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ContosCultura

Procura-me, Parte I

Mal teve tempo de atirar a garrafa de Jack Daniel’s para o fundo da gaveta da secretária quando ouviu alguém a bater na porta. Dois toques, toc toc, suaves mas firmes e intencionais. O último trago desceu para estômago gasto para logo autorizar “entre!” com alguma surpresa na mente. Não esperava ninguém, nunca esperava ninguém. Há semanas que ninguém o procurava, ou meses, que ninguém batia naquela porta. Do lado de fora uma placa indicava “Carlo G. – Detective Privado”.

Carlo levantou-se da sua cadeira quando viu entrar uma figura de desenho belo como há muito não via, mas que parecia mascarar-se de vulto. Ela, esquiva, misteriosa, parou na sua frente sem se mostrar. Parecia não querer ser vista. Carlo desistiu da intenção de abrir mais as persianas para que a luz dentro do escritório fosse mais do que a penumbra que amava. Calmamente e em silêncio voltou a sentar-se e indicou a cadeira na sua frente para que ela o imitasse. Não conseguia ver-lhe o rosto, era-lhe impossível reconhecê-la, ali agora e no futuro. Usava uns óculos escuros de lentes negras e grandes, tão grandes quanto possível para lhe cobrirem a maior parte do rosto. Alguns esquissos de pele pareciam querer emanar luz, mas toda ela estava vestida pela sombra do capuz de uma larga camisola verde, único foco de cor que respirava naquela sala.

Ela deteve-se um pouco em frente da cadeira que ele indicara. Depois pegou numa série de pastas e livros empoeirados que a ocupavam. Nem soube onde os pousar. Todo o escritório parecia um armazém de papeis velhos e objectos inúteis, tudo sem arrumação nem uma ordem aparente. Um caos. Partículas de pó ondulavam suavemente por entre os finos feixes de sol que penetravam na penumbra. Ele logo se levantou e tirou-lhe das mão a pilha de pastas e livros aproximando-se dela. Tentou senti-la com o olhar mas ela baixou a cabeça olhando para os seus pés, protegendo-se e depois recuando um passo. Ele atirou as coisas para um canto e por fim, ambos se sentaram.

– Boa tarde, sou Carlo G. Em que posso ajudá-la? – Perguntou ele.

– Boa tarde. Obrigado por me receber sem marcação. – Respondeu ela. – Preciso dos seus serviços. Disseram-me que era o melhor a encontrar pessoas.

– Não tem problema. Não sei quem quem lhe disse isso, mas sim, sou.

– Óptimo. Por momentos pensei estar enganada…

– Não se deixe enganar pela imagem deste escritório. O meu trabalho é essencialmente feito na rua. Aqui não encontro ninguém. Quem procura? Uma amiga, uma antiga paixão, um marido talvez infiel…?

– Não, nada disso. Estou a ser procurada e preciso que me encontre a pessoa que me procura.

Uma longa pausa fez parar o tempo depois daquele pedido. Tentou analisá-lo rapidamente, determinar um grau de estranheza qualquer mas não soube o que pensar. Poderia ser uma brincadeira, mas havia sinceridade no tom de voz dela, honestidade na velocidade das palavras que proferiu, e mesmo a postura e os gestos doces e previsíveis fizeram-no ter a certeza de que ela falava a sério, de que ela acreditava no seu pedido. Portanto devia ter alguma lógica.

– Então alguém está à sua procura mas a Sra… – Tentou saber o seu nome. – …quer que eu encontre essa pessoa antes ela a possa encontrar. É assim?

– Não. – Respondeu ela fazendo uma pausa como que a dizer que não iria dizer o seu nome, para depois continuar. – Alguém está à minha procura mas não me vai encontrar, pelo que preciso da sua ajuda para saber quem é para que ele me encontre.

– Ele? Sabe que é um “ele”?

– É sempre um “ele”.

– Pois… Nem sei por onde começar, vai ter que me dizer quem a Sra é, o que faz, coisas de si e do seu passado, quer dizer, tenho que conhecê-la bem para que eu consiga saber como ele a procura, para descobrir alguma coisa.

Ela levantou-se e preparou-se para sair.

– Mas já vai assim, sem me dar dados sobre si? – Insistiu ele.

– Boa tarde, Sr Carlo. Presumo que sempre foi bom a resolver mistérios, ainda que pelo que vejo pareça que ficou parado no tempo.

– Ouça!

– Tenha calma Sr Carlo. Por vezes, menos é mais.

– Como posso contactá-la? Como a chamo?

– Eu voltarei a si em breve. Pode chamar-me Carmo.

– Até breve, então.

– Conto consigo, Carlo G.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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