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Quando a vida acaba sem antes começar

“Eu sinto que enquanto não for Mãe, não sou boa o suficiente enquanto mulher. Eu sei, parece uma estupidez, mas é isto mesmo. Não me sinto uma mulher capaz. E não sei como será se porventura não conseguir engravidar.” Assim o diz Bárbara Ribeiro, de 32 anos, que está a tentar engravidar desde 2010.

É quase tabu. Não se fala sobre não poder ter filhos. Ou se se fala, é baixinho e pela calada. Mulheres, homens e casais sofrem quase em silêncio para não serem julgados, não serem entupidos de perguntas às quais não querem ou não sabem responder. A parentalidade é empurrada pelo tempo, arrastada por exames, dias difíceis em que a vontade maior é desaparecer e com esse empurrão chega também o vazio. O vazio de um colo que poderá nunca ser preenchido. É aí que a vida acaba sem antes começar.

De acordo com a Associação Portuguesa de Fertilidade (APF), são doze as maiores causas de infertilidade feminina: síndrome de ovários poliquísticos, endometriose, obstrução tubar, muco cervical incompetente, anomalias do cariótipo, patologia uterina, tumores malignos, malformações anatómicas, gravidez ectópica, interrupção voluntária da gravidez, abortamentos em repetição e auto-anticorpos. O número diminuiu para onze na infertilidade masculina: alteração do espermograma, criptorquidia, anomalias endócrinas, anomalias do cariótipo, ejaculação retrógrada, anejaculação, azooespermia obstrutiva, azooespermia secretora, lesões no escroto, tumores malignos, anomalias anatómicas. Para ambos os géneros acrescentam-se também causas desconhecidas.

Receber a confirmação de infertilidade é “como um murro no estômago, pior: um murro no útero que poderá nunca conseguir gerar vida. Nunca se saberá. É por tentativa-erro.” afirma Anabela (nome fictício) que viu todos os tratamentos feitos através do Serviço Nacional de Saúde (SNS) não surtirem efeito.

“Foi muito dinheiro gasto em medicação para ter um filho que nunca vou abraçar nem saber de que côr são os olhos. Numa só semana gastei perto de 400€ em injectáveis e comprimidos. Nem um teste de gravidez positivo cheguei a ter.” lamenta Anabela.

Foram quatro anos a tentar engravidar naturalmente, antes de saber que era infértil por padecer de endometriose, seis a fazer exames e três testes de gravidez negativos. Para Anabela “não ser mãe é como se eu fosse deficiente. Na verdade, até o sou porque há uma parte em mim que não funciona correcta e normalmente. Há um pedaço de mim que falha e por isso, mesmo sem conhecer o meu filho, eu já lhe falhei.”

Do apoio psicológico que teve na maternidade onde foi acompanhada, “pouco ou nada muda. Sabem lá eles o que eu sinto.” diz, emocionada.

Noutro lado, está Bárbara Ribeiro que não desiste de acreditar que será mãe. A tentar engravidar há seis anos, optou por ser acompanhada no sistema de saúde privado, onde já gastou cerca de 10.000€ no espaço de um ano e meio. “Uma palavra: desilusão. Sinto muita revolta quando ouço falar em pais que maltratam ou matam os seus filhos e penso imediatamente que é muito injusto. Afastei-me de amigas que engravidaram porque eu não soube gerir e elas também não. Muita tristeza. Não sei se alguma vez conseguirei e isso assusta-me porque é um dos meus maiores sonhos.” afirma-o.

Relembra que da esperança que tinha relativamente às fertilizações in vitro (FIV) a que foi submetida, passou pelo desgosto de receber dois testes de gravidez negativos.

Para Patrícia Pereira, o diagnóstico de infertilidade foi-lhe dado após um ano de tentativa de engravidar naturalmente. Foi garantido imediatamente acompanhamento psicológico para a própria e o esposo, no hospital onde foi feita a vigilância de todo o processo.

Tal como Anabela, num curto período de tempo, gastou perto de 400€ em medicação e injectáveis, para aumentar a probabilidade de sucesso. Foi igualmente em vão.

A preparação para ser feita FIV, é rigorosa. Envolve injecções criteriosamente preparadas e parte do sucesso é dependente da parte feita pela mulher ou casal. No entanto, há situações em que a monitorização confirma que, apesar do esforço, o tratamento não surte efeito. Foi o que aconteceu a Patrícia Pereira que viu cancelada a FIV por ter folículos pequenos. Afirma que “só eu e Deus sabemos a minha dor nesse momento!”.

Encontra-se em lista de espera, para ser inseminada com óvulos doados que serão fertilizados com esperma do marido. Até que essa altura chegue, assume-se como conformada mas incompleta.

