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Querido Lourenço

Tu ainda não me conheces, mas quero que saibas que eu sei quem tu és e que me preocupo contigo. Tu és um menino diferente, em todas as dimensões e demasiado pequeno para te preocupares com a vida. Tens quem faça isso por ti, bebé.

Já fizeste um ano (quem diria?) e a tua vida tem sido normal, como qualquer bebé da tua idade. Vives com o pai e ele tem cuidado de ti. És um milagre, algo que nunca se pensou que pudesse acontecer. És a prova de que existe tanto por aprender e por descobrir. Espero que sejas muito feliz.

Nasceste com pouco peso, mas não foi nada mau para as tuas 32 semanas. Sabes, significa que são 8 meses e não 9, como é costume. Ser diferente é um pormenor. Existem tantos bebés que nascem antes do tempo e que têm uma vida normal. Tu não és uma excepção.

Sei que o pai e que os avós nunca saíram do pé de ti e que roíam as unhas todos os dias. Eles e todos os que estavam ao teu lado, uma grande equipa que nunca descurou os cuidados necessários. Tens tanta gente que se preocupa contigo e que te quer tanto bem!

A ciência é algo de fantástico, mas é cedo para te explicar o que verdadeiramente é e como funciona. O teu corpo sabe e vai continuar a portar-se muito bem. Ainda tens muito que crescer e vai com calma. És um menino que está a ficar grande e forte, o orgulho de todos.

Vou pedir ao pai que te leia esta carta, que te explique tudo o que está aqui escrito, para que entendas como és importante para todos nós. O pai talvez possa ficar um pouco relutante, eu compreendo, porque a situação não é nada fácil.

Tu és o fruto de muito amor, do amor de um pai e de uma mãe, dum casal que te desejou. A tua mãe certamente que ficou feliz quando soube da tua existência. É assim que uma mãe fica quando sabe que vai ter um bebé. O que ela não sabia (como poderia saber?) é que a vossa ligação ia ficar interrompida.

A mãe teve um problema grave de saúde, quando tinhas só 17 semanas e foi para o hospital. A vida da mãe esgotou-se, mas a tua continuou. Foram muitas pessoas a lutar por ti, pela tua vida, pela tua sobrevivência. Vês como és especial? Ela estava lá, mas já não existia. É difícil de assimilar, pois é. Ela não te vai ver crescer, não te vai dar o leite, não vai dar banho, não vai vestir as roupinhas nem dar os miminhos que todas as mães dão aos filhos.

Tudo isto é novidade, nunca tinha acontecido, mas tu és um guerreiro, um lutador e herdaste esse génio da tua maravilhosa e fantástica mãe. Ela deu-te tudo, tudo mesmo, para que pudesses ficar cá, junto ao pai e aos avós. Ela foi mãe mesmo quando já não o conseguia ser. Foi um amor desinteressado, verdadeiro, incondicional.

Bem sei que as vossas conversas foram interrompidas, que a relação especial que a mãe tem com o filho acabou naquele dia, no que tu nasceste, mas a comunicação fez-se de outro modo, mais forte, mais sólido, mais peculiar. E ouviste a mãe, porque estás aí, a lutar para continuar no aconchego do teu lar.

Por isso nunca te esqueças como as mulheres são fortes, como sabem ultrapassar os obstáculos, como lutam com todas a armas que têm e com aquelas que lhes dão para continuar. A tua mãe nunca deixou de te amar, de te cuidar, de se preocupar.

O pai vai ter um papel complicado, ser os dois num só, mas tantas mulheres têm essa tarefa e conseguem levá-la até ao fim. O teu pai vai conseguir, porque o amor move montanhas e tu já és tão amado! E o vosso elo será tão fantástico e tão grandioso que nada o poderá cortar.

Não conheci a tua mãe e eu sou uma simples anónima, mas sinto-me próxima dela, da sua garra, da sua vontade indómita que, mesmo nas circunstâncias tão adversas, conseguiu levar a sua tarefa até ao fim. Admiro-a muito. Deves ficar orgulhoso dela, Lourenço.

Só te quero desejar as maiores felicidades, que o futuro seja risonho e que consigas viver a tua vida de maneira resolvida, sem traumas nem arrependimentos. Nada é fácil e ultrapassar dificuldades molda o carácter de cada um e permite encontrar soluções concretas.

Tudo de bom para ti e para os teus, meu querido.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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1 thought on “Querido Lourenço”

  1. Sabes Margarida, a mãe do Lourenço nasceu no mesmo ano que eu, tinhamos o mesmo cancro (por estar grávida do Lourenço recusou a medicação ) e morreu no dia em que fazia 2 anos em que eu fui operada. Também fui operada num pós parto…
    É incrível tanta coincidência. Eu tive foi mais sorte que ela…

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