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Praxes na Casa dos Segredos

Já consegui fazer com que abra este artigo? Então permita-me esclarecê-lo. Não, esta crónica não é directamente sobre o caso das “supostas” praxes no Meco, ou sobre algum caso “picante” desse programa de um canal de televisão, desenganem-se os fãs das revistas cor-de-rosa, não vou escavacar a vida alheia!

Contudo, olhando atentamente para as últimas semanas e para alguns casos que têm sido consecutivas manchetes, sinto que é necessário deixar algumas notas para reflectir.

1. Deixámos, enquanto sociedade, de cultivar o jornalismo, substituindo-o pelo sensacionalismo, esquecendo que muitas vezes estão pessoas envolvidas, que têm sentimentos e vida própria. O jornalismo deixou de ser um meio de fazer chegar conteúdo e informação às pessoas, tornando-as mais livres, e passou a ser, muito impulsionado por uma utilização perniciosa das redes sociais, um aproveitamento de tudo o que é a vida alheia, ou pormenores sórdidos sobre qualquer coisa, nomeadamente dessas figuras VIP, criadas pela própria comunicação social, puros objectos de marketing. No entanto, os meios encontraram novas formas, muito mais produtivas e mais baratas, de obter audiências, pessoas anónimas e casos reais.

2. Nos últimos anos, vimos um proliferar de reality shows e os jornais e revistas passaram a apostar em casos de dramatismo e violência emocional. Note-se que num país em crise (teoricamente), o Canal 24 Horas do site oficial da Casa dos Segredos teve nesta última edição mais de 500 mil acessos e mais de 30 mil pessoas a pagaram para poderem aceder ao conteúdo. Sim, estamos a falar de valores pequenos, mas não tem a ver com valores, tem a ver com opções. É também verdade que este foi o programa que mais queixas teve pelo seu próprio conteúdo, nomeadamente linguagem ofensiva em horário nobre.

3. Nas redes sociais, os posts com mais comentários e visualizações são os que falam de vida alheia, independentemente da circunstância. Vejam-se também os comentários reveladores, que muitos nem sequer se dão ao trabalho de ler as notícias antes de, solicitamente, darem voz às suas revoltas interiores.

4. Comecei por falar no caso dos jovens que morreram no Meco. A comunicação social tem-se dado ao trabalho de cobrir intensivamente todo este caso, explorando-o de formas absolutamente macabras. Houve mortes, há famílias afectadas, sentimentos à flor da pele. Procuram-se culpados e vítimas, até bodes expiatórios se encontram, simplesmente porque a comunicação social, como um vampiro sedento, está a explorar o caso duma forma sensacionalista e poucas vezes séria. Até uma reconstituição do caso (algo que, eu ia jurar, deverá ser feito pela Polícia Judiciária, no âmbito da investigação) um canal de televisão (ou mais, recuso-me a ver muito desse lixo) já fez, tendo-o devidamente promovido ao longo do dia das mais diversas formas antes de o emitir à noite.

5. Aproveitando o caso do Meco e das Praxes, esta situação revela que, infelizmente, ainda hoje, em Portugal se prefere criticar e crucificar sem sequer dar, antes, espaço ao esclarecimento. Isto refere-se não só ao caso das Praxes (que maior parte nem sequer tem noção muito bem do que é, nem sequer os próprios alunos praxados, muitas vezes) como a múltiplas situações na nossa sociedade.

6. O nosso mundo está em mudança e estamos num momento em que a podridão das sociedades começa a vir ao de cima. Os mais incautos poderão automaticamente pensar nos nossos políticos e, sem dúvida, não deixarão também de ter razão, mas nunca nos poderemos esquecer que a sociedade é um todo de causa e consequência. Se olharmos mais atentamente para os valores que nos têm estado a pautar, provavelmente vamos rapidamente compreender que o caminho que temos feito, de crises financeiras e económicas, com paralelos problemas crescentes de situações graves em termos sociais, são reflexo de uma filosofia social com longas décadas (senão séculos) de existência. Hoje sabemos, historicamente, que a principal razão de queda de grandes impérios não se prendeu com questões políticas ou económicas, mas sim por um decair progressivo dos valores sociais que, na verdade, são apenas o reflexo dos valores individuais dos seus membros.

7. Antes que me venham dizer que é por causa das políticas governamentais que estamos desta forma, eu deixo já uma simples dica. Antes de culparem ou apontarem o dedo, que cada um de nós tenha a capacidade de se colocar em causa.

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d'Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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