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Quando Deus fecha os olhos

Final de tarde de uma quinta-feira mais ordinária do que todas as que recentemente tenho conhecido. Estou sentado no sofá e sou subitamente surpreendido por uma sms enviada à minha Ana. Trabalhamos em informação, em comunicação, em televisão e reagimos com especial atenção à violência daquilo que pudemos ver nesse final de tarde da tal quinta-feira mais ordinária do que as recentes.

Os norte-americanos são rápidos, têm braços maiores do que os nossos, chegam mais longe e mais rápido. Sacanas! Parece que conseguem saber tudo em primeiro lugar. Os europeus são mais antigos, mas nem por isso são mais amigos.

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A Ucrânia vive (se é que se pode chamar vida àquilo que por lá se passa) um clima de total atabalhoamento e de anarquia quase pura, fruto de tudo o que são as motivações e os apoios e os interesses, sempre tão humanos e dignos dessa mesma condição, que têm as pessoas envolvidas em mais uma salganhada respingada de sangue inocente e barbaramente derramado, por gente que parece… parece não ser gente sequer.

Tenho 30 anos. Já tenho idade para ter algum juízo, mas continuo a não ser capaz de perceber o que faz com que o Homem se consiga superar constantemente na corrida ao lugar de ser vivo mais estúpido à face do planeta, o único no qual conhecemos a existência de vida inteligente (ui, de uma inteligência sagaz, ao nível de uma amiba) e que tem cada vez menos disso mesmo.

Como dizia há umas poucas linhas atrás, aos 30 anos continuo incapaz de conseguir perceber o Homem, a espécie, a (des)ordenada maralha que se junta para cumprir ordens sem tão pouco as questionar. A incapacidade que os que mandam provocam em quem mais não pode fazer, se não obedecer. É isso, ou a morte. Sendo que quem se alista e se junta a toda essa vil e nojenta corja de separatistas armados sabe e sempre soube bem em que é que se está, ou estava a meter. Não entraram, com toda a certeza, num carro para ir ao café e de repente estavam sentados aos comandos de um tanque, ou a disparar rockets/mísseis e a abater os ferozes e provocadores aviões comerciais. Não. Não foi assim, com toda a certeza.

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Assim, morreram 298 pessoas, de uma assentada, num assassinato massificado (não assumido e cuidadosamente tratado com pinças, não vão Os Mercados chatear-se e tirar dinheiro em barda a quem manda) e perpetrado de uma forma tão indulgente como leviana, sem qualquer confirmação de que se trataria de um “alvo”, sem qualquer critério do que quer que seja, do que quer que fosse.

Soube-se também que, entre os que foram dizimados por estas bestas Neandertais sem piedade e sabe-se lá com o quê no sangue, estavam muitos dos principais investigadores e combatentes de um dos principais flagelos desta humanidade, o HIV/SIDA. Não que sejam perdas mais ou menos relevantes do que qualquer outra vida humana, condigna, que se esfuma, mas são perdas que se tornam assinaláveis, porque deles dependia a vida de muitos milhões de pessoas. A troco de quê? Sob que pretexto? Debaixo de que ideal, que máxima, que vontade? Nojo. Ódio. Vontade de fugir e dizer que não conheço os Homens.

É arrepiante. O mundo em que vivemos é doente. É egoísta. É tantas vezes, na sua generalidade, muito feio. Sim, bipolarizando a existência no feio e no bonito. É reles. É mau. Não consigo encontrar palavra mais primária e que melhor se adeque a tudo isto. Mau! Só e somente, com a infantilidade e com a pureza do significado que a mesma palavra transporta e com a directa implicância que o som que lhe dá sentido oferece. Porque nas palavras das crianças está a pureza dos seus pensamentos que são tão mais puros, quantos mais puros forem os inputs que lhes são fornecidos e para elas, mau, o conceito, o significado primitivo, figura sem dúvida no topo como o mais beligerante e terrível insulto que conhecem.

