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ContosCultura

Quando conheci Chinaski e Bandini

Em Bunker Hill, ali bem no centro de Downtown Los Angeles, lugar tão na moda, era suposto a riqueza e a ostentação orientarem as vidas. Mas foi numa daquelas ruas, talvez na mais esquecida delas, que entrei num bar decrépito ao acaso a meio da tarde.

Sentei-me junto ao longo balcão, meio protegido na penumbra do interior e pedi uma cerveja. Ela serviu-me e perguntei-lhe o nome, era Camilla, mexicana no trato e no sorriso, socas nos pés cansados e de ancas largas e apelativas. Dei-lhe boa gorjeta e deixei-me ficar.

Na outra ponta do balcão, um homem de fundas rugas esculpidas num rosto gasto metia-se com Camilla. Com um tom de voz lento e grave, recitava em vez de falar. Ouvi-o a desafiar a mexicana para uma aposta, caso ganhasse, o próximo bourbon seria por conta da casa. “Ah Henry”, disse ela acedendo, habituada estava às cantigas deste e de outros bêbados, conhecia-os a todos. Então Henry pegou na garrafa de cerveja que tinha diante de si, deu um trago e pousou-a afastando-se uns 30 centímetros. Concentrou-se lutando contra o corpo cambaleante tocado pelo álcool. Depois, bem depois até eu fiquei impressionado, Henry cuspiu a cerveja num fio curvo e uniforme acertando no interior da garrafa sem deixar resvalar um pingo para fora. Sorriu apenas com o canto da boca enquanto Camilla lhe serviu um copo cheio do pior Bourbon que tinha disponível.

Nessa altura o sol espreitou com a porta a abrir-se. Entrou um homem alto, de fato e gravata cuidados contrastando com a espelunca onde estava. Sentou-se numa mesa e ficou a observar Camilla que optou inicialmente por o ignorar. “Vai-te embora Arturo”, disse ela depois alguns minutos. “Apenas quero um café”, respondeu ele colocando uma nota de 10 dólares em cima da mesa. Era o típico imigrante italiano tentando ser local mas traindo-se pela pronuncia italianizada que tentava em vão esconder. Pose altiva e charuto para demonstrar uma falsa riqueza que não tinha. Era um testemunho do falhanço do american dream onde a imagem importa mais do que o conteúdo.

Camilla preparou o café com algum desdém. Levou-o até à mesa de Arturo e pegou na nota. Nesse instante ele segura-a pelo pulso. “Por favor Camilla, eu amo-te!” Ela soltou-se com um gesto violento e virou-lhe as costas. Pude ver o sorriso que escondeu e aura de paixão que a iluminou por dentro. Nisto Arturo derruba a chávena e espalha o café pela mesa e pelo chão. Camilla fica furiosa levando Henry a intervir.

– És um homem podre, Arturo. O desdém com que cuidas de quem dizes amar ainda te vai levar para o lado errado deste mundo podre como tu.

– Cala-te, Chinaski. Já não suporto as tuas palavras, seu poeta de meia tijela. Eu tenho um conto publicado, sou muito mais do que alguma vez serás!

– Estás a falar d’O Cachorrinho Riu? Essa treta que a Camilla conta a todos para nos fazer rir? A literatura é uma arte que não compreendes, sabes lá tu o que um cachorro sente se nem de homens e mulheres entendes. A vida é um grito de loucura e tu um ser mudo sem voz nem vida.

– Seu alemão presunçoso, não passas de um bêbado de cabelo grisalho e barba suja. És uma nódoa de homem, nunca serás ninguém.

– Serei aquele que te vai dar uma sova ali no beco agora mesmo.

Levanta-se Henry e segue devagar pedindo licença a cada pé para mover o outro. Sai para o beco nas traseiras por uma porta ao lado da casa de banho fora de serviço. Arturo Bandino segue-o de peito cheio, cabeça erguida tentando manter-se mais alto que os insultos do rival. Camilla segue-os soltando curtos mas furiosos vocabulários em espanhol, aparentemente insultando os dois homens. Saí eu também, jamais poderia perder esta contenda.

Arturo despe o caso e dá-o a Camilla com cuidado, depois arregaça as mangas da camisa e vira-se para Chinaski. Este espera-os de punhos levantados e pernas cambaleantes. Arturo disparo o primeiro golpe mas Henry evita-o e acerta-lhe no estâmago fazendo-o dobrar-se. Arturo é mais fraco mas o adversário está bêbado e sem reflexos. O italiano espera o momento certo e dispara novo soco atingido-o em cheio rosto. Henry cai sobre os sacos de lixo despejados junto à parede das traseiras do bar e deixa-se ficar deitado a sangrar.

– Bom soco, meu cabrão, bom soco – diz.

– É para aprenderes, seu poeta de merda. – Responde o italiano rematando – Até amanhã.

– Até amanhã, Arturo Bandini. Seu italiano maricas.

Camilla atira o caso de Arturo na sua direção e volta para o bar fechando a porta com estrondo. Arturo verte o casaco e compõe a sua figura. Henry Chinaski adormece por entre os sacos de lixo. Nem se deram conta de que eu estava ali.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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