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ContosCultura

Quase a tempo

A última carta da mãe tinha chegado depois do funeral:

“O anoitecer de Lisboa sempre me deixou com vontade de chorar. Tenho saudades.”

Não especificava se as saudades eram dela ou da cidade. Ou de chorar.

Olhava as letras azuis no papel branco e conseguia sentir o toque do vazio que rodeara sempre a mãe, a melancolia que parecia ser uma extensão de cada movimento dela. Só quando fumava é que os olhos se fechavam de alívio e ficava com um sorriso tão triste que parecia quase cruel. Há anos que tudo isso tinha desaparecido da vida dela – o vazio da mãe, a melancolia da mãe, o sorriso da mãe. A mãe. Mas agora era definitivo e de repente esses pedaços pareciam moer tanto e ser tão imensos que absorviam a vida e se tornavam tudo o que importava.

Quantos pedaços do que fomos vão desaparecendo do mundo a cada segundo, deixando últimas testemunhas cheias de memórias impossíveis de partilhar. Até que se perdem. Até que passa a ser como se nunca tivessem existido.

A mãe vivera em auto-exílio, quiçá para se esconder de si própria. Um dia vestira um casaco por cima do avental e saíra para pedir sal a uma vizinha. Tinha as mãos molhadas e chinelos coçados. Oito meses mais tarde chegaria a primeira carta para a filha: “Gostava de ter tocado nos teus pensamentos. Via-os a bailar pela casa quando tu me olhavas.” Não havia morada para resposta. Ela aprendera a amar assim: sem reciprocidade – que coisa inútil! Perdera a mãe ausente, mas ganhara o direito de conhecer o seu espírito. Bastava-lhe. Por isso nunca a procurara. Por isso nunca mudara de casa.

Agora a mãe estava morta e ela dava voltas à carta como quem questiona a vida. No envelope a morada do remetente.

O que significaria aquela morada? Que quereria a mãe dizer com aquilo? E de que lhe servia agora? Uma casa para onde a mãe nunca mais voltaria; roupas e uma cama e mesas e livros e loiças e cinzeiros e coisas que ela nem conhecia. Tanto que fica depois da morte. E mesmo assim tão pouco.

Não soube que, depois de enviar aquela carta, a mãe tinha decidido retornar à capital:

Devolvera a casa alugada, oferecera as roupas, queimara os rascunhos de possíveis livros (tinha pavor de palavras que se arrastavam sem futuro).

Dormira durante toda a viagem de comboio (imaginou-a em sonhos e soube vê-la melhor).

Sentara-se no primeiro jardim perto da estação dos comboios (tantos anos sem aquela luz, aquele cheiro, aquele falso silêncio).

Tirara um cigarro. E enquanto fumava – olhos fechados, expressão de alívio, um sorriso quase cruel –, tivera um ataque cardíaco.

Quase a tempo de ver Lisboa a anoitecer. Quase a tempo de chorar.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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