder escrever-lhe a sua biografia e contos diversos sobre as histórias dele e, deste modo, dedicar-me a esta causa sem obrigações extras que um bebé acarreta. Neste ponto torço o nariz mentalmente, não propriamente pelo facto de não puder ter filhos, mas sim de me recusar terminantemente a cortar o meu cabelo!

Já então na fase experimental, pós entrevista, noto que não existe estrutura empresarial alguma e que o trabalho seria executado no apartamento do Senhor Engenheiro alugado no Aparthotel, um T0. De forma mecânica, automática e repentina, estava no quarto deste onde seria o meu local de trabalho: os processos infinitos cumprimentavam quem entrasse no apartamento, uma mesa redonda de madeira espreitava no meio da sala pequena e dois tablets sob a dita. As camas mostravam-se aos cantos do quarto, sem quaisquer divisões, excepto para o quarto-de-banho. Posto isto, vejo-me numa situação constrangedora e completamente sórdida calcificando-se mais quando o Senhor Engenheiro me sugere alugar um T1 no prédio hoteleiro para morar com ele e cada qual ficaria com o seu quarto, sua divisão e consequente privacidade justificando a economização e protecção financeira do próprio. A minha resposta foi de imediato negativa e o Senhor Engenheiro prontificou-se, então, alugar um T0 para mim, note-se, um pouco contrariado.

Finalmente, encontrei-me sozinha no quarto, no meu T0. Após pouco mais de 4 horas consegui 15 minutos de privacidade e liguei à minha mãe para lhe pôr ocorrente da situação e dando-lhe indicações para falar com a escolta familiar próxima de mim, naquele momento, pois não teria mais tempo dado que o Senhor Engenheiro aguardava-me para jantar. Os sinais eram evidentes, porém, quis dar o beneficio da dúvida pois, talvez, a panóplia de situações que me contara pudessem ter um fundo de verdade e não existindo qualquer intenção menos boa da parte dele. A maldade está na mente de cada um, diz-se… Quis ser racional e correcta com o Senhor Engenheiro descartando (in)conscientemente o prenúncio claro e evidente.

Para meu espanto, o jantar era no T0 dele e já estava a ser confeccionado pelo Senhor Engenheiro, na kitchenette. Recrimino-me, ainda hoje, por não lhe ter dito que queria jantar fora, em qualquer lado. A título de exemplo, uma roulotte de cachorros quentes, na rua e ao frio, teria sido claramente mais agradável!

Neste momento, sinto o meu cérebro completamente anestesiado pela situação onde me tinha colocado. O cansaço invade-me e a réstia de bom senso permaneceu firmemente graças às tentativas consecutivas de telefonemas dos meus familiares. Os minutos passam, o telefone toca incansavelmente e a minha vontade de atender era ávida. Não atendo pois não podia falar abertamente. Não podia contar sobre a falta de à vontade e abastança de desespero perante esta situação devido à ausência de privacidade. O Senhor Engenheiro permanecia eficazmente no seu trono de madeira, diante da mesa redonda, de pernas cruzadas, sempre com o olhar fixo em mim. Para atender, não seria ali, não podia ser ali. Não podia ir para a varanda, virada para a rua de paralelo, porque ele ouviria nem, tão pouco, poderia sair do T0, para o corredor do Aparthotel, porque ele ouviria também. Por estas razões, optei por não atender a nenhuma chamada nem a responder a qualquer mensagem.

O Senhor Engenheiro comenta sobre a intranquilidade das chamadas… Óptimo! Este nota que, de facto, não estou sozinha e a qualquer momento fortuito alguém poderia aparecer. Não obstante, ele continuava a falar dele, do mundo injusto que girava desfavoravelmente e das conspirações do universo das quais era vítima. Comenta, novamente, sobre a futura biografia e que eu, como autora desta, deveria estar disponível a qualquer hora do dia, incluindo madrugadas, caso ele sentisse necessidade de conversar. Escusado será dizer que, para mim, o período experimental tinha findado e apenas esperava um momento para me despedir e desejar-lhe um resto de uma boa semana com o som de fundo do meu telemóvel criando a banda sonora do momento devido às chamadas que continuavam a insistir e a persistir.