Bom, por esta altura talvez se perguntem já por que razão este texto tem como título “Quando Deus fecha os olhos”. A explicação é simples: Deus tem de fechar os olhos, não tem outro remédio, tem de assistir de pés e mãos atadas a tudo isto, porque até Ele já foi dominado e vergado de forma insolente por estes novos e contemporâneos Missionários da Maldade Extrema e, como tal, é impotente para travar esta miríade de atrocidades, que não se esgota e que diariamente nos remete para um olhar rotinado e até mesmo insensível sobre os acontecimentos dos tempos modernos. Esta miríade de atrocidades que nos torna insensíveis ao ponto de transformarmos centenas, milhares de mortes em números despidos de sentimento. Do sangue derramado e espalhado pelas ruas empoeiradas e maltratadas a que chamámos convenientemente de ruas do terceiro mundo, pela atrocidade com que os não sei quantos mortos e feridos foram e continuam a ser mortos e feridos, tantas vezes sem o respeito e a quietude que esses mesmos números, perdão, essas pessoas nos devem merecer, hoje menos do que ontem, amanhã seguramente um pouco mais. Ah e não nos esqueçamos da Síria (de que não se tem falado), porque a maldade, por lá, com certeza que não tem descansado.

A Deus toca, como é óbvio, fazer o Bem, o que O torna, portanto, incapaz de fazer o mal (reparem como o tento tornar menos mau sendo claramente parcial e espetando-lhe com uma minúscula), ou seja, Deus é incapaz de impedir que o mesmo se propague. Ora, logo à partida isto é concorrência absolutamente imoral e desleal, prepotente mesmo. Esta espécie de gente arranjou forma de subjugar inclusive a mais poderosa das representações em que os seus semelhantes depositam alguma da esperança que ainda lhes resta e onde vão tantas vezes buscar a força que não conhecem e a capacidade de sofrimento que não têm.

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Sim, bem sei que estamos a falar de Deus e que Ele é Omnipotente e Omnipresente e que tem o superior dom da ubiquidade e tudo o resto, mas nem Deus, nem mesmo Ele consegue dar conta disto. Logo Ele que tem tido tanto, mas tanto trabalho nos últimos séculos, está naturalmente cansado e agastado com tanta coisa que tem visto acontecer ao longo dos tempos e, como tal, já não consegue fazer nada contra esta gente. Contra esta gente que nem gente consegue ser sequer. Contra mercenários a soldo de sabe lá Ele do quê, Homens que ganham a vida a matar. A violar. A roubar. A ameaçar. A destruir. A esmagar. Homens que só vivem, porque assim tem de ser. Se estes animais forem tão extremistas como se dizem e se apregoam, se forem tão maus como dizem ser ao ponto de contarem com a ajuda do lado de lá da fronteira, com certeza que o infeliz que teve o azar de disparar o míssil já terá sido despachado com um balázio nos cornos, ou levado um enxerto de porrada que vai passar 2 meses a comer por uma palhinha, porque, em boa verdade, virou os olhos do mundo para aquela região em particular da Ucrânia e isso, por incrível que pareça, pode ser nefasto para as ambições destes… sei lá o quê. É como se de repente estivéssemos dentro de um dos episódios do Senhor dos Anéis e o Frodo tivesse enfiado novamente o anel no dedo (o caguinchas), o que desperta imediatamente a atenção, não só dos Cavaleiros do Apocalipse, eternamente ligados ao anel, mas também do Olho que tudo vê, ambos centram imediatamente a sua atenção no anel e no seu portador, neste caso a besta que disparou o míssil enquanto mastigava qualquer coisa na sua natureza abrutalhada, pensando que estava a ver um avião militar. Tal não devia ser o estado em que devia ter aquele cérebro, que já de si apresenta uma funcionalidade totalmente questionável, que nem pensou no que se iria seguir, que com toda a certeza o mundo e a sua moral tão própria das tragédias o iriam crucificar pela barbárie que perpetrou, instalado junto daquela triste e subjugada localidade do leste da Ucrânia, tão desesperadamente próxima da fronteira com a Rússia. Se não levou com um balázio nos cornos,nem um enxerto de porrada, com certeza que não terá (tido) uma morte nada meiga e não será lembrado pela sua simpatia, ou pelos seus bons feitos. Mesmo que venha alguma vez a ser entregue à propalada e sempre justa Justiça dos Homens, os tribunais, e seja condenado à morte, que espécie de justiça se fará afinal? Tira-se uma vida depois de já se terem perdido 298 e se terem esventrado outras tantas de todos os familiares e amigos que perderam os que iam lá em cima e nada fizeram para merecer tal destino? Porque, como costumo dizer, é sempre pior para quem cá fica. É esta a Justiça dos Homens.

