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ContosCultura

Quando a mudança nos chega

Há algum tempo que se sentia continuamente com vontade de vomitar. Não se sentia particularmente triste ou negativa ou nervosa; era mais uma má disposição que parecia subir do estômago até ficar presa na garganta, como um murro na barriga que lhe apertava o peito e se entranhava na pele e até nos cabelos. Por vezes, perguntava-se se seria por causa do frio, ou do calor. Mas no fundo, sem querer admitir, quase que adivinhava o motivo.

Primeiro começou a estranhar aquela espécie de ansiedade, aquela constante vontade de vomitar pelo simples facto de existir. Sim, ela não encontrava nenhuma outra razão; a única possível era que viver a deixava mal-disposta. Não é que quisesse morrer, nada disso. Era algo diferente, como um grito dentro de si. Ela só queria que esse grito fosse dado para ela continuar a sua vida em paz, sem aquele eterno nó no estômago.

Quando viu que a sensação não passava com o lento caminhar das semanas, decidiu procurar soluções na medicina e fez um check-up geral. Para infortúnio – ou seria sorte? – dela, não encontraram nada a não ser um quisto sebáceo numa perna. Tentou abordar a Psicologia quando lhe recomendaram terapia para ver a vida de forma positiva e agradável, mas depois de várias tentativas falhadas, em que assumiu que toda a ordem dos psicólogos residentes em Lisboa já conhecia os seus segredos, desistiu. De seguida, encontrou um psiquiatra que lhe diagnosticou transtorno de ansiedade generalizada e lhe deu comprimidos. A única coisa que derivava dos comprimidos era lentidão. Tinha a mesma vontade de vomitar mas de uma forma arrastada, inexplicável. Não melhorava, pelo contrário; parecia conseguir controlar ainda menos aquela condição terrível que parecia não passar.

Por fim, quando assumiu com resignação que aquele aperto passaria a ser a normalidade da sua vida, uma conhecida de uma amiga leu-lhe as cartas, quase por brincadeira, depois de beberem várias garrafas de vinho num jantar de inauguração, e deu-lhe a resposta:

“Querida”, assombrou-se a rapariga “está aqui uma enorme mudança!”

Ela não comentou. Apenas sorriu da sua forma dormente, mas algo dentro dela se mexeu e ela soube que estava tudo relacionado.

Nessa noite, quando chegou a casa, a cambalear ainda do efeito do vinho, foi a correr para a casa de banho. Tentou vomitar, mas nada. O estômago contraía e descontraía, ela fechava os olhos e era assolada por vómitos, mas nada saía. Algo lhe arranhava a garganta, algo tentava passar o seu esófago. Ela começou a despir-se no chão da casa de banho, cada vez mais mal-disposta, a tentar libertar o que quer que fosse que a prendia. Gritou, como se esperasse que aquele grito mudasse tudo. De repente, como se o corpo não aguentasse mais, com um último enorme grito vomitou tudo o que estava dentro dela e a apertava. Tudo. Braços, pernas, cabeça. Sentia-se como se tivesse acabado de ter um filho. Quer dizer, pelo menos como pensava que alguém que tivesse tido um filho se sentiria depois de tê-lo, tal como mostravam os filmes: cansada, suada e absolutamente encontrada. Nada ficou dentro dela. Ela deitou-se no chão da casa de banho para tentar descansar, aproveitando o fresco do azulejo, de olhos fechados, demasiado exausta para compreender o que tinha acontecido e para observar quem estava à sua frente.

Quando abriu os olhos, era ela.

Ela própria.

Ela olhava para ela própria, como se olhasse para um estranho e irreal espelho. Porque não era um espelho. Era ela própria mas diferente. Podia ver nos olhos daquele novo eu que apenas partilhavam um passado. Aquele novo eu tinha uns olhos brilhantes e um sorriso descontraído, como se gostasse de viver. Como se o bem-estar fosse a normalidade da vida. Era um eu sem ansiedade, um eu que optava por ser feliz e positivo. Ali estava a sua mudança, em carne e osso, vomitada de dentro de si com roupas diferentes e atitude diferente.

Olhou para as suas mãos. Sépia. Depois, branco e preto. Tocou uma na outra, a tentar perceber. Tocou nos olhos, como se quisesse acordar. Observou de novo as mãos e espantou-se ao ver o chão da casa de banho através das palmas. Sentiu que estava a desaparecer. Soube que estava a desaparecer. Soube que ia tornar-se no que era, no passado. Um grão de areia, uma memória. Não deixou de olhar para si própria, à sua frente. Olhavam-se as duas, uma a entender tudo e outra sem entender nada. Desapareceu devagar, como um nevoeiro numa noite húmida. E quando sentiu que nada mais sobrava, quando só restava uma faísca de pensamento, olhou para o seu novo eu e viu um sorriso. Viu que o seu novo eu já nem se lembrava dela, como se ela não tivesse acabado de existir ali mesmo, à frente do seu nariz. O seu novo eu levantou-se e continuou a sua vida. Já nada restava dela. A faísca foi-se apagando. Fechou os olhos. Era passado.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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