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Crónicas

Provocações na Silly Season

Chegámos, pelo menos cronologicamente, ao Verão. Adoro esta altura, pela simplificação da vida: o trânsito que diminui, os putos que se dividem entre os avós, a despreocupação  com a escola, a ligeireza dos jantares e, de quando em quando, um fim de  tarde na esplanada, a espantar o trabalho e soltar o espírito leve. Mesmo sem o período de férias propriamente dito, já é um alívio de tarefas. Num dia destes comentava o facto, quando um amigo me surpreendeu com a revelação de que, para ele, para os homens em geral, é também a época da decepção. Como assim, perguntei eu? O que pode haver de decepcionante no calor e no espírito veraneante? Bem, parece que tem a ver com o contraste entre o que eles observam na cidade e o que lhes é dado a ver na praia. Perceberam? Eu não. Continuou ele então a explicar-me que as mulheres na cidade são uns mulherões – “boazonas”, disse ele – mas depois na praia, valha-nos Deus, que decepção. Não pude deixar de rir da inocência e candura masculina.

No início da minha vida profissional, trabalhei num banco, na agência, no atendimento. E certo dia, dirige-se a mim uma senhora de 1.80 mts e tal, bronzeada, roupa decotada, pernão torneado, lábios vermelhos carnudos. Os meus colegas homens, prontamente se desconcentraram do seu trabalho e assim que esta saiu, alguns deles soltaram algumas expressões de apreço. Eu ri-me, porque tinha pedido o BI, e sabia que aquele mulherão era, nem mais nem menos, o João Miguel. E claro, fiz questão de os desmoralizar, pela falta de tacto na percepção do facto.

E assim é com os homens em geral. Emprenham pelos olhos, salvo seja, e perdem o discernimento. Descontando a maquilhagem, a roupa ousada, o salto de 10 cm com que as mulheres se camuflam, mas que eles tomam por natural, sobra a mulher comum. E os homens, como algumas meninas que fazem questão de acreditar em príncipes encantados, também gostam de acreditar que somos sempre lindas e maravilhosas, natural e legitimamente. A questão é que ser linda e maravilhosa é um trabalho contínuo. A maioria das mulheres gosta de parecer bem, e mais ou menos extensiva nos cuidados, faz por isso.

Às vezes rio-me sozinha, quando vejo na rua mulheres muito produzidas, pestanas, unhas falsas e outros requintes que a lealdade feminina me impede de detalhar e penso que se por algum motivo estivessem no meio da selva, sem cuidados estéticos, pouco se diferenciariam da Dona Maria-Bigodaças  lá de trás da serra.

Contudo, eu percebo o que ele quis dizer. Vê uma mulher na cidade, daquelas que enche o olho, que obriga a olhar para trás, deliciado com a paisagem, e acredita-se no pai natal… No entanto, é-lhes imperceptível tudo o resto que, mais ou menos, artificializa a aparência. Citando uma amiga minha, muito vistosa, elogiada pelo mulherio num determinado casamento: “isto tirando o wonderbra, a roupa interior levanta – rabo, a cinta -cintura, o cabeleireiro, manicure, depilação e maquilhagem, chega-se ao núcleo” . E os homens, incapazes de antever o esqueleto estético, distraído com as curvas, vão na expectativa da praia e da exposição dos corpos, e ficam tristes, porque afinal a boazona que tinham debaixo de olho no café, até  tem pneus à volta da cintura, ou o peito diminuiu visivelmente quando pôs o pé na areia, apesar do bikini forrado com esponja, ou a moça se revela apreciadora de laranja, tal as pernas que apresenta, esburacadas, onde quase se faria uma piscina daquelas que se faz na areia, para as crianças. Enfim, tristes homens, sofrem muito.

Se bem que, para os mais rústicos, estar à vista é sinal de alta qualidade. Presumo que as velhas e as malfeitonas que andam sempre descascadas tenham esse sofismo. Pernão de fora, decote até ao umbigo, ou topless, é visto como maravilhoso, ainda que a firmeza tenha partido para parte incerta ou seja recordada como contemporânea do Estado Novo. Mas isto, claro, são os rústicos, que não descobrem as miúdas bem feitas que até andam mais tapadinhas.

Os homens são muito engraçados. Por um lado, acham que nascemos com curvas, baton e unhas pintadas. Por outro seria lisonjeador se reconhecessem o trabalho que dá chegar a esse ponto. Fico indecisa entre a o elogio e a falta de realidade. As mulheres conseguem ler as outras, e se não usam dos mesmos argumentos estéticos é porque, ou não precisam, ou são confiantes ou não estão para se dar a todo esse trabalho.

A nossa vida está cheia de casos como esse. Recordo que quando fui de férias pela primeira vez com um namorado que tive, ao entregar-lhe a minha mala e o necessaire para ele colocar na mala do carro, olhou-me como se tivesse trazido a casa para as férias. Tive que explicar que o necessaire é necessário, parece que não é óbvio à mente masculina. Enraivecida, sugeri-lhe que deveria ir de férias antes com a Patrícia, a que tinha bigode e usava sandálias de gladiador, daquelas que cruzam fitalhos até ao joelho, entrançando a perna peluda, que não exige com certeza qualquer manutenção. Claro que nunca mais se queixou da carga.

Como sou uma mulher atenta às novas correntes de pensamento, desprendimento e minimalismo, nomeadamente, nas férias, aligeiro os cuidados e quero mesmo é saborear a ausência de tarefas habituais. E se causar alguma decepção aos olhos masculinos, paciência. Agora mesmo, cocei os olhos e, em consequência, as pestanas e o pensamento citadino lembrou-me que teria esborratado a maquilhagem. No entanto, não, esfrego uma e outra vez, com prazer redobrado, e a minha pele permanece limpa e prazerosa. Férias e felicidade também é isto.

Era bom que os homens soubessem distinguir a verdadeira beleza, mas não podemos pedir-lhes muito mais, afinal já aturam as mulheres, o que convenhamos, não é fácil.

Era também bom que as mulheres não sofressem tanto e fossem felizes com a sua própria beleza, ainda que activamente cuidadas.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em 4 Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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