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ContosCultura

Procura-me – Parte II

Este era um novo desafio para Carlo G, embora tal facto não o preocupasse. Afinal encontrar pessoas era no que era bom, era o seu dom.

Desde cedo quando se iniciou no percurso de uma carreira policial, percebeu que era sozinho que melhor se sentia. Tempo a tempo o convívio com colegas e chefias foi-se tornando insuportável e ele acabou por fugir. O utópico espírito de defender e servir a comunidade depressa cedeu à sua aversão pelas pessoas. Se bem que se se considerasse uma pessoa fria e distante, sofria com a sua sensibilidade perante a estupidez humana. E para ele era muita, andava em todo o lado, praticamente em cada pessoa com quem se cruzava. Acabou por se isolar por consciência e vontade próprias. Dedicou-se à actividade de detective privado. Refúgio onde podia ganhar a sua avença mensal para os vários bares onde vivia ao mesmo tempo que podia trabalhar sem a companhia de quem quer que fosse. Contactos mínimos e estritamente necessários era um lema pelo qual se regia. Carlo G. era o melhor a encontrar pessoas, só parecia não se conseguir encontrar a si próprio.

Este trabalho tinha então essa dificuldade. Encontrar quem procurava aquela mulher para que ele a encontrasse. Ponto de partida aparentava ser apenas um. Logo que aquela misteriosa mulher desceu, saiu do escritório e foi mirando-a. Viu Carmo entrar num táxi. Apontou a matrícula e número da viatura e regressou ao seu débil e escuro aposento. Um telefonema bastou-lhe para conseguir a informação que pretendia, o destino dela. Anos e anos de experiência permitiram-lhe estabelecer uma rede de contactos considerável ainda que estritamente profissionais. Toda a informação a curta distância, ao preço de um copo ou dois, de um favor ou dois.

Meia hora volvida estava ele a chegar ao destino que fora dela. Chegou a uma zona comercial numa rica nova área da cidade, pejada de modernismos e a respirar inovação. Aguardou tentando ser tão discreto quanto possível, escondendo o seu cinzentismo que contrastava com a luminosidade da tarde.

Algum tempo volvido, viu-a sair de um spa, emanando luz, figura esbelta e misteriosa com o seu rosto escondido. Segui-a até uma esplanada, café e uma água com gás, um par de montras e um regresso a casa ao cair da noite. Aparentemente passou o dia a seguir uma pessoa perfeitamente normal. Ainda aguardou nas últimas horas do dia. Tentou perceber se mais alguém a vigiava, a observava. Nada de estranho detectou. Os sons típicos de uma bairro rico povoado por vivendas mais ou menos faustosas quase o fizeram adormecer. Quando sentiu que por fim ia cerrar os olhos, ligou o carro e deu a vigia por terminada. Ainda estava longe de casa por isso conduziu apenas até encontrar o primeiro bar que se cruzava com o seu caminho.

Sentou-se ao balcão. Pediu e serviram-lhe um copo de bourbon. Segurou o copo com gentileza e rodou-o escrevendo no ar suaves circunferências de nada. Ficou assim até pousar o copo e deixar formar um rosto no líquido dourado. O rosto dela, de quem amava, de quem sempre amou. O rosto por quem se perdeu.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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