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Relembrar Carlos Paião

O nosso coração bate, bate mais forte a ouvir Carlos Paião, uma das maiores estrelas musicais que Portugal já teve, uma estrela Pop que, ainda hoje, nos deixa loucos de ilusão. Ele foi o tal que nos encantou com pó de arroz e não, nunca precisou de fazer playback para lhe reconhecermos o talento e a graciosa musicalidade.

Com toda a certeza que, apenas com o primeiro parágrafo deste texto, já reconheceu alusões a três dos maiores êxitos de Carlos Paião: Cinderela, Pó de Arroz e Playback. São temas incontornáveis da nossa música, da nossa cultura e que, ainda hoje, os mais novos reconhecem e trauteiam, mesmo sem saberem contextualizar na perfeição que músicas são estas, de onde vieram, ou como surgiram. Para isso, estamos cá nós.

Carlos Paião nasceu em 1957, em Coimbra. Porém, foi em Ílhavo e Cascais que passou grande parte da sua infância e adolescência. Estudou medicina, licenciando-se na Universidade de Lisboa em 1983, mas a sua verdadeira paixão já dava os primeiros passos muito antes desse feito académico de relevo. Falo da arte de compor e fazer música. No panorama de fim de década de 70 e início de década de 80, Portugal – e muitos outros países europeus – tinham no Festival da Canção uma das primordiais oportunidades de afirmação internacional. Não só no contexto artístico mas, também, na perspectiva cultural e social. Sendo essa afirmação o expoente máximo da potencialidade do festival, este era, mais que tudo, uma importante rampa de lançamento para o sucesso nacional dos músicos portugueses.

Assim, o caminho de Carlos Paião foi, muitas vezes, ao encontro dessa luz de oportunidade “festivaleira”. Aos 21 anos, concorreu no Festival da Canção de Ílhavo e obteve o prémio para melhor intérprete. Em 1980, participa pela primeira vez no grande Festival RTP da Canção, com o tema Amigos, Eu Voltei. Apesar das votações não terem sido muito amistosas e não tendo sido apurado nesse ano, Carlos Paião acabou mesmo por voltar. Esse regresso aconteceu logo no ano seguinte, com Playback a arrasar a concorrência e levando a melhor sobre, nada mais, nada menos do que José Cid e, também, as Doce. A música vencedora caracteriza tudo o que Carlos Paião era como cantor. Com uma afinação regular e constante, uma voz que não era extraordinária, mas, sim, carismática, o compositor português colocou, em pouco menos de três minutos de música, uma crítica divertida e descontraída aos artistas que utilizavam a técnica do playback para não correrem riscos nas performances ao vivo. Crítica que, seja feita justiça, ainda hoje está mais do que actual no nosso nicho musical, especialmente no género popular e tradicional.

Apesar da actuação colorida, animada e sem fugir ao tom, Paião não foi além do penúltimo lugar do festival realizado na capital irlandesa, Dublin. Ainda assim, o cantor já era uma certeza em Portugal e, nesse mesmo ano, acabava por sair outro dos principais temas do seu reportório, Pó de Arroz. Haviam ainda mais ingredientes que o tornavam especial e mais trabalhos que o tornaram famoso, na sua altura, e imortal, nos dias de hoje. A arte da sua composição serviu nomes como Herman José e Amália Rodrigues. A Canção do Beijinho para o humorista e O Senhor Extra-Terrestre para a maior fadista portuguesa de sempre, fizeram um tremendo sucesso, cada uma à sua maneira. Quem mais, além da genialidade de Carlos Paião, poderia colocar Amália a interpretar um tema como esse. Não se lembra?Aqui tem.

Multifacetado, participou no programa O Foguete, da RTP, com a companhia de António Sala e Luís Arriaga. A passagem pela televisão, também consumada com Herman, no programa Hermanias, não só nunca o separou da música, como acabou por lhe permitir a criação de um certo ambiente e presença audiovisual raríssima nos anos 80, no nosso país. A dimensão de primeira estrela Pop portuguesa foi, assim, cada vez mais cimentada e consolidada, com a sua imagem a ser consumida, em horário nobre, pelas famílias e, claro, a sua voz, a ser apreciada sempre que houvesse oportunidade para isso, sempre que a vontade de ouvir o ritmo aliado à sátira e a sátira aliada à inteligência, fosse impossível de ser reprimida.

Idolatrado dentro dos limites das nossas fronteiras, Paião desejou sempre ir mais além. Esse desejo ainda o levou até ao Japão, mais propriamente a Tóquio, onde participou, dois anos antes do trágico acidente que lhe roubará a vida, no World Popular Song Festival of Tokio. O tema que levou para terras nipónicas, Lá Longe, Senhora, valeu-lhe mais uma experiência internacional com moderado sucesso, mas que fez dele um dos artistas da sua contemporaneidade que mais conseguiu trilhar caminho nesse sentido.

Infelizmente, 1988 é o ano em que Carlos Paião desaparece do mundo dos mortais, devido a um grave e aparatoso acidente de viação na A1, quando se dirigia para um concerto. A nossa cultura perdia, então, de forma física, uma das mais irreverentes figuras do mundo do espectáculo. Contudo, se há alguém que consegue continuar a viver, através do seu legado, através daquilo que nos deixou para ouvir e para rever é, certamente, Carlos Paião. Já se passou mais de metade de um século e, na televisão, na rádio, no Facebook, ou no Youtube, não são raras as vezes em que pessoas, famosas ou anónimas, prestam a sua homenagem. Basta uma frase como “que falta fazes à música portuguesa”. E é verdade. Carlos Paião faz falta, mas também é certo que continua a viver, enquanto alguém souber cantar uma, ou outra música da sua autoria. Nem que seja…

… em Playback.

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Filipe Pardal

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. É assim que o meu currículo académico se define. Quanto às origens: 90% alentejano e 10% algarvio, ambas com um orgulho desmedido ainda que por motivos diferentes. As minhas temáticas preferidas vão desde a política ao desporto, com passagem pela música e literatura. A mistura parece abrangente mas a paixão é bem concreta: escrever e investigar.

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