A cereja no topo do bolo é a nova e original proposta que surge e sugere. Através de muita conversa floreada, contornando palavras de forma cuidadosa, propõe-me algo mais que um simples trabalho no compartimento de secretariado: pergunta-me se estaria apenas ali para trabalhar ou se estava disposta a ceder a eventuais desejos carnais que pudessem adivinhar e brotar, da parte dele, ao longo de tanto tempo de convivência comigo.

Levanto-me repentinamente, digo-lhe que veio bater à porta errada e pego rapidamente no meu casaco, mala e telemóvel para sair sem demora. O Senhor Engenheiro levanta-se, sentindo-se ofendido –  de certo por ter recusado e ter mostrado a minha indignação -, dirige-se à porta e, neste momento, o medo invade-me desgovernadamente, pensando em mil coisas horrendas. O meu telemóvel toca pela milésima vez, o Senhor Engenheiro abre a porta e, na ombreira desta, atendo o telemóvel com um “sim, padrinho!” e a porta do T0 fecha-se, para mim, permanentemente.

O recepcionista mostrava-se pouco surpreendido aquando da minha entrega da chave do meu quarto demonstrando-me, assim, que muito provavelmente esta situação não teria sido uma excepção à regra.

Posto isto, agradeço à minha escolta e protecção familiar pois esta situação poderia não ter corrido assim tão bem. As intenções e objectivos do Senhor Engenheiro seria contratar uma secretária pessoal, uma dama de companhia, uma criada e uma amante. Ressalvo o facto de nada, absolutamente nada, ter acontecido excepto a perda do meu precioso tempo com algum receio à mistura numa dada altura desta história. O Senhor Engenheiro apenas propôs e tentou que o barro colasse à parede, no entanto, a parede não permitiu tal despautério.

Indigna-me, sim, o facto deste ter contactado alguém a mais de 400 km de distância, do Norte Interior de Portugal, com a intenção de encontrar uma pessoa de mentalidade bacoca e ingénua. Alguém que não tivesse nenhum contacto na capital do país para que, desta forma, se sentir assegurado e ter total margem de manobra para com a pessoa. Indigna-me o facto de certas pessoas pensarem que o Norte do país serve de depósito para pessoas incultas, estagnadas no tempo e na mentalidade e com escassez de inteligência. Os génios nacionais não saíram somente da capital…

O Senhor Engenheiro pensou que, para a entrevista, fosse uma menina e moça desprovida de qualquer familiar próximo, com mala de cartão e saco de plástico axadrezado, rejubilando de contentamento porque, numa oportunidade, veria o mar pela primeira vez.

Receio por outras nortenhas ou quaisquer demais mulheres que estejam num ponto longínquo da capital e que possam, efectivamente, ir a uma entrevista de trabalho camuflada através da lengalenga dele e naufragada com segundas intenções.

Receio por outras que, talvez, possam ir sozinhas para Lisboa à espera de uma oportunidade de trabalho decente.

Receio por outras que se vejam obrigadas numa situação semelhante e que nada podem fazer para defender-se.

Será sempre a minha palavra contra a do Senhor Engenheiro, não é?

Ao Senhor Engenheiro, o tiro saiu-lhe pela culatra. As meninas e moças não são assim como você e outros demais querem crer. Não o somos! Que sirva de lição esta sua tentativa fracassada – mais uma para acrescentar à sua lista interminável de fracassos. Não queria uma história dedicado a si? Ei-la… Para embalar-lhe a consciência minada de pensamentos perversos.

A orgulhosamente transmontana.

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Rita Morais de Oliveira

Sem apresentações hollywodianas, nasci em 1988 no Nordeste Transmontano, Portugal. Encontrei o meu habitat na escrita desde que comecei a ler e a escrever. Nos meus tempos livres, além de Freelancer de Conteúdos, também sou uma aspirante escritora em (eterna) construção e contra o Novo Acordo Ortográfico. Com um conto policial publicado - Doce Sentença -, outro em execução para uma Antologia Policial e um livro em criação, todos dentro do mesmo género literário. Como o nosso velho amigo Albert Einstein disse: "Criatividade é inteligência divertindo-se."

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