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Quando a morte é uma festa

Morte. Quantos sentimentos traz consigo esta palavra? Medo, tristeza, solidão, dúvida, compaixão, negação, esperança, desamor, amor, vingança. Para além de muitas outras palavras, que podem vir à mente do leitor, segundo o contexto. Por ser inevitável a todo ser vivo, a morte é um tema presente na cultura de todas as civilizações humanas e, em todas as épocas, cada sociedade e cultura do mundo tem formas especificas de lidar com a morte e quase todas têm um dia dedicado às almas e aos defuntos.

As crenças e tradições que envolvem a cultura da Península Ibérica estão fortemente vinculadas à religião cristã, que teve a sua maior influência durante a época medieval. Nessa época, a Morte significava um desígnio divino e estava fortemente relacionada com as acções morais dos seres humanos, pois a salvação da alma era feita através de boas acções e da procura do perdão dos pecados cometidos. O temor à Morte foi inserido em parte pela religião, que conseguiu desenvolver no povo o medo de sofrerem castigos eternos no Inferno, ou na escuridão do Purgatório, enquanto apreguavam a luz do Paraíso, para quem conseguisse salvar-se. É por causa destas raízes culturais que, no geral, a morte nesta cultura que vivemos significa dor, angustia e incerteza.

Na Igreja Católica, festeja-se o Dia de Todos os Santos no dia 1 de Novembro, uma festa que honra todos os santos e mártires e foi estabelecida pelo Papa Gregório III (731-741 d.C.). No dia 2 de Novembro, festeja-se o Dia de Finados, no qual as pessoas rezam pelos defuntos para que as suas almas descansem em paz e acredita-se que teve a sua data fixada pelos monges de Cluny, de França. Tudo isto, na Idade Média, misturava-se com as crenças populares, que acreditavam que nestas datas as almas do purgatório eram livres e voltavam para o mundo dos vivos.

Nas culturas orientais, a Morte é vista com mais naturalidade, pois é considerada como um passo para outras formas de vida. Mais próximo a esta filosofia oriental é o pensamento no México e em grande parte da América Central.

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No México, a maioria dos habitantes, como legado da colonização, são praticantes da religião católica, mas existe ainda um forte vínculo entre a Morte e as antigas tradições indígenas. Para entender este pensamento, devemos voltar à época dos antigos indígenas, entre eles os Aztecas, para quem a Morte era uma forma de participar das forças criadoras dos deuses. Era uma transformação e algo natural, para esta cultura, cujo temor e agonia em relação à Morte não existia, uma vez que temiam mais Tecatilpoca (o deus da Desgraça e da Maldade) do que a Morte. Era também natural conservarem crânios de alguns dos seus parentes falecidos, para os mostrarem nos rituais realizados em honra dos antepassados, e pensavam que o destino da alma não estava determinado pelo comportamento em vida, mas sim pelo tipo de morte que se tivesse. Existia ainda um festival anual dedicado aos mortos, comemorado no nono mês do calendário solar Azteca, mais ou menos por volta do mês de Agosto, no nosso actual calendário. Era um festival que durava um mês inteiro e que honrava os parentes falecidos, através de vários rituais, como danças tradicionais, oferendas, grandes banquetes e até sacrifícios humanos. Era também uma festa comemorada no fim da colheita e os alimentos eram dados como oferenda à deusa Mictecihualtl, senhora dos Falecidos e dama da Morte.

Com a conquista do México no século XVI, os espanhóis, horrorizados com estas cerimónias, pois segundo eles eram coisa do diabo, no intento de converter os nativos, fizeram com que o festival anual dos mortos coincidisse com as festividades católicas do Dia de Todos os Santos e do Dia de Defuntos, e introduz-se no México o terror à morte e ao inferno, devido à divulgação do cristianismo. É então, no meio desta mistura de crenças, que origina-se o Dia dos Mortos, considerada uma das tradições mais representativas da cultura mexicana e cuja celebração é feita nos dias 1 e 2 de Novembro.

O Dia dos Mortos varia segundo a região do México, mas existem elementos em comum. Nesta data, são homenageados todos os entes queridos que faleceram, é uma festa colorida, festejada com alegria e, por mais estranho que pareça, também com brincadeiras e há comida tradicional, música, velas e flores. Acredita-se que nestes dois dias do ano, os mortos têm permissão para voltar ao mundo dos vivos, para a se aproximarem de novo aos seus parentes. Por isso, o Dia dos Mortos é na verdade uma festa de boas-vindas para aqueles que já partiram, como se tratasse da visita de um parente querido que não se vê há muito tempo.

