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Quando a Europa se vê grega

Quanto vale um referendo?

Quando começou esta crise europeia, que muitos assumem ter sido com a crise da dívida grega, muitas opiniões apontavam para que o erro era grego, não do centro da Europa, da aparentemente intrépida Alemanha. O geral das pessoas ou opinam por medo, ou seguindo a tendência do seu grupo, do grupo em que se auto-incluíram. Poucos são os que usam a análise própria, pensam ou repensam de forma livre sem base preconceituosa.

Ouvimos tantas opiniões insensatas de gente muito inteligente e, até, sensata.

Onde está o grande erro desta crise da dívida grega? No início, seguramente nos Governos que a Grécia foi tendo. A dada altura, muito difícil de precisar quando, a dívida tomou “vontade própria, eufemismo para não dizer que era do interesse dos que dela vivem, que a querem enorme, monstruosa, mas controlada, para se ir pagando.

German Chancellor and chairwoman of the German Christian Democrats, Angela Merkel reacts during a news conference after the party's weekly executive committee meeting in Berlin, Germany, Monday, May 23, 2011. Chancellor Angela Merkel's conservative party slipped behind the environmentalist Greens to third place in a state election in Bremen on Sunday, its worst result in Bremen in over 50 years. (AP Photo/Michael Sohn)

No entanto, há sempre uma pergunta final. Embora se perceba que muitos a querem evitar. A pergunta não será quem tem razão. Parece importante, para perceber, ou apenas acusar. Estatística, história, política, mas pouco mais. Porém, como em tantos outros assuntos, o importante é saber onde está, quem tem, a solução. Claro que a solução financeira pode esbarrar na ausência da solução política.

Talvez um recuo, livre e despreconceituoso, à génese da Europa, ao que motivou os Estados membros que muito em comum têm culturalmente, mas talvez não socialmente, nos ajude a entender, “fora da caixa”. A Europa, a União, o Euro, interessam aos países do sul e à Grécia, no caso. Parece óbvio. Pelas mesmas razões que levaram aos descontrolos sobre as dívidas soberanas. O desejo de evoluir, de acelerar um crescimento quase estagnado e anquilosado em tradições muito pouco amigas da modernidade e das tendências económicas dum mundo (mal) globalizado. Desejo legítimo. Estratégias erradas, decisões muito irresponsáveis, sabemos. Não sem falta de sinais e avisos, na Grécia, como em Portugal e em todo o Sul da Europa.

Contudo, deixar chegar ao ponto de se questionar a viabilidade de uma Nação, a que foi berço desta Civilização?

Esta Europa, liderada sem escolha de mais alguém do que dos que mandam nas finanças da mesma, construiu-se para ser um mau exemplo de quem nunca soube viver com a globalização? Um mau exemplo de um grupo que procurou uma dimensão competitiva, pela coesão? Ou sem alguma coesão? Que dimensão aguenta tanta assimetria e desigualdade social, remuneratória, de poder de compra, de oportunidades de emprego, de investimento, de novos negócios, de evolução educacional e cultural?

Neste último pensamento, pode esconder-se, envergonhadamente, a “razão”, mas precisamos, não gregos apenas, mas todos, de encontrar a solução.

Infelizmente, ao ponto a que deixámos chegar tudo, talvez a melhor solução, se não se verificar a única, esteja na saída do Euro. Talvez não apenas para a Grécia. O que implicará uns anos de muito sacrifício, perda de poder de compra abrupto e tremendamente injusto e violento. E uma redescoberta de novas e muito inteligentes soluções políticas, talvez de novas inspirações ideológicas, económicas e políticas e uma busca intensa dentro dos países, pelos melhores recursos humanos e capacidade de empreendedorismo. A procura de novos ciclos de crescimento, tão urgentes como intensos tornar-se-á mais premente do que nunca.

Ficam os exemplos e a aprendizagem com os mais ricos da Europa, como ficam os exemplos dos sucessivos falhanços da mesma Europa, e dos mesmos ricos. Ficam, da pior forma, os sinais e exemplos a não serem seguidos.

Certas são algumas realidades, ainda pouco evidentes a quem se recusa a pensar por si. Que a Europa falhou o projecto, pelo menos na crença da possibilidade de ser sólida com a conhecida assimetria. Como falhou a Grécia, Portugal e provavelmente Espanha, Itália e Irlanda. Falhou ainda um sistema financeiro que se (auto) pretendeu sem regulação, com uma incomensurável fome de enriquecimento, sem o mais ínfimo princípio, ou pudor. Lembremo-nos de que esta insistência na Austeridade é fruto da pressão de um sistema que pretende, sem escrúpulos, que países do euro mais pobres paguem os desvarios e incompetência da Banca mais rica da Europa.

Não esqueçamos a grande lição do referendo grego. Não a de que um povo teve coragem de enfrentar os poderosos de uma Europa que perdeu pudor, na mesma medida em que perdeu inteligência na gestão deste calamitoso processo. Porém, a lição de que, muito mais inteligentemente do que se imaginaria, um grupo de Partidos considerados extremistas, puseram a nu toda a fragilidade desta Europa, demasiado germânica para ser inteligente, demasiado egocêntrica para ter visão, demasiado pueril para sobreviver. Fruto de falta de liderança, como muitos já notámos, vezes demais. A grande lição foi de como David pode deixar Golias a tremer, mesmo!

Um referendo vale todo o sofrimento de um povo que já não aguenta mais e sabe, talvez do alto da sua antiga civilização, que a dada altura já nada mais poder perder. E assume o que quer. Uma tremenda lição ao povo português, a propósito.

epa04011010 The temple of Parthenon Acropolis hill is pictured through the view of a Greek and a European Union flag in Athens, Greece, 07 January 2014. Greece takes over the presidency of the Council of the European Union from January to June 2014.  EPA/ORESTIS PANAGIOTOU

A chuva de comentários sobre cada frase dita, sobre cada sorriso, cada cachecol, cada amuo, ou cada intervenção intempestiva, no âmbito histórica, se desvanecerá. Ficam não as “razões”, apenas as soluções e só as boas contam, as demais a História as esmagará.

Depois de tudo ter passado, o balanço será apenas do que ficou. Se um país que cumpriu com as regras da uma Europa que insiste numa política errada, ou de um país que escolheu mais um tempo de sofrimento, mas desta vez, já esperado, para logo depois descolar do garrote que não o permite crescer e desenvolver. A diferença entre Portugal e a Grécia poderá ficar por aí. E, nada que se verifique positivo aos pobres que ficarão no Euro, ainda perderá, um dia, bem mais o Euro e os seus países, do que a Grécia, saindo.

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Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

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