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Quando é a Honra que está em jogo

“Os meus filhos não passarão fome”. Uma frase simples, dura e crua. Um cartaz de alguém em mais uma manifestação. Desde 2011 que não são apenas os professores a saírem para a rua. Agora é um país inteiro. Que o diga o ano de 2013. Se analisarmos bem, não foram casos tremendos como o do BPN que nos levaram a deixar para trás o confortável sofá de casa, foi a nossa Honra.

Nos livros dos nossos filhos constarão imagens como a de cima. Imagens como as que vimos na Televisão na noite de 21 de Novembro, em que milhares de polícias invadiram a escadaria da Assembleia da República. Nas faixas, liam-se frases como “Pela dignificação profissional, em prol da segurança dos cidadãos”, em certas camisolas “Respeitem as forças de segurança”, ou ainda “Merecemos respeito”.

Não sei se Kwame Anthony Appiah, um dos grandes filósofos moralistas actuais, tem estado atento às movimentações no nosso país, mas, certamente, diria que tudo o que se está a passar é uma questão de Honra. A mesma Honra que levou a que, no dia 25 de Abril de 1974, os militares se revoltassem. Foram 41 anos submersos numa Europa agitada, que deixou de ver com bons olhos a política colonial do Estado Novo. Salazar lá respondia, “virando as costas ao Mundo. Orgulhosamente sós”.

Contudo, seria provavelmente a mesma vergonha que Appiah detectou no abandono de um costume milenar na China que tornou possível o “Dia da Liberdade”. Durante séculos, as meninas chinesas tinham por hábito atar os pés de modo a não crescerem muito e se assemelharem a uma flor de lótus, chegando uma mulher adulta a medir 7,5 cm, e de um momento para o outro, num curto espaço de tempo, em 20 anos, desapareceu por completo do mapa. Pensa-se que evidências ligadas à Honra, como o simples facto de outros países repudiarem esta prática, tenha levado ao abandono da tradição.

Segundo Appiah “ao narrar casos de revoluções morais na História e de tradições locais, em que até hoje o crime de Honra é comum, o apelo à razão, à religião, ou à moralidade não é suficiente para causar uma mudança de facto na sociedade. Essas práticas – imorais e desumanas – perpetradas contra homens e mulheres só são erradicadas, quando entram em conflito com a Honra”.

Voltando à manifestação dos polícias, terá também sido neste caso a Honra o real motivo? Paulo Rodrigues, secretário-nacional da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), em declarações à Lusa, afirmou que a adesão estava relacionada com a grande desmotivação existente entre os profissionais. Depoimentos como o de Armando Silva, polícia há 26 anos, em que diz se sentir defraudado, porque lhe foi prometido um percurso diferente – “ Como posso defender os outros, quando atacam severamente o meu agregado familiar?” –, e de Pedro Oliveira, presidente do Sindicato Nacional das Polícias Municipais – “Isto é uma polícia low cost. Cada profissional recebe em média 700 euros por mês” – provam que face às medidas anunciadas para 2014 só lhes resta a dignidade.

“Quando falamos em Honra estamos a falar do direito ao respeito e isso definitivamente não saiu de moda, faz parte do nosso vocabulário moderno. Também está claro que a Honra guia as pessoas”, diz Appiah. Certo, é que a continuar assim o Governo de Passos Coelho pode ter a certeza que mais manifestações se avizinham para o próximo ano, porque já não há mais nada a perder, a não ser a Honra.

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Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

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