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Quando te vi na janela

A cadeira baloiçava virada para a janela. No escuro parecia vazia, sinistra, perigosa. Chiava como quem se queixava. Sentado na cadeira e indiferente às comparações, ele olhava para o nada que estava para lá daquela janela. Gostava da noite, de se envolver na escuridão do silêncio e fazer parte do que não se vê nem se sabe – do que não existe. Precisava de não existir por alguns momentos. Reparou numa luz que se acendeu no prédio em frente. Ele apoiou um pé no chão de madeira e a cadeira parou o seu ruído perturbador. Era tarde e ele estranhou aquela luz. Tinha-se imaginado num bairro adormecido. Gostava de viver na dormência alheia, a sua realidade parecia mais nítida quando os outros sonhavam.

E depois percebeu: aquela luz naquela janela. Não podia ser.

Uma silhueta preta surgiu atrás da cortina cor-de-laranja. Ele susteve a respiração. Não sabia dizer se era ela, se era mesmo ela. Lembrou-se de sombras chinesas, ilusões e enganos. De magias. Fitava aquela sombra viva, que se mexia com gestos que ele não conhecia e que o atraíam. Não era ela, não podia ser. A silhueta andava de um lado para o outro, às vezes tocando no cabelo, às vezes esticando os braços aos céus. Penteava-se? Rezava? Não sabia dizer. Sentiu um arrepio de prazer – era incrível observar a vida de quem se crê seguro e escondido. A curiosidade na pele do observador. Como é que podia ser ela? Quem seria, no lugar dela? Não conseguia deixar de olhar.

A silhueta desapareceu e segundos depois a luz amarela apagou-se. O quarto tinha adormecido. Agora aquela janela misturava-se com todas as outras iguais, nada de excitante, nada de único. O mundo – o bairro – voltava ao silêncio e ao escuro. O corpo dele relaxou e a cadeira voltou a baloiçar, a chiar os seus queixumes. Talvez a luz só fosse magia. Talvez a silhueta só fossem fantasmas. Esforçava-se por se sentir consolado com aquela volta à normalidade. Esforçava-se com força. Mas os dedos tremiam. A curiosidade era uma comichão. Primeiro leve, na pele dos braços, patinhas de bichinhos invisíveis. Não quis prestar atenção, de tão absorto que estava naquela escuridão, seguro daquela impossibilidade. Sem querer trauteava um som qualquer inventado, baixinho e impossível. Uma música de bebé. Precisava da calma, da distracção. Nervos – a curiosidade não se tinha deixado vencer ao ser ignorada. Não se tinha afastado com a rejeição. Ele sentia-a na nuca, um cafuné de uns dedos largos e confiantes que lhe tocavam no cabelo carinhosamente, sedutoramente, até ele sentir que a comichão estava dentro da nunca, onde ele não conseguia chegar com os dedos e aliviar-se, expulsá-la. Os dedos dela, só podiam ser os dedos dela.

Saltou da cadeira e sacudiu o cabelo. Andou às voltas no quarto, enxotando as mãos dela. Não queria que ela o tocasse. Olhou à volta: o quarto estava vazio. Ela não estava lá. Ele só sacudia o ar e o medo. Em cima da cama, mesmo ao lado do telemóvel partido, o cinzeiro com cigarros estava cheio. Um deles, um moribundo retorcido e mal apagado, agarrava-se à vida com um fio ténue de fumo. O cheio tóxico corrompia o ar. A cadeira baloiçava sozinha, assustada pelo salto dele. Ele mordia o lábio e andava desesperadamente de um lado para o outro do quarto, com urgência. A curiosidade e a ansiedade descontroladas. A paranóia. Os dedos das mãos mexiam-se ao mesmo ritmo dos pensamentos, um ritmo impossível e incontrolável. Não fez caso das farpas de madeira que lhe feriam os dedos dos pés. Olhava para a janela agora apagada. Como era possível?

O edredão florido estava no chão, embrulhado entre os lençóis sujos, castanhos e vermelhos. Sangue podre. Se alguém entrasse, perceberia que aquele quarto gritava uma tragédia. Mas ninguém entrava. Ele era sozinho. E para ele não era loucura, era só desgosto. Porque a tinha ganho mas ela não estava lá. Porque a tinha conseguido proteger, mas ela desaparecera. Algures lá fora, uma porta fechou-se. Ele ouvia os passos no corredor, portas a abrir e a fechar, vigilância. Talvez ela tivesse voltado, arrependida do seu arrependimento. Tinha reconsiderado, tinha compreendido o medo dele. Ia abrir a porta para a receber quando se lembrou. Lembrou-se que ela estava escondida. Claro que estava escondida! Ele disse-lhe para se abrigar, que não fizesse um barulho sequer, que ele ia protegê-la. Pôs-se de joelhos e olhou para debaixo da cama. Lá estava ela, escondida e protegida como combinado. Intacta. Sorriu-lhe. Tocou-lhe nos cabelos empastados de sangue. Ela não devolveu o olhar morto.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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