Economia

Quem quer ser a maior economia mundial?

O continente americano, os Estados Unidos da América, a terra de oportunidades infinitas (de outrora?), representou (representará, ainda?), diacronicamente, o ideal de Novo Mundo, de esperanças e crenças, de sonhos, porventura quimeras, mas também de trabalho, crescimento e conforto. Sim, as questões em parêntesis têm de lá estar – superpotências levantaram-se, nos últimos anos, e os Estados Unidos já estiveram menos na corda bamba.

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PIB mundial em 2012

A opinião é unânime na comunidade dos especialistas em relações internacionais – não há uma resposta exacta, ou simples acerca do fim da hegemonia ocidental. Existem argumentos e contra-argumentos que se debatem para a plausibilidade dessa questão se pôr e pouco mais que isso. Tito Vigevani, doutorado em História, pela Universidade de São Paulo, pensa que ‘‘um possível declínio da hegemonia americana é uma discussão que consome o pensamento universal há pelo menos cinquenta anos. Não se pode dizer com certeza que há uma decadência, mas indícios de problemas (…) como o facto de que, em 1945, a economia dos Estados Unidos representava aproximadamente 40% da mundial e hoje caiu para menos de 20%”.

Não deixa de ser verdade que os Estados Unidos ainda são a maior economia mundial, porém, se se olhar para o pódio, sobressai uma dupla temível, representação do poderio asiático – China e Japão –, transfigurando, de certa forma, o epicentro económico. A China que, considerando o PIB – produto interno bruto –, é a 2ª maior economia mundial passou os últimos anos a redefinir, a título de exemplo, as suas forças armadas. Numa aliança militar com a Rússia, a China tem-se assumido como uma das maiores forças a este nível no Mundo, o que por si só constitui uma alfinetada no estatuto norte-americano. Este aspecto foi notícia após a divulgação de um estudo levado a cabo pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, que abordava não só a dimensão dos exércitos, como também a proliferação nuclear, ou a vertente financeira. Noutro plano, a economia chinesa foi a que mais cresceu, olhando para os últimos 25 anos, destacando-se a redução acentuada da pobreza e a postura que o país adoptou perante o mundo, abandonando, há três décadas, um sistema de base soviética, obsoleto e fechado ao comércio internacional, representando, actualmente, uma forte economia de mercado e um papel fundamental para a economia global.

O Japão, por seu turno, com a sua economia focada, sobretudo, no comércio e na indústria – ainda que em menor percentagem que os chineses -, tem como fortaleza um sistema bancário seguro e bastante consolidado. Com um mercado interno assaz desenvolvido, os japoneses possuem igualmente um enorme poder de compra, gerando riqueza, para a qual contribuirá também a enorme capacidade de exportação dos seus produtos industrializados.

Barack Obama, com motivos para estar preocupado, segundo Mahbubani
Barack Obama, com motivos para estar preocupado, segundo Mahbubani

Kishore Mahbubani, notável académico singapurense e antiga figura do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Singapura por mais de trinta anos, tem vindo a defender, tendo por base análises económicas, que o monopólio americano está a perder força, principalmente, para as duas grandes forças asiáticas. Aquando da reeleição de Barack Obama, no mês passado, Mahbubani referiu que esse bem podia ser o dia mais feliz da sua vida… mas também o mais infeliz.  Se, por um lado, Obama acabara de se lançar no segundo mandato, derrotando Mitt Romney, por outro, é exactamente o período desse segundo mandato que se poderá tornar uma das maiores pedras no sapato de toda a história da economia norte-americana.

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Wen Jiabao, primeiro-ministro chinês

Ora,  Mahbubani chega mesmo a apontar o monopólio americano como uma pseudo-hegemonia ocidental, na qual grande parte da sociedade acredita cegamente, algo que considera uma aberração. ‘‘Não faz mais sentido acreditar nisso. Eu sei que a posição que defendo causará atrito e leva as pessoas a saírem da sua zona de conforto, mas a verdade é que eu só tento abrir os olhos das pessoas, mostrando-lhes que este século será o ponto de mudança e que tudo será muito diferente. Os Estados Unidos, em breve, deixarão de ser a maior potência, se é que já não deixaram de ser’’.

Na verdade, prevê-se que, já em 2016, a China detenha a principal economia do mundo, relegando os Estados Unidos para o segundo posto. ‘‘É um desafio prometer a criação de empregos e ter como bandeiras a globalização e ser de raça negra, mas Barack Obama será o nome que constará na cabeça de todos, quando se consumar a China como número um, e, claramente, os Estados Unidos não estão preparados para serem o número dois’’.

A posição da União Europeia neste filme, que até parece comprado na loja dos 300, é a da quase indiferença. Convenhamos, a União Europeia, ou a Europa, melhor dizendo, não requererá protagonismo em filmes alheios – tem a nada fácil tarefa de se livrar da crise há muito instalada em alguns dos seus estados-membros e que vem corroendo estratos sociais, de forma crescente, a ponto de esse ser o seu verdadeiro imbróglio. Crise, essa, que também não é estranha aos Estados Unidos da América e que ainda não foi debelada. De tal forma que desimpede a China e também o Japão de continuar a sua perseguição ao estatuto de maior força planetária, economicamente. Isto, perante uma América que ainda se reergue da grande recessão, que veio a desencadear toda a crise sentida também sobretudo na Europa e que começou a partir da queda do gigante banco de investimento Lehman Brothers, em 2006, à qual se seguiram outras importantes insolvências, como, a título de exemplo, a da seguradora AIG.

Cristina Pecequilo, especialista em Ciência Política e Relações Internacionais, confirma a tese advogada por Mahbubani, mas, por sua vez, diz que ‘‘um declínio efectivo não acontecerá brevemente’’. O estatuto dos Estados Unidos, aos olhos do mundo, ficou, para lá das questões económicas, afectado igualmente pela sua postura nas invasões ao Iraque e ao Afeganistão. Para Cristina Pecequilo, fora a relação dos Estados Unidos com outros países e a crise em si, as exportações ‘‘trabalham sobre uma base antiga, que sofre de gravíssimos problemas de produtividade, algo que não acontece com os gigantes asiáticos’’. Ainda assim, a moeda ainda é o maior trunfo da economia, claro está, e, nesse campo, o detentor do dólar ainda é a nação que domina o mundo, em crise ou não, e, à entrada para 2013, há certamente curiosidade para seguir a par e passo o que acontecerá por terras do tio Sam.

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Vítor Teixeira

Gosta de letras e do que se pode fazer com as mesmas. Interessa-se por compreender e comunicar tudo o que se passa à sua volta, exactamente um género de repórter-sombra, solto, por aí.

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