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ContosCultura

Prece

“Será que a mãe foi feliz?” pergunto ao meu irmão mais velho.

Ele olha-me com expressão de descabimento.

“Não é altura para isto” diz-me, dentes cerrados e voz dorida.

Olho para as flores. O caixão já foi coberto de terra e não podemos voltar atrás no tempo. É como se, antes do corpo estar no caixão e o caixão debaixo de terra, houvesse uma ínfima possibilidade de ser um engano: “Afinal não é assim, desculpe lá qualquer coisinha” anuncia Deus, encolhendo os ombros em jeito de vergonha.

Deus já foi meu amigo e eu dele. Não nos zangámos, foi uma separação natural. Como tantos outros amigos que vamos perdendo ao longo do caminho. Não sei qual de nós mudou, qual de nós cresceu e evoluiu e deixou o outro para trás, mas há algum tempo que não sei de Deus. Por vezes, tenho saudades. Hoje lembrei-me dele.

“Se tudo não passar de um engano, prometo mudar” tentei negociar olhando para o céu. O padre a falar, o caixão pronto a descer e eu a regatear eternidades com um conhecido omnisciente e distante: “Faço o que quiseres. Por favor. Faz com que ela volte. Dá-me um sinal.”

O padre a dizer as últimas palavras, as pessoas cabisbaixas, tudo igual. O tempo lento e rápido e inexistente. O meu desespero a rebentar-me os órgãos, sem caber em mim.

O tempo passou. O caixão já está debaixo de terra. A minha mãe não se levantou e Deus nem se dignou a responder-me. Deve ter mudado de número. Olhei para o padre como se ele me pudesse ajudar, orar por mim, por ela. Ele olhou para mim com compaixão. Decidi não lhe dizer nada.

As pessoas dão-me os pêsames; a mim, ao meu pai e ao meu irmão. Nem oiço o que dizem, de vista presa às coroas de flores por cima da terra mexida. Renego Deus. Renego-o. Será que posso fazer um pacto com o Universo? E com o Inferno?

Ridícula, esta esperança que tenta juntar o meu interior despedaçado. O absurdo da realidade. A falta de sentido que tem a única certeza que conhecemos, mas para a qual nunca nos conseguimos preparar.

Agora sou sozinho. Sou tão sozinho. É mais do que a efemeridade do estar, é muito mais infinito e perpétuo, cru. Somos os três sozinhos, até tendo-nos uns aos outros no sangue. Sim, posso estar errado, sentir-me ser quando só estou, voltar a respirar daqui a uns tempos. Mas hoje não é essa a minha verdade. Hoje não me interessam as outras pessoas que fazem parte do meu coração. Hoje, tenho direito à revolta e à auto-comiseração, à tristeza, ao ilógico.

Estamos os três desamparados e olhamos para a nossa ausência.

“Será que a mãe foi feliz?” volto a preocupar-me. Esta pergunta não me deixa dormir desde que ela adoeceu. “Será que a vida dela foi importante? Para que é que serve viver, no fundo?”

O meu irmão olha-me com raiva, pergunta: “como és capaz de fazer isto agora, estúpido? Cala-te, pá. Foda-se.”

O meu pai nem vira a cabeça. Algo nos seus ombros descaídos me diz que a tristeza dele é muito maior ao ouvir essa pergunta. Acho que o meu pai me compreende.

“Pai.”

Toco na mão dele. Roço as pontas dos meus dedos na palma semi-aberta dele, como a minha mãe me fazia quando eu era pequeno, para adormecer. Às vezes rezava-me, outras cantava-me. Ainda hoje, quando me deito, não consigo afastar de mim a estranheza de me faltar qualquer coisa. Adormeço sempre com o som murmurado da rádio.

“Pai.”

Não sei se ele me ouve. Sinto-me drenado e chateado. Exijo que ele me arranque esta dúvida que começa a sufocar-me, e ele é meu pai, é a única pessoa que pode fazer com que o meu mundo volte a ter sentido.

Quero que ele me diga para que é que serve viver. Se as viagens que ele fez com a minha mãe – correndo de comboio em comboio e de país em país, horas de sono a menos a pesar dentro das mochilas, a imortalidade da juventude em cada ideal – foram suficientes. Se estarem juntos vinte e cinco anos – as discussões e o amor, o meu irmão e eu, a separação – foi suficiente. Se toda a vida que eu vejo em fotografias, se toda a vida que nunca conheci e me parece impossível – eles tão crianças como eu fui e com sorrisos tão jovens e com aventuras tão incríveis –, foi suficiente. Se aquilo que ela cheirou e tocou, se aquilo de que se riu e com que se admirou foi suficiente para justificar viver o sofrimento dos últimos meses.

Quero que ele me diga qual é o motivo para estarmos vivos. Para que serve isto tudo? Há alguma coisa no mundo, alguma explicação ou segredo que eu não conheça ainda e que justifique este rasgar violento da nossa pele? Porque eu não consigo encontrar nenhuma razão superior para que a minha mãe se perca de nós, para que não possa continuar a roçar as pontas dos seus dedos finos nas nossas mãos, a viajar e a chorar, a cantar e a surpreender-se. Não encontro motivo para o tempo continuar nos relógios dos outros, para ela só poder ser passado a partir de agora. Sim, a vida continua, como todos dizem – e é justamente isso que mais dói.

Quero que ele me diga se ela foi feliz. Que ela foi feliz.

“Faço o que quiseres” repito a Deus – não, ao Universo –, lançando ao desespero esta última prece.

O meu pai afasta-se devagar. Sei que é pedir-lhe muito que me tire esta angústia. Ele tem dores que eu desconheço. Eu tenho dores que ele desconhece. Olho o meu irmão, que olha para longe. Estamos tão abandonados e tão longe uns dos outros.

Debaixo de terra está ela. Não conseguimos ir embora e deixá-la.

“Mãe.”

Digo baixinho. Ela já não me ouve.

E eu penso que somos tão insignificantes que, quando perdemos o nosso mundo, nada se altera no Universo. Apenas nós.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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