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Que personagem queres ser quando fores grande?

Um monte de lã vermelha, um fio azul e duas canetas fazem parte da brincadeira que mais memórias de diversão acarretam para mim. Num mundo de imaginação, a lã vermelha era um coração, o fio azul algo que provocava uma doença e as canetas passavam por pinças e bisturis. Eu, médica experiente, deveria remover com muito cuidado aquele fio azul, sem quebrar a teia vermelha. Num misto de jogo do Mikado improvisado e drama fingido, eu era uma Meredith Grey à portuguesa. Quanto à agitação vivida no hospital projectado pela mente, essa atingia os níveis de stress da série “Serviço de Urgência”.

Meredith Grey

Segundo o ecrã, ser médico não era fácil, mas era incrível. E eu queria ser incrível, mesmo sem querer ser médica. O que a televisão me vendia (e que eu comprava sem pestanejar) era a ideia de um ritmo pelo qual valeria a pena viver.

Com o passar de temporadas, muito pouco das características essenciais das séries se alterou. Contudo, a minha perceção sobre o cenário ficcional que queria transformar em autêntico sofreu a força da realidade. Vi a minha irmã a começar a estudar medicina. Vi o verdadeiro “Grey’s Anatomy”, numa estante entre tantos outros livros grandes. E nunca mais vi séries sobre saúde da mesma forma. Porque elas não contam o que é preciso estudar até se poder viver àquele ritmo alucinante.

Alunos da Universidade Rutgers, na Nova Jérsia, investigaram a forma como as séries televisivas retratam certas profissões. O estudo concluiu que os programas fazem um bom trabalho ao tratar das responsabilidades intrínsecas à profissão, mas que pecam pela falta de informação sobre a construção de uma carreira.

Nas séries televisivas, temos acesso à narrativa das profissões em media res. O processo vai a meio e, a partir dali, só há progressão na hierarquia. Por outro lado, o contexto em que as funções profissionais são desempenhadas é bem regado de romantismo. É o que cria o ritmo aliciante, de que falava há pouco.

“Serviço de Urgência”

Somado a estes factos, estão os dados que dizem que 39% dos millennials britânicos sentem que foram influenciados por programas de televisão, nas opções de carreira. O estudo da Fletchers Solicitors mostra que 17% considerou adquirir novas qualificações graças às suas personagens favoritas.

Enquanto estudava jornalismo, assisti à série “Newsroom“. O que encontrei foi um reforço das motivações que me levaram a escolher esse percurso académico, a par do fervilhar do interesse por trabalhar como produtora. Afinal de contas, era a personagem MacKenzie McHale, a produtora executiva do departamento noticioso, quem tinha o ritmo de vida mais interessante.

MacKenzie McHale

O ritmo. Sempre o ritmo. A visão romantizada de ter um objetivo claro em acordar. A ideia de que o sonho é ter um trabalho que não nos importamos de levar connosco para casa. A frase feita de que, quando se faz aquilo de que se gosta, não se sente que se trabalha. Todas estas quimeras são alimentadas pela ficção.

Porém, com o foco no lado racional que há em nós, sabemos que, mesmo desempenhando a profissão dos nossos sonhos, sentiremos a carga nem sempre saudável da responsabilidade.

Cumprir o desejo da profissão até pode amenizar o peso do dever, mas o ritmo nunca será igual ao do ecrã. Esse serve para alimentar as brincadeiras de criança. Serve, sobretudo, para fazer um contraponto com o cenário real, que nos vai decepcionando aqui e acolá. E com o qual aprendemos a lidar com autenticidade.

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Florbela Caetano

Gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Gosto de pensar que os dois nos podem ajudar a viver num mundo melhor. Gosto de sentir que informar pode repor a serenidade no meio de caos. Deixo-me fascinar com a imagem e perco-me na escrita. Entre todas as alianças de universos ao nosso dispor, quero dizer as palavras e criar imagens com o som.

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