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ContosCultura

Quando quiseres andar

Já estás iludida de novo.

De férias numa pequena aldeia italiana, entre o vinho e as azeitonas, voltas à ingenuidade de que não te consegues despir e sussurras-me:

“Quero ficar aqui para sempre. As pessoas aqui parecem decentes, parecem amigas. Não julgam, são livres. Deixam-nos espaço para serem quem somos, não nos obrigam às suas verdades. Quase que nem nos olham, só nos sorriem. Sim, aqui as pessoas são decentes, amigas, justas.”

Como te magoas à toa, minha menina, com essas ilusões que crias. Tens medo de ser uma pessoa pequenina e inventas grandiosidade quando escolhes dar demais de ti, quando desesperas ao esperar demais dos outros. A culpa é só tua. Não esperes demais, permite-te espaço e dá-lhes tu esse espaço para serem como são, esse espaço que também precisas e que reclamas. Talvez assim possas conhecê-los e possas conhecer-te. Talvez assim deixes de sentir essa necessidade de abrir todos os teus cofres cheios de segredos às pessoas que te parecem amigas, que se juntam às tuas lutas, sem te precaveres de que podem ser só afinidades momentâneas. Não te quero magoar e lembro-te gentilmente:

“Há pessoas decentes em todo o lado. E pessoas difíceis também.”

Olhas para mim, serena, com o descanso nos olhos. Sorris. Com o teu olhar e o teu sorriso deixas-me perceber que concordas. Ou que entendes. Pelo menos, teoricamente.

Bebes um gole de vinho e fechas os olhos. Deixas-te estar no silêncio do sol.

Bebo eu também. Preocupa-me a tua inocência. Quero trazer-te para a realidade degrau a degrau, dar-te a mão para te ajudar a descer. Quero-te positiva, com amor e esperança, mas longe dessas ilusões que tantas vezes te magoaram e com as quais não aprendes. Sinto o medo de não haver um sem o outro. O silêncio não me deixa pensar bem. Ou deixa-me pensar demais. Tenho medo de não haver positivismo sem ilusão, sonhos sem mágoas. Como se ou fosses tudo ou não fosses nada. Não entendo este desejo de querer salvar-te.

Mas talvez não seja o meu lugar. Não podemos salvar todos aqueles a quem amamos. O percurso de vida, mesmo acompanhado, é solitário. Como a morte. Cabe a cada um saber de si. O único que posso fazer é dar-te a mão e acompanhar-te para te sentires menos sozinha enquanto fazes o teu caminho; é empurrar-te ou puxares-me quando a estrada se torna difícil, mas as pernas serão sempre só nossas.

Penso demais. Estou a pensar demais, e não devia. Estamos de férias. Acabo o copo de vinho. Olhas de relance e voltas a fechar os olhos e a virar a cara para o sol.

“Precisamos de mais vinho” dizes.

Oiço as tuas palavras arrastadas e fico confortado. Dou-te a mão e fecho os olhos também. Sinto que me apertas com força, com compreensão. Quando quiseres andar, aqui estarei.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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