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Revival: um Noir Rural

Ainda no seu quarto volume, Revival apresenta-se com uma imagem noir perdida no ambiente rural do interior dos Estados Unidos da América. Rodeadas pela neve do Inverno e o negro da noite, a situação em que as personagens se encontram não nos é revelada directamente. Os detalhes do evento que leva ao desenrolar da história são lentamente descobertos com o diálogo das personagens, não existindo um período introdutório no qual Tim Seeley (New Exiles, Hack/Slash) esclarece ao leitor o que se está a suceder. Com essa demora, o autor consegue criar a tensão necessária para sustentar as fortes imagens que Mike Norton (Runaways, Gravity, Green Arrow/Black Canary) nos apresenta.

Com uma inspiração gore alusiva a The Walking Dead e encontrada em várias outras publicações da mesma casa (todas elas publicadas sob o nome da Image Comics), Revival não perde qualidade por seguir o caminho dos seus predecessores. Ainda que o tema se assemelhe ao da referida banda desenhada, o trabalho de Seeley e Norton toma como evento central o retorno à vida de várias pessoas em Wausau, uma cidade do estado de Wisconsin. Fragilizada por este acontecimento, toda a cidade se move sob um iminente sentimento de perigo, exacerbado pelo estilo que Norton emprega nas suas ilustrações. Ainda que Revival trate da ressurreição dos mortos, não está, de todo, centrada num cenário apocalíptico. Na verdade, Revival apenas retrata pessoas que, devido a razões ainda por descobrir, voltaram à vida, comportando-se (durante um período de tempo aparentemente limitado) como se comportavam antes de morrerem. Para além do mais, toda a estrutura social da cidade ainda se encontra intacta, tendo sido Wausau o único local no mundo a sofrer este fenómeno. Consequentemente, esta cidade está sujeita a um período de quarentena, resultando na consequente circunscrição do espaço da história, dando-lhe um carácter quase claustrofóbico.

A personagem principal, Dana Cypress, filha do chefe da polícia, Wayne Cypress, e polícia ela própria, suporta um carácter forte, ainda que o seu carisma se mostre tímido e se recuse a aparecer nas páginas dos quatro volumes publicados. Órfã de mãe, Dana rebelou-se durante a sua adolescência, acabando por engravidar do seu namorado de então. Agora com um filho com cerca de oito anos, a agente faz parte da unidade responsável pela investigação do fenómeno sucedido, trabalhando ao lado de Ibrahim, um técnico do CDC (Centro de Controlo de Doenças) enviado especialmente para a zona de quarentena. Para além da sua ligação oficial com o caso, Dana encontra-se ligada ao estranho fenómeno de duas outras formas. Por um lado, o seu filho tem encontros constantes com entidades disformes e de identidade ainda desconhecida, que circundam a cidade desde o “dia do renascimento”. Muito provavelmente, este será um dos arcos mais longos que os autores estão a criar, sendo responsável pela explicação do acontecimento central da narrativa – resta apenas saber se compensará o tempo gasto. Por outro lado, Dana descobriu que a sua irmã (Martha “Em” Cypress) foi assassinada pouco antes do fenómeno acontecer, sendo agora também um dos ressurgentes (ainda que quase ninguém, incluído o pai das duas irmãs, saiba que tal tenha acontecido).

Tudo isto compõe apenas a superfície de todos os arcos que Tim Seeley procura compor, resultando num entrecruzar de personagens, que ajuda a transmitir o limite espacial a que a história está sujeita. Da parte de Mike Norton, podemos contar com a alternância entre imagens frias, que representam a banildade do Inverno no interior dos EUA, e a pontualidade de cenas extremamente violentas, marcadas por cores quentes (na sua maioria ligadas à representação de sangue). Para além disto, o estilo noir empregue às ilustrações – como também à história – é responsável por um certo desconforto (no bom sentido), ajudando a manter uma sensação de perigo no ar.

No entanto, é necessário referir que as frequentes mudanças de locais não permite, por vezes, manter um fio condutor lógico no evoluir da história. Toda essa hiperatividade acaba por ser disruptiva, não beneficiando a narrativa. Além disso, falta ainda, a Revival, um certo carisma diferenciador, ainda não encontrado pelos seus autores. Com um enredo e personagens interessantes, falta-lhe um elemento tentador, que certamente aparecerá, a partir do momento em que mais detalhes sejam revelados.

Por último, Revival é bem representada pela resposta do público. Ainda que a maioria da crítica a tenha louvado e as vendas tenham sido encorajantes, a repercussão online (seja em fóruns, redes sociais, etc.) tem sido mínima. Na verdade, este é um óptimo retrato de uma banda desenhada elaborada com grande competência, responsável por um enredo e personagens interessantes, mas – de momento – pouco cativante.

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André Ferreira

"Political junkie", europeísta convicto e keynesiano por natureza. Ocupa todo o tempo que consegue com séries, filmes, música, livros, podcasts e qualquer outra fonte de entretenimento que consiga encontrar. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas pela FLUL-UL e pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela FCSH-UNL.

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