Vanda Nunes viu o diagnóstico de infertilidade ser atestado ao marido por teratospermia. Por essa razão, foram encaminhados para FIV em 2007, sem que outro tipo de tratamento fosse tentado antes. Nessa altura, ficaram a saber que a qualidade dos óvulos não é a mais adequada para avançar com a fertilização.

Refere que sempre tiveram acompanhamento psicológico na maternidade onde eram realizadas as consultas, exames e tratamentos, no entanto lamenta o facto de não ter sido possível serem consultados individualmente, após entrarem ambos em depressão fruto da infertilidade. Viu na acupuntura a forma de minorar a doença depressiva.

Após ser submetida a FIV, a dia 12 de abril de 2010 é dada a confirmação da gravidez a Vanda. Considera ser esta a “melhor notícia” que alguma vez recebeu na vida. O filho tem hoje cinco anos.

Quando questionadas relativamente a possibilidade de adoptar uma criança, as opiniões divergem. Bárbara afirma que sempre fez parte dos planos, contudo, a maternidade uterina terá de acontecer primeiro, Anabela afastou-se de crianças e nem sequer pensa mais nisso, Patrícia remete-se ao silêncio e Vanda recuou na decisão de adoptar por não ter, ao momento, discernimento para entender se a razão que a levaria a tomar tal opção se prenderia com o facto de não conseguir ter os próprios filhos ou por querer realmente adoptar uma criança.

São vidas suspensas pela vontade de ter filhos. Em alguns casos, os empregos foram perdidos, investido dinheiro que estava guardado para outros planos e, por vezes, o retorno foi o vazio.

As relações são postas à prova. Os alicerces abanam e nem todas ou todos resistem.

E no fim, resta-lhes acreditar que a ciência avança tanto quanto a vontade de serem mães e pais.

Atesta Bárbara Ribeiro que “por agora, continuamos aqui. A sonhar, à espera. À espera do nosso sonho.”

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Sofia Fonseca Costa

Nasceu numa quarta feira de Novembro, no ano 1984, mas não gosta de meio termos. Desde que se lembra que quer ser escritora e mãe. Dizem que no canto do seu sorriso mora um arco-íris. Vive para as palavras e afectos. Não gosta de chocolate.
É formada em jornalismo e fez teatro durante mais de uma década.
Mãe de quatro filhos a quem chama de Soneto. É autora do livro Murmúrio Infinito. Chamam-lhe Sofes Marie.

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13 thoughts on “Quando a vida acaba sem antes começar”

  1. Parabéns Sofia. És e sempre foste uma grande escritora e sensível a imensas situações… que continues a puder escrever e fazer cada um ou uma de nós a rever nos, nos teus textos.
    As estrelas não me deixaram pôr o que queria 🙁 beijinhos

    1. Vanda, eu é que tenho a agradecer o seu testemunho, mais uma vez. Todas as vezes quantas forem necessárias.
      E reforço a minha admiração tão imensa quanto profunda por si, tal como por todos os que passam por tudo quanto aqui se reflecte.
      Um abraço apertado!

  2. Eu vivi na pele esta situação, e ao fim de 5 anos engravidei, graças a um médico fantástico, que me soube diagnosticar e ao mesmo tempo ser meu psicólogo e não me deixar cair em depressão! Sim, a relação sofre uns abanões valentes, as nossas hormonas ( e humor) também, e das amigas grávidas tb queremos fugir a 7 pés (independentemente da felicidade que sentimos por elas). Obrigada Sofia, por escreves sobre um tema, que nós mesmas falamos baixinho ou apenas não falamos!

  3. Li, reli, voltei a ler e, talvez em busca de um pouco mais de coragem, li novamente.
    Obrigado pela partilha. Estou no 2° ciclo de FIV e, neste momento, o teu texto deu-me aquela dose extra de fé e esperança que precisava…

    Muito, muito, muito obrigado!

    1. Cristiana, estou no limbo entre lamentar o que se passa consigo e o desejar-vos imensa força.
      Não sou, de longe nem de perto, a pessoa mais adequada para fazê-lo, mas acredite que aqui deste lado estou a torcer por vós, tal como torço com as minhas amigas que padecem da mesma condição e acabam por ter de passar pelos tratamentos necessários.
      E só pelo seu comentário, permita-mo dizê-lo, vale a pena ter escrito sobre um tema tão pessoal quanto sensível como este.
      O melhor dos acompanhamentos e felicidades daquelas que não conseguimos descrever, é o que vos desejo para o futuro.
      Termino também com um abraço. Dos grandes.

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