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Qual o real problema da nossa Banca?

O Partido Comunista Português (PCP) levantou uma questão pertinente na semana passada. Nacionalizar o Novo Banco parece ser a solução que Comunistas e Bloquistas têm em mente para a resolução do problema do Novo Banco. Pessoalmente a ideia não me agrada e creio que tal medida é manifestamente insuficiente para se resolver o problema crónico da banca portuguesa. O argumento da Esquerda até que é interessante. Se o Estado está farto de perder dinheiro com o Novo Banco, então que este passe a ser do Estado para que se gaste ainda mais dinheiro. Uma espécie de fórmula que a Caixa Geral de Depósitos utiliza há muitas décadas com os péssimos resultados que todos vemos.

Não vejo na nacionalização do Novo banco uma solução. E muito menos me parece que uma solução à Inglesa (nacionalizar o Banco, equilibrar as suas contas e depois vende-lo ao melhor preço) seja a solução de um problema que não é exclusivo do grupo bancário que resultou do colapso do Banco Espírito Santo (BES). Isto porque a problemática da nossa Banca vai muito para além do antigo BES e outros do género. A questão está antes na raiz da nossa Banca, da sua estrutura e da forma como nasceu e se desenvolveu. Elementos que os vários Governos não ousaram nunca tocar vá se lá saber porquê.

Creio não estar a dizer nenhuma asneira quando afirmo que 99% da Banca Portuguesa nasceu dos negócios de grandes famílias ricas no século XIX. BES, BCP, BANIF e Totta foram negócios de famílias da alta sociedade lusa que cresceram até se tornarem nos maiores Bancos privados do nosso País. Coincidência ou não. O colapso de quase todos eles deveu-se, em grande parte, a desavenças familiares e gestão danosa dos ditos. A excepção à regra foi o Totta que era pertença da família Champalimaud até ter sido vendido aos Espanhóis do Santander num negócio polémico.

E é precisamente a excepção Totta (agora mais conhecido por Santander Totta) que reside a explicação de muita coisa. É que continua a ser o único Banco Português que dá lucro. O Santander Totta não parece ter sido minimamente afectado pela enorme crise do sector bancário que assolou, assola e assolará a Europa.

Ora não será então difícil de se concluir que um dos grandes problemas do nosso sector bancário se deve ao facto de os nossos bancos privados terem sido “brinquedos” nas mãos de alguns clãs ricos.

O outro problema que temos deve-se aos pequenos Bancos de Investimento. Instituições fechadas em si mesmas onde só circulam grandes fortunas. Ou falando num Português correcto e claro; empresas de fachada (na sua grande maioria) para se “lavar” dinheiro. BPN e BPP são dois bons exemplos deste tipo de Bancos. O problema é que as economias, para o bem e para o mal, precisam deste tipo de Bancos dado que estes têm o condão de atrair capital…. Contudo nos últimos tempos a Europa entrou numa demanda de austeridade brutal sem sentido que tem servido para afastar o “dinheiro sujo” e até mesmo o limpo que se acumulam cada vez maior na Suíça.

Ora tudo isto para se chegar a uma simples conclusão: não é com a nacionalização de bancos que vamos ao sítio. E muito menos as recorrentes injecções de capital da parte do Estado e Banco Central Europeu no nosso sector bancário irão resolver a questão. Assim como a brilhante ideia de se criar legislação sem fim para se fazer do Banco de Portugal uma espécie de Policia dos Bancos seja a solução. O que é preciso é retirar os Bancos de quem andou durante dois séculos a brincar com eles, entrega-los a quem estiver interessado em que estes dêem lucro. E se formos a ver este cenário está, aos poucos, a suceder dado que, salvo erro da minha parte, o BANIF era o último grande Banco privado Português que estava nas mãos de famílias ricas.

Em suma, o grande problema da nossa Banca não são os Bancos em si mesmo. São antes o facto de aqueles terem sido durante tempo a mais pertença daqueles que faziam destes uma espécie de roca. Deste grupo apenas a Caixa Geral de Depósitos não faz parte, mas esta é um caso à parte dado que é uma espécie de “burro à argola” que é sistematizado por todos nós. Mas isto é tema para outra crónica dado que este problema tem pano para mangas. Para muitas mangas.

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Pedro Silva

“É preciso provocar sistematicamente confusão. Isso promove a criatividade. Tudo aquilo que é contraditório gera vida.” (Salvador Dalí)

Crítico, opinativo e com mente aberta. É isto que caracteriza um Cronista.

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