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Quatro Anos

Há quatro anos, quando o Repórter Sombra nasceu, o mundo vivia numa crise que, nesses anos, obrigou-nos a começar a rever muitos dos conceitos que, até lá estavam perfeitamente ajustados e correctos. Construímos um mundo que funcionava, colocámo-lo dentro de uma caixinha e esperámos que tudo se mantivesse intacto para o resto dos tempos. Tremendo engano, e pouco foi preciso para o demonstrar.

O primeiro artigo que escrevi, que também foi o artigo de estreia do Repórter, “Esquerda e Direita: uma realidade desfasada?”, parece-me hoje tão actual como no momento em que o escrevi, defendendo-o, ainda, a 100%. Na verdade, os últimos anos têm reforçado a crença que nesse artigo defendi, expandindo-a hoje para lá do mundo político, até todos os cantos da nossa realidade, a de que vivemos num mundo extremado, excessivamente polarizado, algo que tem sido ainda mais visível nestes últimos tempos.

Um dos principais pilares da ideia que criou o Repórter Sombra foi, precisamente, fugir dos extremos, trazendo não as notícias, não um jornalismo convencional, hoje cada vez mais maltratado pela vivência excessivamente comercial, mas sim ideias, pontos de vista, pensamentos, filosofia, material para pensar, para ganhar consciência, para não sermos apenas mais um carneiro no meio do rebanho, mas sim para nos erguermos da massificação da estupidez e direccionarmos o nosso olhar ao sol, à luz.

Quando vivemos nos extremos, temos uma visão muito reduzida da realidade, vemos apenas o que está mais visível, aquilo que outros querem que nós vejamos, dificilmente vendo o âmago das questões, a sua verdadeira natureza. Tal torna-se mais complexo quando a realidade que nos é apresentada traz até nós um problema que pede uma solução. No extremo apenas vemos uma parcela do todo, não há uma construção de uma solução, há apenas uma forma de tratar o assunto. Apenas quando nos permitimos sair do extremo e caminhar à volta, observar o outro lado, dirigindo-nos para o centro, construímos algo sólido, não uma suposta solução que, mais tarde, revela-se um ídolo de pés de barro.

Um mundo polarizado, de extremos, como o que vivemos, é um mundo de preto e branco, de certezas absolutas, de pouco diálogo e muitos egos, o que, invariavelmente, leva à violência, à intolerância, à restrição, à separação, o que, no fundo, reflecte o que hoje, fundamentalmente, existe. Num mundo polarizado é quem queira poder e quem tenha de alimentar esse mesmo poder, e quem tem o poder tem medo de o perder, tendo, então, de usar todas as artimanhas, ilusões e técnicas possíveis para continuar a ter o alimento que tanto necessita. O medo, sem dúvida, é a melhor forma de o fazerem, a educação e a informação é a melhor forma de o combater.

Parece um pouco revolucionário, e talvez até seja, mas a verdade é que basta pensarmos um pouco, de forma séria e não extremada, para percebermos que essa é a fórmula mais antiga usada no mundo, desde o início da humanidade, e que se mantém tão actual hoje como nessa altura. Não sou defensor de teorias da conspiração, não acredito em maior parte delas, mas sei que nada na vida existe por acaso e que tudo é como uma semente que é plantada e que, mais tarde, irá romper a terra, nascer, crescer, dar flores e frutos, o que me leva a ter a consciência de que este mundo extremado é reflexo de quem nós, humanos, somos hoje, divididos em pólos, manipulados ao longo de gerações, formatados através de crenças, de convicções e conceitos morais.

Uma parte da solução, creio, estará naquilo que, no Repórter Sombra, defendemos ao longo destes anos e que, acredito, iremos defender durante muitos mais, esclarecimento, questionamento, pensamento, sentimento, percepção, intuição e tudo o que a isto está associado, resumido no simples facto de sermos humanos. Sabemos que quatro anos é o tempo que o nosso ego necessita para se construir e a identidade se definir. Durante os primeiros quatro anos de vida, recebemos o cuidado dos nossos progenitores (idealmente, claro), somos dependentes, mas vamos crescendo, aprendendo mais sobre quem somos e sobre o mundo que nos rodeia, ganhamos voz, formamos as bases do nosso pensamento e da nossa identidade, construímos os pilares do ser que somos. Isto aplica-se a uma criança que um dia se tornará adulto, a uma empresa, a um projecto, a tudo o que está ligado à existência humana e também ao Repórter Sombra. Quatro anos terrenos passaram-se e agora é tempo de continuarmos a crescer, levantando paredes sobre os pilares construídos, com maior solidez e determinação, mas sempre com a certeza de sermos, apenas e unicamente, fiéis a nós mesmos.

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d'Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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