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Retrogaming

Quase que como um turbilhão, a tecnologia não deixa de evoluir e, simbioticamente, os videojogos acompanham-na de mãos dadas. Longe vão os tempos das 8-bit, mas, enquanto muitos jogadores evoluíram com as consolas, saltando de geração em geração, um nicho apareceu. Este nicho é composto maioritariamente por saudosos que, como a bons filhos cabe, ainda guardam, jogam e, inclusive, compram e trocam jogos para as mais diversas plataformas de outrora. No entanto, as velhas glórias dos videojogos não batem só à porta dos mais nostálgicos. Muitos “novos” jogadores, que têm interesse maior em outros géneros de jogos que hoje em dia não são tão explorados (como é o caso dos side-scrollers 2D, que tiveram o seu grande BOOM na era das 16-bit), têm, nas consolas mais antigas, bibliotecas vastas e recheadas de pérolas de direito próprio.

Porém, desenganem-se os que pensavam que o Retro Gaming é apenas… Retro. Muitas empresas (algumas, ou até mesmo a maioria, indie) aproveitaram vários conceitos para tirar partido da nostalgia dos fãs. Desde grafismo pixelizado, até paletas de cores menos variadas, tudo serve no sentido de levar os fãs para uma viagem no comboio da saudade. Um bom exemplo é o Super Meat Boy, um plataform side-scroller desenvolvido e publicado pela Team Meat, onde encarnamos Meat Boy, uma personagem em forma de cubo que se debate ao longo de níveis e níveis sem fim para resgatar a sua amada Bandage Girl das garras do malvado Dr. Fetus (com a evidente homenagem ao clássico Super Mario Bros.). Para além deste, temos também o exemplo de Megaman 9, um jogo que saiu apenas em versão digital, lançado em 2008 para a Nintendo Wii, Playstation 3, Xbox 360 e telemóveis. O jogo viria, 21 anos depois do original, adotar o estilo 8-bit que lançou este side-scroller para a ribalta dos videojogos.

Além destes “novos jogos retro”, muitas colectâneas surgiram, com compilações de grandes clássicos, tais como a Sega Mega Drive: Ultimate Collection, que foi lançada para a Xbox 360 e Playstation 3. Esta coletânea vem munida de mais de 40 clássicos da consola doméstica de 16-bit da Sega, como por exemplo Alien Storm, Comix Zone, os Sonic The Hedgehog bem como diversos spin-off, a trilogia de beat ‘em upStreets of Rage, entre outros.

Como seria espectável, o mercado rapidamente acordou para esta nova (velha) tendência. A procura de jogos e consolas Retro ano após ano aumentou, o que desencadeou uma subida significativa nos preços. No entanto, nem tudo foram más notícias para os coleccionadores de videojogos mais antigos, uma vez que, apesar de a procura ser maior, passou também a haver uma maior oferta, com mais lojas online e offline a vender não apenas material da geração de consolas actual, mas também consolas, jogos e acessórios mais antigos. Foi o emergir de um novo mercado.

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No entanto, este fenómeno não passou desapercebido às grandes empresas, em especial, à Nintendo. A gigante nipónica, detentora de alguns dos maiores nomes dos videojogos, tais com Super Mario, Kirby, The Legend of Zelda, Pokémon ou Metroid, avidamente se prontificou com uma plataforma denominada Virtual Console, que apareceu na Nintendo Wii, e depois se estendeu para a Nintendo 3DS e Nintendo WiiU. A Virtual Console é um serviço que permite ao utilizador comprar e jogar, através de emulação por software, clássicos das mais variadas plataformas da Nintendo, tais como Nintendo Entertainment System, Super Nintendo Entertainment System, Nintendo 64, mas também para plataformas de outras companhias, como por exemplo a Sega Master System, a Sega Mega Drive/ Sega Genesis, o TurboGrafx-16 e a Neo Geo AES.

Contudo, qual será o verdadeiro motivo por detrás de todo este buzz mediático, formado à volta do Retro Gaming? Será que a indústria dos videojogos não tem conseguido produzir IPs suficientemente interessantes para colmatar os desejos dos fãs? Será que, de certa forma, a indústria tende a voltar à simplicidade que os videojogos auferiam outrora?

Provavelmente não. Sabe-se, segundo as estatísticas, que a idade média de um jogador é 32 anos. Mais, 49% dos jogadores têm entre 18 e 49 anos. Estes foram os jogadores que viveram as consolas que agora chamamos Retro e é muito natural que o laço que até então os unia ainda exista. O motivo mais notório, para quem colecciona jogos e consolas Retro, é o poder recuperar e guardar lembranças do passado. Um jogo deixa de ser apenas um jogo e passa a ser uma cápsula do tempo, da qual usamos e abusamos para nos levar a um outro período da nossa vida, onde revisitamos memórias.

Se é verdade que a Nintendo tem o Retro Gaming como um mercado em crescimento, que acompanham de perto, existem empresas, como a Hyperkin, que nasceram graças a esta parcela de mercado, e se dedicam a preencher as necessidades dos que querem jogar Retro da forma mais confortável e melhorada possível. Foi a pensar em tudo isto que, em 2014, lançaram o Retron5. Esta “nova” consola, que na sua essência é a junção de várias plataformas em uma só, permite jogar, através dos nossos velhinhos cartuchos, Gameboy, Gameboy Color, Gameboy Advance, Famicom, Super Famicom, Nintendo Entertainment System, Super Nintendo Entertainment System, Sega Geneis e Sega Mega Drive (de notar que a Sega Genesis e a Sega Mega Drive são a mesma consola, mas em regiões diferentes). A Retron5 permite saída de vídeo por HDMI, o que facilita muito a logística nas televisões de alta definição.

Além do já supracitado, a consola vem equipada com um comando sem-fios Bluetooth, mas para os mais puristas é permitido ligar os comandos originais de todos os sistemas compatíveis. No entanto, não foram apenas melhoramentos visuais e sonoros que a Hyperkin implementou. Houve uma nova característica que, de certa forma, violou o purismo do conceito basilar dos videojogos Retro – Os Save States. Hoje em dia, os jogos atingiram um patamar quase cinemático e, entre cut-scenes, exploração e main-story, a experiência acaba sempre por consumir largas horas ao jogador, tornando necessária uma maneira de guardar o progresso. Contudo, o conceito de Save Game apenas começou a aparecer com mais frequência durante as 64-bit, sendo que, até então, tudo tinha que ser jogado de uma assentada, correndo o risco de, a qualquer momento e pelos mais variados motivos, o progresso ser todo perdido. Esta nova plataforma da Hyperkin veio revitalizar uma era saudosa, preenchendo uma lacuna no mercado, e servindo de ponte intergeracional.

O Retro Gaming está-se a tornar numa das grandes ramificações da indústria e não há indícios de que vá parar por aqui. Os mais nostálgicos são o combustível que está a fazer este ramo proliferar, ao ponto de chegar a novas audiências e de se tornar em algo mais do que uma coisa do passado. Podemos afirmar que o Retro Gaming pertence ao presente e enraizou os seus caminhos para um futuro promissor!

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Carlos Vaz

Estudante de Engenharia Electrónica na Universidade do Minho, nutre especial interesse por tecnologia, cinema e videojogos. Faz dos videojogos o seu hobby principal, coleccionando tudo o que consegue encontrar.

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