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ContosCultura

Procura-me – Parte IV

Carlo G. saiu do bar, entrou no carro e deixou-se ficar com o motor já a trabalhar. Pensou e pensou. Reuniu tudo o que sabia e aprendera daquela mulher. Tinha de a encontrar.

O estatuto social dela determinava que estaria por uma zona rica, renovando-se num spa, socializando num brunch ou apenas gastando pequenas fortunas em fúteis artigos da moda de marcas pseudo importantes. Foi aliás para uma zona dessas que ele a seguiu logo no primeiro dia. Mas também podia estar no centro da cidade, entre ruas povoadas de turistas e sem-abrigos, monumentos e lojas de recordações made in China procurando um novo detective que resolvesse o caso que ele não estava a resolverDaria jeito, estaria perto de casa, do escritório e um banho retemperador vinha a calhar. Mas não queria agora naquele momento dar ainda mais tempo para ela se afastar de si.

Já havia feito isso com o amor da sua vida. Centrado em si, deixou a distância crescer, primeiro a física deambulando a sua mendicidade pelas ruas e bares, e depois a distância temporal deixando-se adormecer em cantos escuros acordando ressacado numa qualquer altura do dia. Daquela vez, regressou para uma casa onde apenas encontrou uma folha de papel escrita com lágrimas. “Carlo, com muita dor vou-te deixar” foi tudo o que precisou de ler. O seu coração de repente ficou tão vazio como a casa que fora deles e agora era só sua. Vendeu-a, demitiu-se e investiu no seu negócio Afastando-se das pessoas que odiava, nenhuma em particular, as pessoas no geral.

Sem saber o que fazer, sem saber onde procurar Carmo, conduziu pelas ruas, por vários cantos da cidade. O que melhor se lembrava dela era a luz do rosto que nunca conseguira ver com atenção. Se se cruzasse com ela na rua, provavelmente nem a reconheceria. Como iria então encontrá-la, e pior, como encontrar alguém que a procurava mas não sabia que a procurava? Naquele momento Carmo parecia aos seus olhos um ser misteriosos, com uma pele que emanava luz em vez de estupidez humana, parecia um anjo.

Carlo G. travou de repente e guinou forte para a esquerda atravessando a faixa contrária e obrigando um par de carros a travarem bruscamente. Seguiu impávido não se importando e estacionou em frente a uma igreja. Era a casa dos anjos e ele teve um instinto. Parou antes de entrar e compôs-se metendo a t-shirt por dentro das calças e penteando-se com os dedos para depois dar-se ao ridículo do que acabara de fazer.

Dentro da igreja viu silêncio e uma mulher ajoelhada numa fila mais à frente. Sentou-se atrás e descansou. Depois avançou em frente ao altar e falou consigo próprio, prometendo-se a si mesmo uma vida melhor rindo-se com um canto da boca. Não era um homem de fé, não era um soldado de Deus. Quando se voltou para sair, viu que a mulher que rezava era Carmo. Ficou surpreso e por momentos rígido que nem uma rocha de granito. Também ela não reagiu, apenas fez um gesto muito curto denunciando que sentira a sua presença. O detective aproximou-se dela, ela virou o seu rosto para ela, a luz era agora humana, era a luz de um rosto que bem reconhecia. Puxou o capuz da camisola dela e ajoelhou-se em lágrimas em frente da sua amada.

– Por fim encontraste-me Carlo.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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