MG_quandoamorteeumafesta_1Segundo esta crença, as almas das crianças fazem a sua visita no dia 1 de Novembro e as dos adultos no dia 2. Porém, onde fazem esta visita? No túmulo, mas, em caso deste não existir, ou que a família esteja longe dele, são feitos altares nas casas dos familiares. Estes altares são mesas adornadas com velas, flores e incensos, em que se colocam oferendas, como comida e bebidas (normalmente as favoritas da pessoa falecida, pelo que não é estranho ver garrafas de tequila e cerveja nestes altares), cigarros (se a pessoa fumasse), fotos desse familiar, objectos pessoais do falecido (inclusive brinquedos, quando se tratam de altares para crianças), misturados com crucifixos e imagens de Cristo, ou da Virgem Maria. Sendo, portanto, uma mistura de crenças cristãs e pagãs. A ideia, na verdade, é colocar no altar tudo o que o defunto mais gostava, quando era vivo, e dar-lhe, assim, uma boa recepção de regresso. Quando o festejo é feito junto aos túmulos, utilizam-se os mesmos objectos que nos altares das casas e há quem chegue a contratar grupos de mariachis, para cantarem as músicas favoritas do defunto ao pé do seu túmulo. Como é uma festa familiar, as famílias reúnem-se para cantar, beber, comer e relembrar a pessoa falecida, sendo tudo feito com muita alegria e respeito.

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Nesta festividade, declarada Património da Humanidade, em 2003, pela UNESCO, são típicas as caveiras de açúcar (e algumas de chocolate), o doce típico desta festividade. Para as fazer, o açúcar é moldado em forma de crânio e as crianças adoram-nas. São também usadas como elemento decorativo nos túmulos, ou altares. É típico também desta data o Pão de Morto, um pão doce coberto de açúcar em pó, utilizado também muitas vezes como oferenda, e é, claro, que as flores não podem faltar neste dia, especialmente uma flor similar ao cravo, de cor alaranjada chamada Cempasúchil, que é muito utilizada nos altares e túmulos e que, segundo a crença, guia e atrai as almas dos mortos.

Outro elemento importante são as chamadas “Caveiras Literárias” (Calaveras Literarias), que são rimas e versos, muitas vezes publicadas nos jornais, que pretendem ser epitáfios humorísticos de pessoas geralmente conhecidas (especialmente políticos), onde a Morte personificada brinca satiricamente com estas pessoas que ainda estão vivas. No México, existem inúmeros nomes para a Morte (quase cem nomes), como por exemplo “a Ossuda”, “a Dentuça”, “a Trinca Espinhas”, “a Malquerida” e “a Noiva Fiel”. O mesmo também se aplica ao acto de falecer, que pode ser chamado como “foi levado pela Trinca Espinhas”, “esticou as pernas”, “pendurou os sapatos”, “deu o último grito” e tantas outras expressões que permitem criar ironia, rimas e versos.

O tratamento familiar, amistoso e, ao mesmo tempo, de temor e de respeito, acabam por desmistificar a Morte, tornando-a distante e próxima ao mesmo tempo. O Dia dos Mortos serve para recordar as experiências positivas e os bons momentos que se tiveram com o defunto, enquanto nos mostra que, para os mexicanos, o pior que pode acontecer não é a Morte, mas sim o esquecimento. Por isso, este povo relembra os seus antepassados com alegria, pois manter viva a memória deles é a melhor maneira de honrá-los.

Para além do México, esta festividade também é celebrada noutros países da América Central e em certas regiões dos Estados Unidos da América, onde existe uma grande presença da população mexicana.

“A morte tem tanta certeza de alcançar-te,

que ela dá-te uma vida inteira de vantagem”

Ditado popular mexicano

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Maria J Gutierrez

Bióloga de profissão, amante da natureza e de todas as suas formas de vida, desde os seres mais gigantes até aos mais pequeninos. Não há nada como estar com a família, descobrir o mundo, aprender, ler um bom livro e cervejinhas com os amigos.

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