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Qual das três a mais antiga?

Os portugueses têm a certeza de que a região demarcada mais antiga do mundo é portuguesa, mas talvez seja bom não ter certezas. É que…

Sebastião José de Carvalho e Melo, que viria a ser o primeiro Conde de Oeiras (1759) e primeiro Marquês de Pombal (1769), deve ter sido o homem com mais afazeres no Reino de Portugal. Em 1755, um terramoto, seguido de maremoto e incêndio, que devastou Lisboa, e logo pôs tudo a mexer e a trabalhar. No ano seguinte, instituiu a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, que organizava, geria e fiscalizava o vinho daquela região. A empresa chegou até aos nossos dias, apenas como sociedade produtora e comercial, conhecida por Real Companhia Velha.

O então Morgado do Carvalho mandou arrancar vinhas pelo país e estabeleceu penas pesadas, incluindo a de morte, para prevaricadores, seja por adulteração, seja por levarem vinho doutras regiões e introduzirem-no na demarcação.

O nosso ilustre e venerado Sebastião de Carvalho e Melo criou uma excepção para ele próprio. Da sua quinta em Oeiras – conhecida por Quinta do Marquês, hoje partilhada pelo Ministério da Agricultura, Câmara Municipal de Oeiras e Fundação Calouste Gulbenkian – mandava uvas para o Douro. Daí e da sua Quinta do Gradil.

Portanto, Portugal afirma que a primeira demarcação mundial foi em 1756. Contudo, húngaros e eslovacos (Tokay) reivindicam a posição, colocando-a em 1730 e argumentando com referências desde o século XIII. Porém, em Itália, garante-se que foi Chianti. Em 1716, o Grão-Duque da Toscânia fixou em lei um território vitivinícola, formado pelas aldeias de Castellina, Gaiole e Radda.

Em Tokay – entretanto passou a usar-se a terminologia húngara Tokaji e eslovaca Tokaj – a localização era um pouco vaga e mal definida. Penso que a ideia de demarcar uma região vitícola terá sido baseada em Tokay, uma vez que Sebastião de Carvalho e Melo foi embaixador de Portugal em Viena, então capital do Sacro-Império Romano-Germânico e cujas terras abarcavam o Reino da Hungria.

Já Chianti tem um espaço melhor definido, ainda que não seja preciso. Bem, ganhamos na secretaria. No Douro, além da enumeração das povoações e suas terras agrícolas, foram postos marcos a assinalar onde começava e acabava a demarcação duriense.

Na época, o vinho produzido no Douro não seria aguardentado. Há várias teorias acerca do que terá levado a abafar o abastecimento das naus (?!). Terá sido um ano tão quente que as uvas ficaram tão doces, que as leveduras transformaram tanto álcool e que acabaram por “se suicidar”, tendo agradado tanto aos britânicos, que se passou a fazer vinho nesse estilo?

Mistéeeeeeeerio!

Há excelentes vinhos de Chianti, mas não lhe reconheço a «especialidade» do Tokay, que reivindica – como Champanhe e Porto – ser o «rei dos vinhos e vinho dos reis» e em parte é verdade, até porque era tão caro que só o imperador romano-germânico e poucos mais o conseguiam pagar, nomeadamente o Essência (aportuguesando).

Há vários tipos de Tokay, mas os que conferem um carácter único são os aszú, vinhos que foram fabricados com uma parte de uvas podres. Podridão, mas nobre. O adiamento da vindima aproxima o tempo mais húmidos e com ele chegam fungos, no caso, o Botrytiscinerea.

Os Tokayaszú são vinhos doces, uma vez que, sendo apanhados mais tarde, perdem água, alterando-se a proporção com o açúcar, a que os fungos atribuem um certo acre e um conjunto de aromas raros nos vinhos, que podem ir dum óbvio mel até ao quase alcatrão.

O patamar mínimo para ser considerado aszú é o de três puttonyos. É essa a terminologia, mas é muito simples. Os puttonyos são cestos com 25 quilogramas de uvas “botrytizadas” (aszú) e que são despejados em vasilhame com 136 litros de vinho normal. Portanto, 136 litros com 75 quilogramas de uvas aszú dá um Tokay de 3 puttonyos.

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A escala não é infinita. Há Tokay de 4 puttonyos, 5 puttonyos, 6 puttonyos e Eszencia, que se faz apenas com uvas atacadas pelo fungo. É uma outra dimensão. Obviamente, vinho de reis. Só para se ter uma ideia, uma garrafa de 3 puttonyos, de meio litro, dum produtor de qualidade, custa à volta de 20 euros. A diversão começa a partir dos cinco.

A fabricação de vinho com uvas «botrytizadas» alcança um patamar igualmente divino em Sauternes, na região de Bordéus. Fazem-se vinhos de colheita tardia (ou late harvest) um pouco por todo o lado, incluindo Portugal. Cá a dificuldade é a humidade que propicia o fungo, passa-se do oito para o oitenta. Há vários, mas muito poucos “sofreram” a acção do fungo.

Quem ficou com curiosidade acerca do Tokay, sugiro que veja o filme A fantástica aventura do barão, com John Neville, Uma Thurman e TerryGilliam. É bonito, enternecedor e inteligente. Passa-se no século XVIII e conta as aventuras do barão de Münchhausen, que não se conforma com o Iluminismo e se bate por um mundo em desaparecimento, em que lendas são tomadas como verídicas. Com uma enorme celeuma, o barão aposta a sua cabeça em troca de tudo o que um homem consiga carregar do tesouro do sultão. Tudo, porque garantiu que na garrafeira do imperador em Viena havia Tokay melhor do que aquele que o monarca turco lhe servira gentilmente.

O argumento é baseado em novelas de Rudolf Erich Raspe (1736 – 1794), que foram readaptadas e republicadas por GottfriedAusgustBürger (1747 – 1794).Os autores dos contos, de literatura infantil, inspiraram-se nas façanhas duma pessoa real – Hieronymus Carl Friedrich FreiherrvonMünchhausen (1720 – 1797). O aristocrata terá nascido na cidade alemã de Bodenwerder (Baixa Saxónia), que lhe ergueu uma estátua em que o barão está montado em meio cavalo.

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa. Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais. Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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