Depois há outro grande mal no meio de tudo isto, as crianças que crescem assim, neste clima de guerra, dentro dele, sempre, constantemente. Resultado: deixam de ser crianças bem cedo, cedo demais, infelizmente. No entanto, isto não preocupa ninguém. Nem mesmo a mim, que para aqui estou a escrever cheio de moral, só me lembro de tudo isto, quando me esfregam de forma inequívoca os olhos distraídos com tudo o que se passa no meu mundo e que me consome a energia diária em dose tantas vezes mais do que devida. Nestas situações, tantas vezes me lembro de Deus e Ele parece estar sempre de olhos fechados, talvez tenha mesmo sido vendado e esteja a ser alvo de chantagem. A criação vira-se contra O Criador. Credo. O que é isto? Que estou eu para aqui a dizer? Como é difícil acreditar que a televisão nos mostra coisas que estão a acontecer de verdade, crianças a morrer despedaçadas, aviões a serem abatidos por dá cá aquela palha, fome, guerra atrás de guerra, sangue que jorra das artérias que se rompem no coração do planeta que parece também ele farto e são manifestações, desemprego, revolta, pobreza a contrastar com a extravagância invejada de quem tem tudo, roubo, engano, mentira, violência… Chega! Já não basta? Em que foi que nos tornámos? Que é isto que somos afinal? Ele, coitado, de olhos fechados sem conseguir ver o que se passa. Agora é o BES a cair em desgraça e Deus, amarrado, vendado, saqueado de grande parte das suas capacidades, pergunta-nos: “O que querem que eu faça? Não posso passar a vida a salvar-vos da desgraça em que grande parte de vocês se tornou. Até o meu filho vocês mataram. São de longe o animal mais ingrato que alguma vez criei. Se o arrependimento pagasse imposto…

A conclusão é a de que de facto, na grande maioria das vezes, não merecemos o ar que respiramos, como espécie e não como individualidades. A grande maioria de nós não é assim. Não somos todos assassinos, tiranos, bárbaros sem alma, ou sensibilidade de espécie alguma, mas somos tantas e tantas vezes estúpidos, numa base diária, nas coisas mais simples e primárias. Em casa, no emprego, tantas são as vezes em que não temos, ou damos sossego. De que vale tudo isto se a vida é uma e uma só? De que serve, de que vale cercarmo-nos de imposições e regras inventadas aos trambolhões por palavras, palavrinhas e palavrões, se elas só servem para nos pintar a cara daquele cinzento-rato, triste, próprio dos dias de nevoeiro em que chove o tempo inteiro? Quero poder sair daqui. Ou criar uma startup para resolver o problema. Que dilema. Somos soldados de uma guerra que não queremos. Como diz e bem o Tiago Bettencourt nas suas palavras que vale sempre a pena ouvir: “não quero pagar por aquilo que eu não fiz”. Os miseráveis que mais não querem que não a felicidade, esses, fogem para onde? Podia de facto existir um campo de refugiados da felicidade. Quem sabe se o futuro não fará desta ideia aparentemente estúpida um projecto de salvação da realidade, mais cedo do que tarde.

Até lá, que Deus nos livre e guarde.

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Martim Mariano

Leitor convulsivo e escritor compulsivo. Propenso às fúrias do pensamento e às interpretações do sentimento. Atento por opção.

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2 thoughts on “Quando Deus fecha os olhos”

  1. Não sei se é um sono eterno ou um sono que terminará apenas quando os homens se destruírem na sua totalidade e aí sim, aí ele volta a abri-los porque vai ter muito trabalhinho para refazer tudo novamente… Obrigado pelo comentáriio

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