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ContosCultura

Procura-me – Parte III

O corpo dorido não o deixou dormir o tempo que a sua cabeça exigia. Carlo G. adormeceu no carro à porta do primeiro bar que se havia cruzado com o seu caminho. A cabeça doía ainda mais que o corpo mas nada a que ele não estivesse já habituado. Saiu do carro e esticou-se tanto quanto conseguiu, procurando encaixar todos os músculos e articulações nos seus devidos lugares. Depois trocou de t-shirt. Guardava sempre umas poucas na mala do carro já a prever manhãs como esta. Aproveitando estar ainda perto da casa de Carmo, voltou para a sua vigia sem antes parar para restabelecer as forças com uma bom pequeno almoço.

Estacionou a cerca de cem metros do portão da vivenda dela. Saiu do carro para andar um pouco, conhecer as proximidades, talvez encontrar algo estranho. Subiu e desceu a rua. Olhou para quintais e janelas indiscretas. Carros estacionados, folhas secas a voarem. Apenas ele parecia estar ainda acordado naquela rua. Voltou para o carro deixou-se adormecer de novo.

Voltou a acordar com o calor do meio da manhã. O relógio marcava 10:42 e despoletou uma agoirenta frustração materializada num “merda” que se repetiu mais vezes daquelas que valem a pena contar. Saiu do carro. Certamente ela já teria saído. Passou por ele enquanto dormia com o a barba por fazer espalmada no vidro carro. Se calhar até o viu e riu-se dele, “bêbado patético” terá ela pensado. Era péssimo não só para a sua reputação, até porque esta não era muito e nem lhe roubava atenção, mas por causar má impressão em Carmo. Ela não podia prescindir agora dos seus serviços. Aquele dinheiro dava-lhe jeito e a percebeu que a presença dela também. E de repente viu-se mais preocupado com as considerações dela sobre si do que com o seu objectivo profissional.

Seguiu até ao portão da vivenda dela. O portão que parecia uma parede de ferro pintada de verde escuro, único corte na monotonia de um desinteressante muro branco. Cirandou, olhou em redor, estava só. Saltou e tentou agarrar o topo do portão apenas para olhar o interior e saber se o carro dela lá estava. No momento em que ia saltar, ouviu-se um clique e o portão começou a abrir. Logo correu para se afastar mas a ansiedade fez-lo tropeçar em si próprio estatelando-se no passeio sem a mínima ponta de elegância possível. Quando se levantava a custo, ouviu um “Bom dia, Sr. Carlo” e ficou sem saber se se levantava ou deixava-se ficar, se respondia ou fingia-se surdo, ou mudo, ou apenas parvo.

Acenou de costas voltadas e ela riu-se antes de seguir caminho para o fundo da rua. Ele voltou ao seu carro e voltou também ao bar da noite passada. Por sorte já se encontrava aberto. Entrou e pediu um whisky, duplo, puro, que é assim que aprendeu a afogar a vergonha de si próprio. Mas tal remédio já não fazia efeito.

O que estaria ela a pensar de si? Seria razoável saber ele estaria ali à porta de sua casa. Ela nem demonstrou qualquer surpresa quando o viu ali. Nem qualquer surpresa quando o viu ali a levantar-se do chão. Aquele “Bom dia, Sr. Carlo” que quereria dizer? Escárnio e gozo? Simpatia? Ironia? Bebeu o copo de uma só vez e voltou para o carro. Tinha que a encontrar, tinha que se desculpar, tinha que limpar a vergonha da sua fronha, tinha que lhe falar. Mas onde iria encontrá-la agora? Não podia esperar pelo fim do dia, tinha que a encontrar agora.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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