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Crónicas

Queijo e presunto, por favor

Escrevo o que amo, amo o que escrevo. Foi o que me surgiu, quando um dia os fitava.

“Um pires com um queijo, presunto e pão por favor”. É sempre, mas sempre a primeira frase que ouvimos vindo do Júlio, o homem galinha, para os mais próximos, ou melhor os que o chulão até ao tutano, quando vamos jantar fora.

Mas não pensem que em ambientes caseiros o padrão se altera. Deem queijo e terão pano para mangas.

Perguntaram porquê Júlio. Não faria sentido outro nome senão de um velho pachorrento, sentado numa esquina à sombra a fumar o seu cachimbo. Homem galinha, por contraste com o facto de o mundo estar a desabar e ele nem um pio dar.

Às vezes custa. Irrita e perturba tanto. Na maioria das vezes, implica que repita tudo para me certificar que foi compreendido.

Há uma fuga constante para o “Monte 5” ou para a “Margem do rio Piedra”, que continua a dizer que não é o seu preferido.

Não se iludam, eu continuo sem saber um terço das piadolas que são ditas em comunhão familiar. A única que nunca me saí da memória é: “O que é que é igual, que…” também não vou concluir aqui. “Não há necessidade disto, Patrícia”.

Confia em mim com os olhos serrados, colados com super-cola, excepto quando lhe ligo cansada da comida de hotel. Onde é que se viu?

“Só quero que arranjes alguém que te ame tanto quanto o teu pai gosta de mim”, de facto será um longo caminho. O amor de uma vida e a vida num amor, só acontece uma vez. Porém, continuo fortíssima face ao facto de mesmo já não sendo atual, ele chegar de asa de grilo, tal como fizeste para satisfazer as vontades da rã.

Não sei se esta saiu bem, mas achei oportuno e posso. “Porque nunca te esqueças que as pessoas não são nem tão boas nem tão más como nós as pintamos”. Mas rã é o equilíbrio na corda bamba como tu tanto gostas.

Sim, é verdade, eu não sou tão ponderada, emotiva e calma como tu. Herdei as mãos de pianista, as unhas finas e redondas e possivelmente as orelhas de ti.

Sabes que sou uma pintura muito uniforme do óvulo que escolheste. Mas mesmo assim tenho a tua voz a ecoar na minha cabeça, quando estou numa situação caricata. O meu pai iria rir se e possivelmente não responderia, porque não vale a pena chatear-se.

Tento, juro que tento acompanhar o teu ritmo. Mas nem sempre é fácil. Despachas-te como um atleta de alta competição, compras caixas e caixas de bolachas, porque calorias é só um número e já viste os filmes todos vintage.

Sei que é amor, quando aceitas ir comigo às minhas “localidades” e dizes com orgulho que só não me torno vegetariana, porque há uma coisa que amo no mundo e não prescindo: leitão.

Sei que não é fácil nas 12h, porque nas outras 12h estou a dormir ou fora de casa, viver comigo. Demasiado paranoica, louca e stressada. Demasiado a mãe. Mas a minha missão é dar um bocadinho de oxigénio a esses pulmões que já estão pretos. Desculpa lá, mas tinha de pôr aqui esta. Pela tua riquinha saúde, deixa o tabaco e levo-te no cruzeiro que tanto queres.

Um dia disseram-me que a diferença entre os amigos e a família é que em ambos conheces as virtudes e defeitos, mas só nos primeiros és livre de os abandonar, se não te identificares. Eu juro que já pensei que não me identificava, demasiados pontos díspares, mas, lá está, pouca reflexão conduz a um raciocínio falacioso.

Não há ninguém no mundo que equilibre tanto o meu mau feitio e que se pareça tanto comigo como tu e o Ildo. Sim, aqui em casa cada um tem um nickname. Patrícia, Afonso, Ana e Paulo não tem tanta piada como Preciosa, Ildefonso Godofredo, Teresinha Zarolha e Júlio, o Homem Galinha.

Ficaram a saber esta e um facto importante: estamos agrupados por iniciais. Voltem lá a ler. Confiram. E apesar do meu primeiro grande Amor ter sido a Teresinha, a Partilha é feita contigo.

Obrigada vida por fazeres com que o nosso caminho fizesse sentido. Porque me mostrares que temos para além da mesma inicial o mesmo coração esculpido de diferente material.

Estou eternamente agradecida pelo queijo, chouriços e copos de sangria que deixaram de ser melancólicos e se tornaram em malas de viagem partidas.

Aos fins-de-semana de filha única, ao zahir que me dás sempre antes de um momento importante e à tua cabeça que se molda à minha e viceversa, um brinde.

Porque hoje não fazes anos, não é dia do pai, mesmo sendo todos os dias, porque só saiu de casa aos 38, porque hoje percebo que, se todas as crianças tivessem um pai mesmo calado como tu, seriam mesmo felizes. Tal como eu.

Prometo que não te faço esperar muito, só meia hora de cada vez. E que nunca faltará “fromage” e conversas em silêncio.

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