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Sociedade

Roda que roda…

O homem saiu de casa, na sua cadeira de rodas eléctrica, enfrentando o alcatrão, encostado à direita. A seu lado, mas no passeio, a filha adolescente, no mesmo compasso. Vejo-os frequentemente, desde o tempo em que a menina usava laços no cabelo e, seguia sentada nas pernas do pai. Desta forma, na cumplicidade habitual, encontro-os várias vezes pela cidade, ora desviando-se dos carros, ora procurando contornar as dificuldades de circulação, e surge em mim um misto de admiração e carinho.

Sempre que os vejo, lembro-me de mim própria, gaiata, a acompanhar o meu avó. Até aos meus 7 anos, ele, no seu compasso de bengala e canadiana, toc–tac, toc-tac, ia levar-me e buscar-me à escola. Devagar e compassado, no ritmo que a doença lhe permitia, seguia o seu caminho. Às vezes eu, que adorava o meu avô, tinha vontade de o deixar por momentos, naquela morosidade, e correr ladeira abaixo com as demais crianças, entre risos e gritos, brincadeiras e partidas. Os outros avós, com mais facilidade de locomoção, distanciavam-se do meu, deixando-o isolado,  e dirigiam-se ao fundo da rua, onde as crianças, terminada a corrida, esperavam por eles, cumprindo a ordem de não saírem da vista. Uma vez ele, talvez em dia de amargura, que as pessoas doces também os têm, perguntou-me porque correra eu, se tinha vergonha dele.

Fiquei absolutamente sem jeito. O meu avô era a pessoa que eu mais amava, e ainda hoje essa pergunta ecoa em mim.  Doeu-me a pergunta,  não consegui perceber porque a fez, afinal eu era apenas uma criança, a querer fazer coisas de criança. Claro que o poderia fazer mais tarde, quando fosse sozinha, o que ocorreu no ano seguinte, mas eu queria era nesse momento, alinhada com os amigos da escola. Mal comparado, é como quando somos adolescentes e queremos ir a discotecas e não nos deixam, e quando efectivamente o podemos fazer já não achamos a mesma graça. Cada coisa a seu tempo. E nessa altura, seria muito mais natural eu juntar-me aos barulhentos que corriam rua fora, do que manter-me no ritmo toc-tac, toc-tac, a ver os outros correr, com uma ponta de inveja.

Outra vez, e essa mágoa guardo-a também para sempre, um puto que não conhecia, na vulgar crueldade infantil, referiu-se ao meu avô como sendo parecido com o Charlot, naquele andar de perna lateralmente orientada, oscilando o corpo numa dança da esquerda para a direita e vice-versa. Não consegui responder, mas tive pena de não lhe ter dito que aquele homem balançante era o meu avô e, tinha o maior orgulho nele, pela sua perseverança, apesar de todas as dificuldades sentidas.

Vergonha é um termo que não me ocorre neste contexto, porque as pessoas são o que são e as limitações físicas não caracterizam ninguém, não diminuem o valor, apenas tornam os dias mais difíceis, sobretudo ao próprio. A diferença causa sempre estranheza. Não é por acaso que, desde cedo, dizemos às crianças que não olhem insistentemente para aqueles que possam ser física ou mentalmente  limitados. Porque o olhar inquisitório pode magoar, para além dos melindres que podemos causar, muitas vezes sem intenção ou consciência.

Por isso, quando vejo a agora adolescente, penso que também ela terá muitas vezes limitado as suas vontades, deixando, por exemplo, de  acompanhar as amigas, que seguem mais à frente em conversas sobre rapazes, rindo-se audivelmente. Olho com admiração para aquela menina, quase mulher, que independente do que possa sentir, opta por acompanhar o pai. E vejo nela uma doçura incrível.

Ainda hoje, quando alguém passa por mim de canadiana, ou de bengala, atento no seu andar, e recordo aquele toc-tac, toc-tac, compassado, algumas vezes interrompido, para recuperar o fôlego, aliás como acontece com as crianças de hoje que, por ventura, descerão a mesma rua em corridas desafogadas.

Resta-me o consolo de um dia lhe ter dito que era a pessoa que eu mais amei na vida. Mesmo sem corridas na calçada. E se calhar, sobretudo, pela melodia do seu andar.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em 4 Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

One Comment

  1. Revejo-me completamente nas tuas palavras. O meu avô sempre foi o meu herói e nestes últimos anos mingou, deixou de fazer sentido e ficou preso a uma cama. Há poucos meses faleceu e não consegui fazer outra coisa senão chorar no seu funeral. Na altura, não consegui escrever sobre o homem que tinha sido, o porquê de o admirar tanto, talvez agora já esteja preparada. Obrigada pelo teu texto tão bonito. 🙂

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