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PolíticaPortugal

Reivindicamos muito. Contestamos pouco

2018 foi um ano de greves. Com números que em nada fazem corar os malfadados anos da Troika, em alguns casos até os ultrapassam.

Contudo, foram praticamente sempre greves sectorais (e uma geral na função pública, em Outubro) e muitos pré-avisos de greve não chegaram sequer à rua, utilizados como pressão política dos sindicatos para forçar a negociação e cancelados dias antes ao mínimo sinal de cedência do governo (e como cedeu).

Em toda a comunicação social se foi falando do aumento da contestação social, mas, na realidade, continuamos muito benevolentes quer em comparação com outros países da Europa, quer face ao que vem ocorrendo no país.

Senão vejamos:

Manteve-se a tradição da Educação, Saúde e Transportes serem os mais contestatários, paralisando os respectivos sectores graças às grandes percentagens de adesão. No entanto, também se manteve a desorganização no combate aos incêndios, bem como a sua dimensão, alcance e número de desalojados, mas fez-se vitória política da ausência de vítimas mortais. Como a tragédia de Pedrógão Grande no ano transacto foi tão grave e tão negligente, o sucesso do combate aos fogos agora transforma em digno de nota o essencial – salvar vidas.

E por falar em Pedrógão faleceu recentemente um desalojado que um ano depois, ao contrário do que lhe haviam prometido, ainda não tinha a sua residência reconstruída. Em simultâneo, foi sendo notícia o desvio de donativos para a reconstrução de segundas habitações e de outras tantas que, no limite, nem foram atingidas pelos fogos.

O serviço nacional de saúde está em colapso, o preço dos combustíveis disparou, proliferam casos de corrupção nas mais variadas áreas, aumentaram os valores das rendas (o que transitará para 2019, devido à subida da taxa de inflação), dos transportes e das portagens (idem). Caiu um helicóptero do INEM e um troço de uma estrada numa pedreira em Borba, ambos, infelizmente, com vítimas mortais e ambos com falhas de organismos que respondem perante o Estado bem como nos respectivos Ministérios.

Onde está a contestação nestes casos? Nas conversas de café e nos posts, memes e tweets nas redes sociais, mas que depois não chegam às urnas. A contestação de sofá muitas vezes – pela abstenção, por um lado, e pela memória curta, por outro – não se reproduz nos boletins de voto.

A sucessiva descrença nas instituições públicas pelas repetidas falhas ocorridas durante 2018 não deve conduzir à apatia em 2019, mas, sim, ao protesto. Pacífico (sempre), mas rigoroso. E, sobretudo, coerente.

É importante falar-se nisto no início de um ano determinante para o rumo do país, com eleições europeias em Maio e legislativas em Outubro. Em que se prevêem promessas e resoluções eleitoralistas (a começar pelo OE) Em que a Gerigonça, ponderadas as sondagens de intenção de voto, progressivamente se dissociará, por inutilidade superveniente dessa lide. E em que se zangando as comadres, provavelmente, se descobrirão as verdades.

As greves, que custam dias de produção às empresas e salários aos trabalhadores e que, normalmente, têm impacto sectorial, têm tido taxas de adesão estrondosas e os protestos, que não comprometem a economia (a não ser que mal agendados para horas de ponta) e podem ter verdadeiro impacto generalizado, são reduzidos a eventos nas redes sociais, onde se fazem uns cartazes e se tiram umas fotos. Reivindicamos muito. Contestamos pouco.

As greves são importantes, sem dúvida. Têm assento constitucional, revelam descontentamento, mas, quando em demasia (como tudo), banalizam o seu intento. Contudo, é nas ruas, em protesto generalizado e, sobretudo, nas urnas que o povo (mais) ordena. Que 2019 o prove!

A autora escreve segundo a antiga ortografia
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Angelina Lima

Posso dizer sem grandes incongruências e com várias reminiscências que no fundo sou uma não alinhada.

One Comment

  1. Gostei do artigo.

    Penso já ter opinado sobre o assunto há uns tempos atrás e a conclusão a que cheguei não andou muito longe da tua. Somos um Povo apático por natureza. Repara. Se olharmos para a nossa História irás verificar que as grandes mudanças da nossa sociedade (implantação da República, Estado Novo e o 25 de Abril) foram levados a cabo pelas forças militares que, por seu turno, só se “movimentaram” porque algo as forçou a tal (no primeiro caso o mapa cor.-de-rosa, no segundo as vicissitudes da 1.ª Guerra e no último a Guerra Colonial). Ou seja; em Portugal muito dificilmente temos o Povo a fazer algo pela mudança. Protesta-se muito, é verdade, mas não se sai disto. Claro que se pode – e se deve – tentar mudar este estado de coisas, mas para isto temos, primeiro, que acabar com os “aparelhos” e os “independentes” que minam a confiança na política e perceber de uma vez por todas que nem tudo o que vem de fora (da UE, mais concretamente) é a oitava maravilha do Mundo.

    E é muito pro causa disto que eu não tenho escrito artigos de opinião sobre a política nacional. Perdemos muito tempo a falar sobre o inócuo. Para mais, isto de andar a pregar para os peixinhso é algo para o qual eu gabo a paciência de Santo António.

    E já agora; não foi só o actual quadro político e governamental que falhou. Os nosso actores políticos já vem falhando sucessivamente há muitos anos para cá. E não é só por cá. Por esta Europa e Mundo ocidental fora começam a surgir sinais cada vez mais sinais preocupantes do colapso da classe política. Isto vai acabar mal se os extremos continuarem a chegar ao poder tal como o estão a fazer, mas sito são “outros quinhentos”…

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