Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!
HistóriaSociedade

Ricardo, de Duque de Gloucester a Rei de Inglaterra

Ricardo III de Inglaterra, o último rei da dinastia Plantageneta, sempre foi descrito como um monstro corcunda e disforme e vilificado por Shakespeare na peça homónima. Enterrado à pressa após a Batalha de Bosworth Field, a localização do seu túmulo perdeu-se com o passar dos séculos, até ao ano de 2012, quando foi encontrado debaixo de um parque de estacionamento que ocupava o local do mosteiro, onde havia sido sepultado.

A peça homónima de Shakespeare deu-nos um Ricardo, pérfido, perverso e pervertido, invejoso do irmão, sedento de poder e de sangue, que não olhava a meios para atingir o que queria. Um ser disforme e corcunda, que governava pelo medo e que se rodeou dos seus iguais. É frequentemente acusado de ter assassinado (ou de mandar assassinar) os seus sobrinhos, Eduardo V e Ricardo, Duque de York, apenas para ficar com o trono. A máquina da propaganda da Dinastia Tudor também manteve este mito. Porém, será este o verdadeiro Ricardo III?

Filho mais novo do Duque de York, Ricardo nasceu em Outubro de 1452, no castelo de Fotheringhay, na recta final da Guerra das Rosas, uma disputa dinástica entre as casas de York e de Lancaster, para decidir quem era o legitimo herdeiro do trono de Inglaterra. Em Dezembro de 1460, o seu pai morre na Batalha de Wakefield e, pouco tempo depois, em Março de 1461, o seu irmão mais velho torna-se rei. Com apenas 9 anos, é criado Duque de Gloucester e é enviado para viver com Richard Neville, Conde de Warwick, um dos maiores aliados do Rei, para ser educado como um nobre. Começa os treinos militares, onde se destaca pelo seu brilhantismo, tendo-lhe sido entregue, aos 17 anos, um comando independente. É durante a adolescência que desenvolve escoliose, o traço físico que lhe é mais comumente associado.

Durante o reinado do seu irmão, Eduardo IV, Ricardo recebe terras, títulos e cada vez mais poder, tornando-se a segunda pessoa mais poderosa de Inglaterra. Durante a segunda subida ao trono de Henrique VI (Outubro de 1470 a Abril de 1471), vive no exilio, mas rapidamente regressa e, apesar dos seus 18 anos, comanda forças nas Batalhas de Barnet e Tewkesbury, ganhando o trono ao seu irmão e consolidando o seu poder. Pouco tempo depois desta batalha, Ricardo casa-se com Anne Neville, filha do seu educador. Ate à morte do irmão, em 1483, Ricardo luta contra França (1475) e contra a Escócia (c. 1475 a inícios de 1482) e administra o Norte de Inglaterra com grande sucesso.

Em 1483, com a morte do irmão e acessão do ainda menor Eduardo V, Ricardo é nomeado Lord Protector of the Realm, uma espécie de Regente, o que lhe garantia poder praticamente ilimitado. E começa assim uma sucessão curta de eventos que iria culminar com a coroação de Ricardo como Rei de Inglaterra. Na manhã de 30 de Maio, manda prender o tio e o meio-irmão do Rei, juntamente com o seu camareiro-mor, e segue com o Rei para Londres. A 19 de Maio, Eduardo V passa a residir na Torre de Londres, de onde nunca mais sairá. A 22 de Junho, Ralph Shaa (ou Shaw) prega um sermão, acusando Eduardo V de ser ilegítimo, pois o seu pai, Eduardo IV, ainda era casado, quando contraiu matrimónio com a sua mãe. A 25 de Junho, uma assembleia de Lordes e Comuns, declara Ricardo como o legitimo rei de Inglaterra. Ricardo acede ao trono no dia seguinte e é coroado Rei a 6 de Julho de 1483.

O curto reinado (1483-1485) de Ricardo foi turbulento. Pouco tempo depois de ser coroado Rei, os seus sobrinhos desaparecem da Torre de Londres (o ultimo relato dos Príncipes vivos é de Agosto de 1483), dando azo à ideia de que foram mortos a mando do tio. No fim de 1483, debate-se com a Rebelião do Duque de Buckingham, antigo aliado de Ricardo, mas que havia ficado desiludido com o mesmo e apoiava agora Henrique de Richmond (o futuro Rei Henrique VII). Apesar da rebelião não ter tido o sucesso desejado – houve apenas alguns confrontos espalhados por Inglaterra –, foi o suficiente para a França apoiar a pretensão de Henrique de Richmond e os inimigos de Ricardo rapidamente se juntaram para o derrubar.

Segue-se o dia fatal de Ricardo. À cabeça do exército real, Ricardo defronta Henrique, na Batalha de Bosworth Field. Não se sabe com certeza os números, mas as forças do Rei eram substancialmente maiores que as forças Lancastrianas. No fim da batalha, Ricardo está morto (tornando-se o ultimo Rei inglês a morrer em batalha), a Dinastia Plantageneta morta com ele, Henrique torna-se Rei e funda a Dinastia Tudor. Apesar dos relatos, incluindo dos Tudor, dizerem que lutou bravamente, Ricardo ficou imortalizado na peça de Shakespeare, quando grita desesperadamente “A horse! A horse! My kingdom for a horse”, numa vã tentativa de fuga. Após a Batalha, o corpo de Ricardo foi exposto antes de ser enterrado na Igreja de Greyfriars, em Leicester. De acordo com a tradição, após a dissolução dos mosteiros, o seu corpo teria sido atirado ao rio Soar. Durante os séculos seguintes, a localização exacta do túmulo de Ricardo perdeu-se, até que, em 2012 e durante uma escavação arqueológica na zona onde teria sido enterrado, Ricardo foi encontrado.

As ossadas de Ricardo permitiram esclarecer as circunstâncias sobre a sua morte e aparência, destruindo alguns dos mitos criados por Shakespeare e pela Dinastia Tudor. A causa provável da morte de Ricardo terá sido um de dois golpes, um na parte posterior do crânio que lhe expôs o cérebro e outro na têmpora direita que lhe terá entrado no cérebro, tendo morrido ainda durante a batalha. As ossadas permitiram ainda comprovar a existência de escoliose, não tão severa como Shakespeare, ou os Tudor nos fizeram crer e que podia ser facilmente escondida debaixo das roupas, e a inexistência do braço deformado, outro dos mitos shakespearianos.

Apesar dos relatos da época nos apresentarem Ricardo como um governante justo, capaz de lidar com as exigências do trono e como um brilhante comandante militar, o mito de um tirano, assassino, sedento de sangue e poder ainda subsiste. E serão precisos muitos mais anos para que esse mito caia por terra.

Tags
Show More

Manel Gabirra

Estudante da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no Curso de Línguas, Literaturas e Culturas. Grande apaixonado por automobilismo e política.

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: