Desporto

Quinze anos de Desporto

Ao longo dos primeiros quinze anos deste novo milénio, os leitores tiveram a oportunidade de observar inúmeros feitos, individuais ou colectivos, do desporto português. O Repórter Sombra considerou pertinente eleger duas das principais modalidades desportivas que estiveram em destaque nestes quinze anos, muito embora, este pequeno texto pecará por defeito e não por excesso – de facto, inúmeros desportistas e equipas desportivas portugueses alcançaram um lugar de destaque no panorama do desporto europeu e mundial. Para o efeito, de forma pertinente na nossa opinião, foram escolhidas dois mundos com destaque e história no panorama interno. Desde cedo, os portugueses habituaram-se a assistir ao prestígio internacional do ciclismo, conseguido por Joaquim Agostinho e Acácio da Silva, e às vitórias internacionais dos três grandes clubes portugueses no desporto que os portugueses consideram ser o desporto-rei, o futebol. São estes dois mundos que vamos realçar neste artigo, assumindo a esperança de que estes quinze anos possam ser encarados como uma introdução lógica para sucessos futuros nestas e em bastantes outras modalidades.

O desempenho dos ciclistas portugueses nas competições internacionais, com excepção de Joaquim Agostinho e Acácio da Silva, nunca obteve um grande volume de sucessos por diversas razões. Entre elas, o número reduzido de portugueses a correr nas melhores equipas do mundo. De facto, este foi uma variável que sofreu múltiplas transformações ao longo dos últimos quinze anos…e não foi necessário esperar demasiado por grandes resultados. José Azevedo, o primeiro ciclista a mostrar valor no pelotão internacional neste milénio, fez top-10 no Tour em duas ocasiões, repetindo a façanha no Giro de 2001. Nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, Portugal conseguia a sua primeira medalha olímpica no ciclismo. O autor do feito, Sérgio Paulinho, conseguiu garantir o segundo lugar no pódio e consequente medalha de prata. O próprio Sérgio garantiu vitórias em duas das três competições mais importantes do mundo do ciclismo, a Vuelta e o Tour. Muito recentemente, os portugueses celebraram outra vitória numa etapa da Vuelta, destaJM_15anosdedesporto_2 vez protagonizada por Nélson Oliveira, especialista em contra-relógio. Por fim, é obrigatório destacar o ciclista português mais influente dos últimos quinze anos. Rui Costa conseguiu a proeza de ser campeão do mundo da modalidade em 2013. Antes desse feito, já tinha vencido três etapas no Tour e alcançado a vitória em provas por etapas, como o Tour da Suiça. Sem dúvida, ciclistas como Sérgio Paulinho, Nélson Oliveira e Rui Costa têm aberto bastante espaço para o desenvolvimento do ciclismo português, contribuindo de forma idêntica na afirmação da qualidade dos nossos atletas neste desporto tão exigente.

No que ao futebol diz respeito, quinze anos revelaram transformações equivalentes ou ainda mais importantes do que os acontecimentos transcritos sobre o ciclismo. Individualmente ou colectivamente, o futebol, como habitual, juntou as emoções às conquistas e às derrotas, mas colocou Portugal num patamar bem mais elevado do que tinha acontecido na década de noventa. Mas Portugal não dependeu apenas e só das suas prestações dentro do campo para obter respeito da comunidade internacional: a excelente organização do Europeu de 2004 catapultou a selecção portuguesa para novos objectivos, mas também, assinalou Portugal no mapa dos países a ter em conta no mundo do futebol, também pelas suas infraestruturas e organização profissional.

A mesma selecção conseguiu algo até então inédito: com maior ou menor dificuldade, a selecção portuguesa de futebol nunca conseguira qualificar-se de forma tão assídua para as fases finais dos Europeus e dos Mundiais da modalidade. Mais ainda, nunca tinha alcançado a final de uma grande competição de selecções. A nível individual, Portugal também conseguiu representar-se ao mais alto nível nestes quinze anos: quatro Bolas de Ouro atribuídas a jogadores portugueses, o troféu que consagra o melhor jogador do mundo. Figo em 2001 e Cristiano Ronaldo em 2008, 2013 e 2014, elevaram o nome de Portugal para o patamar mais alto do mundo do futebol. Mas Portugal não joga só ao ataque nas nomeações individuais. Vítor Baía venceu, em 2004, o prémio de melhor guarda-redes da Europa, troféu agora extinto. Ao nível dos treinadores, José Mourinho venceu o prémio de melhor treinador do mundo em 2010.

Os clubes portugueses também estiveram em grande destaque nestes últimos anos. FC Porto, Benfica, Sporting e Sporting de Braga alcançaram finais europeias, embora apenas o FC Porto tenha alcançado o sucesso europeu. Primeiro em 2003, com José Mourinho ao leme, o FC Porto venceu a Taça Uefa, agora denominada Liga Europa, frente ao Celtic da Escócia. No ano seguinte, o expoente máximo europeu: a equipa, ainda comandada por José Mourinho, venceu o Mónaco na Alemanha, garantindo o maior e mais prestigiaJM_15anosdedesporto_1nte troféu, a nível europeu, dos clubes. Essa vitória permitiu, mais tarde, consagrar o clube do Porto como campeão do mundo de clubes, vencendo a Taça Intercontinental. Mais
recentemente, a equipa do FC Porto, liderada por André Villas-Boas, venceu o Sporting de Braga numa final portuguesa da Liga Europa, assumindo um lugar de destaque no futebol europeu neste princípio de milénio. Estes méritos, apesar de resumidos ao essencial, permitiram expandir o conhecimento das qualidades lusas no futebol, já que, na actualidade, são vários os jogadores e treinadores com lugar de destaque nos diversos campeonatos europeus.

Nesta breve incursão por duas das modalidades com mais história no desporto português, podemos assumir o desenvolvimento das mesmas ao longo destes quinze anos. Em ambos os casos, Portugal já atingira marcas históricas no passado, mas que não obtiveram continuidade ao longo dos anos seguintes. Em todo o caso, este princípio de milénio tão interessante, no que ao desporto diz respeito, merece uma reflexão por parte de todos os intervenientes. Será muito interessante continuar a preservar e enaltecer o passado, mas pouco servirá se o desporto português se mantiver nesse saudosismo tão próprio da nossa cultura. O tempo de festejar já passou, o tempo do trabalho árduo e contínuo desenvolvimento de capacidades caracteriza o presente e o futuro.

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João Miranda

Comunicação e Sociologia como formação, escrita como actividade de lazer. Livros e café, uma boa esplanada e amigos, sol no céu vigilante e viagens. Será difícil levar algo melhor da vida do que isto.

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